O Estádio António Coimbra da Mota, no Estoril, foi, neste sábado, 16 de maio, o palco de um jogo que teve algum bom futebol praticado, muito sentimento e, sem dúvida, uma inevitável resignação. O Benfica venceu o Estoril Praia por 3-1, num encontro da 34.ª e última jornada da Liga, mas saiu da Amoreira com o sabor amargo de saber que, por mais expressiva que fosse a vitória, esta seria sempre insuficiente para alcançar o principal objetivo traçado há várias semanas para a fase final do presente campeonato: o segundo lugar e o consequente bilhete para a Liga dos Campeões.
Enquanto as águias dominavam o adversário no relvado do Estoril, o Sporting, em Alvalade, fazia a sua parte e vencia o Gil Vicente, mantendo a vantagem no segundo lugar e deixando os encarnados com a sensação de que 80 pontos e um campeonato sem derrotas (para além desta derradeira vitória por 3-1 fora de casa) souberam a pouco. Foi o retrato de uma época de “quase” para os pupilos de José Mourinho.




Primeiro tempo avassalador
decide o destino do jogo
Se o objetivo europeu estava dependente de um milagre que nunca chegou de Alvalade, dentro das quatro linhas o Benfica não deixou margem para dúvidas. A equipa da Luz entrou em campo com a fúria de quem queria resolver o assunto rapidamente e pressionar o rival, tendo produzido um dos melhores primeiros tempos da temporada.
O marcador começou a mexer muito cedo. Aos 7 minutos, Richard Ríos apareceu na área a castigar a passividade da defesa canarinha, finalizando com segurança para o 0-1 . A equipa de José Mourinho não abrandou e, num rompante avassalador entre os minutos 14 e 16, decidiu a contenda.
Primeiro, aos 14′, o lateral Alexander Bah aproveitou um cruzamento na sequência de um canto para, de pé direito, aumentar a vantagem. Ainda os adeptos locais não tinham digerido o segundo golo, e Rafa Silva fez a festa. Aos 16 minutos, o extremo recebeu na esquerda, isolou-se e, com um remate colocado e rasteiro, assinou o terceiro golo da partida e o centésimo da sua carreira com a camisola do Benfica .
Com 3-0 no marcador e uma exibição de grande critério, o Benfica geriu o esforço na segunda parte, com o Estoril a reduzir para 3-1 já nos descontos, por Peixinho, num golo que em nada alterou a história do jogo .




O “adeus” de Pizzi permitiu
a verdadeira razão para a emoção
Esta noite de 16 de maio, no estádio António Coimbra da Mota, não pertenceu apenas ao resultado ou à matemática da classificação, isto porque o centro das atenções, e o coração de todos os presentes, esteve entregue a Luís Miguel Fernandes, mais conhecido como Pizzi.
Aos 36 anos, o médio despediu-se relvados, e fê-lo de forma agridoce: representando o Estoril, o clube da sua terra, mas contra o Benfica, o clube onde fez história e conquistou 10 títulos (incluindo quatro campeonatos) ao longo de 360 jogos. O momento mais alto da noite aconteceu aos 57 minutos, quando Pizzi foi substituído.
Nesse instante, o árbitro interrompeu o jogo, e jogadores das duas equipas formaram uma emocionante “guarda de honra” para aplaudir a saída do veterano. A bancada do Estádio António Coimbra da Mota, composta por adeptos de ambas as cores, levantou-se numa tremenda ovação, permitindo um raro momento de união no futebol português, onde o respeito pela carreira de um dos grandes talentos da geração falou mais alto do que a rivalidade.




