Num domingo histórico para o futebol feminino português, o Benfica venceu o FC Porto por 2-0 na final da Taça de Portugal, disputada no Estádio Nacional. O primeiro clássico feminino entre as duas equipas principais ficou marcado pela superioridade inequívoca das encarnadas, que justificaram o estatuto de hexacampeãs nacionais e celebraram a conquista da “dobradinha” perante mais de 22 mil adeptos.
Em relação ao jogo, havia uma sensação de ocasião especial no ar, sendo que pela primeira vez, as equipas femininas de Benfica e FC Porto mediam forças num jogo oficial com o peso de uma final da Taça de Portugal. De um lado, as águias, uma potência consolidada à procura do terceiro troféu na prova. Do outro, as dragões, numa ascensão meteórica que as levou da II Divisão ao Jamor em apenas duas épocas, prontas para escrever um conto de fadas.







As bancadas do Estádio Nacional responderam à altura da ocasião. 22.258 pessoas marcaram presença, estabelecendo um novo recorde de público para uma final feminina da Taça no Jamor. O recinto pintou-se de vermelho e azul, com clara vantagem numérica para os adeptos benfiquistas, que transformaram o estádio num mare magnum de cachecóis e cânticos.
Do lado oposto, os portistas, embora em menor número, fizeram-se ouvir, cientes de que estavam a assistir ao nascimento de um novo capítulo na rivalidade entre os dois clubes. O Presidente da República, António José Seguro, na tribuna ao lado de Rui Costa e André Villas-Boas, testemunhou um ambiente de festa que poucas vezes se viu no já velhinho Jamor, um recinto que voltou a mostrar a necessidade de uma intervenção de fundo.












Um início fulminante e controlo total do Benfica
Se havia dúvidas sobre o fosso de experiência e poderio físico entre as duas equipas, elas dissiparam-se logo aos quatro minutos. O Benfica entrou com uma intensidade avassaladora, encostando o FC Porto ao seu meio-campo defensivo e não dando qualquer hipótese de reação.
O primeiro golo surgiu de uma jogada de insistência. Num livre lateral batido por Marit Lund, a bola sobrou na área num lance de “salta-pocinhas”. Pauleta, com um toque subtil, serviu Caroline Möller, que não desperdiçou, atirando implacavelmente para o fundo das redes. A euforia inicial dos encarnados ainda sifreu um arrefecimento quando a bandeira da fiscal de linha subiu, mas a alegria rapidamente regressou: o VAR, chamado a intervir, confirmou a legalidade do lance, e o golo foi validado. O Jamor explodiu em festa, e a vantagem precoce ditaria o destino do jogo.
“O melhor desta época ficou para o fim e isso demonstra muita resiliência deste grupo”, afirmaria mais tarde o treinador das encarnadas, Ivan Baptista, numa clara exibição de poderio tático. A sua equipa não se limitou a gerir a vantagem, mas antes procurou sempre mais. Com um bloco subido e uma pressão asfixiante, as águias raramente permitiram que as portistas respirassem. A defensiva do FC Porto, bem-intencionada mas inexperiente, via-se constantemente assolada pela velocidade e mobilidade de Nycole Raysla e Diana Silva.







As portistas, por seu turno, mostravam as limitações de quem está habituado a dominar na segunda divisão. Lily Bryant, a principal referência ofensiva, surgiu isolada aos 10 minutos, mas viu a sua tentativa heroicamente travada pela saída à bola da guarda-redes Lena Pauels, a guardiã alemã do Benfica que teve uma tarde de “trabalho leve” graças à sólida muralha defensiva à sua frente.
A bola parada como assinatura
A supremacia benfiquista era tal que, mesmo sem conseguir criar situações flagrantes de bola corrida — fruto do enorme congestionamento montado pelo FC Porto —, as encarnadas tinham nas bolas paradas uma arma letal.










Aos 40 minutos, o coroamento dessa eficácia. Num canto batido por Anna Gasper, Diana Silva elevou-se no ar com uma capacidade de salto impressionante, desviando a bola para o segundo poste. Lá estava, como uma predadora na pequena área, Caroline Möller para, com um desvio certeiro, fazer o segundo golo do seu “bis” pessoal e sentenciar a partida.
Era o reflexo perfeito do jogo: o Benfica, frio e objetivo, a aproveitar cada oportunidade; o FC Porto, esforçado e guerreiro, mas incapaz de estancar o talento adversário.
Segunda parte de gestão e festa nas bancadas
A segunda parte foi um exercício de gestão de esforço por parte do Benfica. Com dois golos de avanço, e enquanto o público ensaiava a Ola mexicana nas bancadas, ou em meia bancada já que um dos topos ficou mais despido face ao menor número de adeptos do FC Porto, as águias baixaram ligeiramente o ritmo, mas mantiveram sempre o controlo da posse de bola, jogando num ritmo de treino e raramente concedendo espaço para perigo.









O FC Porto, com o coração a falar mais alto, tentou uma reação tímida. Aos 55 minutos, Eliza Turner, numa arrancada solitária pela esquerda, fletiu para o centro e rematou com força, obrigando Lena Pauels a uma defesa apertada para canto. Foi o único sobressalto para as hexacampeãs. A partir daí, o jogo tornou-se um monólogo. O Benfica passou a “rolar” a bola, com Lúcia Alves e Nycole Raysla a criarem constantes desequilíbrios, enquanto os adeptos na bancada ensaiavam cânticos de vitória.
Nos minutos finais, Ana Clara Oliveira ainda teve nas suas botas a oportunidade para o terceiro golo das encarnadas, mas atirou à barra. A bem da verdade, também já não interessava. O apito final de Teresa Oliveira surgiu pouco depois e desencadeou a loucura no relvado e nas bancadas.








Conclusão: Um futuro promissor
A vitória do Benfica acabou assim por ser mais do que justa, revelando-se a afirmação de um projeto sólido, experiente e dominador, que completa a “dobradinha” (Campeonato e Taça) pela segunda vez na sua história.
Mas a grande vencedora deste final de tarde no Jamor foi, provavelmente, a modalidade. O FC Porto, apesar da derrota, saiu de cabeça erguida. As suas jogadoras, muitas delas a disputar a primeira final, mostraram garra e compromisso. A chorar no final, percebeu-se que a responsabilidade do emblema já pesa nos ombros da equipa feminina. Com a subida à Liga BPI garantida na próxima época, a promessa de mais clássicos de alto nível no futuro é uma excelente notícia para o desenvolvimento do futebol feminino em Portugal.
Deixamos a garantia: o primeiro clássico nunca se esquece, e este ficará na memória como o dia em que o Jamor viu nascer uma rivalidade que veio para ficar.
















