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Golo traiçoeiro do Arsenal ao cair do pano derrotou o esforço do Sporting

Foi uma injustiça com cara de relógio a correr. O Sporting entrou em Alvalade disposto a desafiar a lógica, a história e os orçamentos, e durante 92 minutos conseguiu fazê-lo com uma autoridade que raramente se vê num “underdog” europeu. Criou as melhores oportunidades, anulou as referências ofensivas do Arsenal e teve o destino na ponta da bota. Mas o futebol, esse velho trapaceiro, reservava a derradeira lição para o momento em que a Sorte já fazia as malas para o túnel.

O 0-1 final, fruto do golo apontado por Kai Havertz, ele que saiu do banco de suplentes para resolver, é muito mais do que um resultado. É um paradoxo: Rui Borges venceu a batalha tática, mas perdeu a guerra do marcador. E no primeiro de dois jogos a eliminar, isso é tudo o que dói. E claro que a jornada época conseguida frente ao Bodo/Glimt já mostrou que este Sporting é capaz de grandes feitos, mas também é verdade que a sorte nem sempre bate duas vezes à mesma porta.

A noite de Raya e a sinfonia inacabada dos leões

Se há um nome que merece todas as luzes do palco, esse é David Raya. O guarda-redes espanhol foi nomeado o Homem do Jogo, mas essa designação fica aquém da realidade. Raya foi o grande obstáculo, a muralha inesperada, o fantasma que pairou sobre Alvalade sempre que a bola voava em direção à baliza inglesa.

Logo aos seis minutos, ainda os cérebros não tinham assimilado o peso do momento, Ousmane Diomande soltou um pontapé de trivela, digno de craque, servindo Maximiliano Araújo que apareceu solto na esquerda para um remate forte e colocado. O tiro de Maxi foi violento, direcionado, perfeito, valendo ao Arsenal o facto de Raya, com a ponta dos dedos, ter conseguido o desvio da bola para o ferro da barra. Poucos guarda-redes no mundo chegariam àquela bola, mas Raya chegou, tendo repetido a proeza mais tarde quando, já no segundo tempo, negou um golo a Geny Catamo quando mergulhou para travar o caminho da bola bem junto à base do poste da baliza do Arsenal que parecia destinado a dar o golo caseiro.

Do outro lado, junto à baliza de Rui Silva, o regressado Viktor Gyokeres foi uma sombra de si mesmo. Recebido sem animosidade, antes com o carinho de quem nunca saiu da memória dos adeptos por tudo aquilo que fez quando envergou a camosila listada de verde e branco, o avançado sueco sentiu na pele a eficácia da estratégia leonina e, há que o dizer, a qualidade do central Diomande, que nunca lhe deu espaço para colocar o pé em ramo verde.

Raramente Gyokeres tocou na bola e, quando isso aconteceu, foi para participar num momento amargo: o golo de Martin Zubimendi (aos 63 minutos) foi anulado por fora de jogo, com o próprio Gyokeres a estar em posição irregular no início da jogada. Outrora o “rei” de Alvalade, voltou esta terça-feira a uma casa onde foi feliz, mas os seus súbditos não lhe deram espaço para reinar.

Arteta vs. Rui Borges: o banco de suplentes decidiu

Dentro e fora das quatro linhas, o jogo foi um duelo tático fascinante. Rui Borges, o técnico leonino, desenhou um plano perfeito para travar a máquina inglesa. Com um meio-campo pressionante e linhas curtas, ponde Morita e João Simões cumpriram o que lhes foi pedido, o Sporting não só anulou o Arsenal como conseguiu feri-lo nos contra-ataques. A equipa superou as expectativas na exibição: foi agressiva, vertical e teve critério.

Do lado de Mikel Arteta, a noite era de aflição até aos 70 minutos. Com Odegaard apagado e Trossard ineficaz, o plano A tinha falhado. Foi então que o técnico espanhol puxou dos galões. Lançou Kai Havertz e, mais tarde, Gabriel Martinelli. Aí, ao mesmo tempo que o desgaste físico começava a castigar os leões, a renovada frescura dos “Gunners” fez a diferença.

Quando tudo apontava para o empate sem golos – um resultado que, diga-se, seria justo pelo que os olhos viram –, Martinelli fugiu pela esquerda e serviu Havertz. O alemão, frio como o vidro do relógio que apontava para os instantes finais da partida, desviou para o fundo das redes aos 90+1, assinando aquele que foi o oitavo golo de um suplente do Arsenal na Champions da presente época. Uma estatística que revela profundidade de plantel, mas que para o Sporting soa a azar.

O calendário apertado e a chama da remontada

Perante este resultado, algo cruel para os leões, a viagem a Londres, na próxima quarta-feira, é agora uma missão quase hercúlea. O Sporting terá de vencer no Emirates, algo que parece estar apenas ao alcance de gigantes.

É certo que os leões têm um pequeno consolo, isto porque já vão poder contar com a presença na equipa do “capitão” Morten Hjulmand, peça fundamental no equilíbrio da equipa do Sporting que esteve ausente por castigo nesta primeira mão. A sua liderança e pulmão serão armas essenciais na segunda mão, sendo certo que o técnico Rui Borges terá que recorrer a todos os fatores positivos para levar os seus jogadores a acreditarem que é possível ao David de Alvalade vencer o Golias do Emirates. Acreditar que é possível é o primeiro passo para o fazer.

No entanto, a travessia no deserto antes do apito final em Londres é assustadora. Pelo meio e logo depois, o calendário nacional para o Sporting não perdoa: visita ao Estrela da Amadora, receção ao Benfica e um jogo com o FC Porto para a Taça de Portugal. O corpo e a alma dos leões vão ser testados ao limite e Rui Borges terá de gerir uma atividade desportiva particularmente intensa e sem espaço para descansos enquanto mantém viva a chama em três competições. Tudo é ainda possível vencer, mas também tudo poderá fugir do alcance do Sporting.

PAra já, o resultado do jogo desta terça-feira foi duro, foi aquele tipo de derrota que não se espera, que não se justifica pelo que se viu em campo, mas que define a Champions League: a eficácia fala mais alto que a posse de bola, e a sorte, muitas vezes, protege mesmo os audazes.


FICHA DE JOGO

  • Competição: Liga dos Campeões da UEFA (Quartos de Final – 1.ª Mão)
  • Local: Estádio José Alvalade, Lisboa
  • Data: 7 de abril de 2026
  • Resultado: Sporting CP 0-1 Arsenal
  • Golo: Kai Havertz (90+1′)
  • Homem do Jogo: David Raya (Arsenal)
  • Árbitro: Daniele Siebert (Alemanha)
  • Sporting CP (Treinador: Rui Borges): Rui Silva; Fresneda, Diomande, Gonçalo Inácio, Maxi Araújo; João Simões (Daniel Bragança, 62′), Morita; Geny Catamo, Francisco Trincão, Pedro Gonçalves (Rafael Nel, 79′); Luis Suárez. 
  • Arsenal (Treinador: Mikel Arteta): Raya; White, Saliba, Gabriel, Calafiori; Rice, Zubimendi; Madueke (Dowman, 76′), Odegaard (Havertz, 70′), Trossard (Martinelli, 76′); Gyokeres. 
  • Próximo Jogo: 15 de abril (Quarta-feira), no Emirates Stadium, Londres.
texto: Jorge Reis
fotos: Diogo Faria Reis e Pedro Loureiro/Avantsports

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