A possível saída de Mourinho
e os ecos do Real Madrid
Se a despedida de Pizzi aqueceu os corações, a possível saída de José Mourinho do comando técnico do Benfica esfriou as esperanças dos adeptos encarnados para o futuro, quer entre os defendem a sua continuidade na Luz, mas também entre os que o apontam como “sem garra”. Durante toda a semana, a notícia de que o Real Madrid estaria disposto a pagar a cláusula de rescisão do treinador pairou sobre o clube e as notícias que se foram avolumando dando conta de 99,9 por cento de certezas na sua transferência para os merengues só fizeram aumentar a polémica e a contestação.
Antes do jogo, as perguntas eram tantas sobre o futuro do treinador quanto sobre a tática para vencer o Estoril. Durante o jogo, a vitória fácil foi ofuscada pelos rumores de que aquele poderia ser o último triunfo de “Mourinho 2.0” na Luz, o mesmo que antes tinha perguntado “quem é o treinador que pode dizer não ao Benfica?” E depois do jogo, com a falha da Champions consumada, a análise foi unânime: a época foi um fracasso desportivo, a cláusula de rescisão de 7 milhões de euros que permite a saída do técnico até 26 de maio parece ser o desfecho mais provável, e Mourinho poderá agora perguntar, no mesmo tom… quem é o treinador que pode dizer que não ao Real Madrid?
Com o segundo lugar perdido e a Champions fugida, Mourinho, que declarou que a “próxima semana será importante” para o seu futuro, dificilmente encontrará argumentos para se manter num projeto que não atinge os objetivos mínimos, deixando um Benfica em que o seu presidente, Rui Costa, mesmo que confirme o nome de quem se fala para suceder a José Mourinho – Marco Silva –, surgirá sempre como um presidente fragilizado, alguém que não soube lidar com um “Special One” sem dúvida melhor comunicador, mais forte e mais habituado a lidar com os bastidores do futebol na alta roda mundial.



Benfica de Mourinho falha Liga dos Campeões
e repete o que fez Quique Flores há 17 anos
Com este resultado, o cenário ficou definido. O Benfica termina o campeonato no 3.º lugar com 80 pontos, sendo ultrapassado pelo Sporting, que chegou aos 82. Este resultado condena as águias à Liga Europa na próxima época, falhando os lugares de acesso à Champions, algo que já não acontecia desde a longínqua época de 2008/2009, quando os encarnados terminaram o campeonato então também no terceiro lugar, o que veio a determinar a saída do técnico que orientava o Benfica, o espanhol Quique Flores.
O terceiro lugar dos encarnados e o acesso à “menor” Liga Europa resulta assim em um prémio muito abaixo do investimento feito e da exigência histórica do clube. Por tudo isso, o futuro imediato é de incerteza: além da quase certa saída de Mourinho, espera-se uma revolução no plantel e um aumento exponencial das exigências de resultados por parte dos adeptos, que dificilmente irão permitir tempo para construção de projetos que sejam sequer a médio prazo.
Já o Estoril Praia encerra a temporada num tranquilo 10.º lugar, somando 39 pontos. Cumpriu o objetivo da manutenção com algumas jornadas de antecedência e proporcionou aos seus adeptos a despedida emotiva de Pizzi. O foco do clube da linha de Cascais estará agora em consolidar a estrutura para evitar novos sustos no futuro.


Ficha de Jogo
Competição: Liga Portugal Betclic – 34.ª Jornada
Data: 16 de maio de 2026
Local: Estádio António Coimbra da Mota, Estoril
Árbitro: (Informação não disponível nas pesquisas)
Estoril Praia: 1
Benfica: 3
Estoril Praia – Robles, Ferro (Boma, 46′), Bacher, Xeka; Gonçalo Costa (Pedro Amaral, 46′), João Carvalho, Holsgrove, Ricard Sanchez; Pizzi (Guitane, 59′), Begraoui e André Lacxmicant (Peixinho, 70′).
Benfica – Trubin, Bah (Dedic, 69′), Tomás Araújo, Otamendi, Dahl; Ríos, Aursnes; Schjelderup, Rafa (Barreiro, 69′), Prestianni (Lukebakio, 69′); Pavlidis.
Golos:
No horizonte imediato do Benfica antecipa-se desde já uma semana particularmente agitada, com Mourinho a ser, certamente, o centro das atenções, seguindo-se depois a construção de um novo plantel, o gasto de somas avultadas para a sua construção e o aquecer dos ânimos benfiquistas que, a curto prazo, serão alimentadas por duas assembleias gerais que prometem polémica e contestação para os atuais dirigentes do clube da Luz. É caso para dizer para o campeonato terminou, mas o Benfica ainda tem muito jogo pela frente antes das férias de verão.









