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Leões desperdiçam vantagem in extremis e vêem o “Mundo” ruir em dois minutos

Há jogos que parecem escritos nas estrelas, e o Sporting já viveu alguns esta época, nomeadamente na campanha que realizou na milionária Liga dos Campeões, mas outros há que, em sentido contrário, parecem realmente mal-assombrados, sendo o embate desta quarta-feira frente ao Tondela, um exemplo claro desses jogos que no passado dariam azo a que se falasse em bruxarias e atos do oculto.

Na verdade, porém, o que se passou esta noite no Estádio José Alvalade, na recepção ao Tondela, insere-se numa terceira categoria: a da tragédia. O colombiano Luis Suárez, que já não marcava há seis partidas, até voltou aos golos, mas o pesadelo leonino veio depois e para ficar, isto porque, num ápice, o segundo lugar ficou mais longe e a contestação acentuou-se a partir das bancadas onde, imagine-se, até se viram lenços brancos a Rui Borges.

Numa partida de capital importância, referente à 26.ª jornada da I Liga agora realizada para acerto de calendário, o Sporting desperdiçou da forma mais dramática e improvável a oportunidade de respirar na luta pelo segundo lugar. Depois de controlar o adversário durante 90 minutos e vencer por 2-0, os leões permitiram o empate a dois golos, com os visitantes a marcarem… aos 90+2 e 90+4. O vilão da noite, ou melhor, o herói improvável, chama-se Cícero, um médio que regressou neste jogo à actividade depois de vários meses a recuperar de uma lesão que o retirou das partida do Tondela.

Um adeus (matemático) ao título

O resultado não é apenas mau… é catastrófico para o imaginário leonino. Com este empate, o Sporting passa a somar 73 pontos, falhando o salto para o segundo lugar. Pior… com apenas três jornadas pela frente, a diferença para o líder FC Porto (82 pontos) é agora de nove pontos, pelo que, mesmo que os ‘dragões’ percam os três jogos que faltam, os leões nunca mais os conseguem alcançar. A revalidação do título, que já era uma miragem, ficou definitivamente arrumada.

“O FC Porto pode perder os três jogos que ainda tem para disputar que ficará sempre à frente do Sporting”, resume a matemática cruel que pairou sobre as bancadas no apito final. Mas a tragédia leonina tem mais contornos, nomeadamente aqueles que envolvem o eterno rival do outro lado da Segunda Circular, isto porque a luta pelo acesso direto à milionária Liga dos Campeões também se complicou: o Benfica (75 pontos) aproveitou o deslize para se isolar no segundo posto, deixando os verdes e brancos a dois pontos, numa altura em que a equipa parece em queda livre.

“Intolerável”: Primeira parte sonolenta

O aviso estava na calha. Antes do intervalo, em uma tarja exibida por uma das claques do Sporting lia-se: “Intolerável, exigimos mais”, isto quando o Sporting chegava a esta partida depois de quatro jogos sem ganhar. E o pior é que pelo meio já tinha ficado praticamente arredado da corrida pelo título, depois de ter empatado perante o último classificado, o AFS, e comprometia a possível conquista do segundo lugar na I Liga e consequente entrada na Champions. A vitória perante o Tondela era por isso imprescindível para que todas as portas ficassem em aberto para Rui Borges e seus pupilos.

O treinador do Sporting, ciente do calendário apertado e do plantel “preso por arames”, rodou a equipa. Apostou no regresso de Luis Suárez ao ataque, mas deixou Francisco Trincão, a sua arma mais utilizada, a descansar no banco. A aposta, todavia, saiu furada, tendo o Sporting, nos primeiros 45 minutos, apresentado um futebol lento, previsível e sem rasgo, levando mesmo os adeptos leoninos a assobiar os seus ídolos de outras conquistas.

Do outro lado, o técnico Gonçalo Feio montou o Tondela com uma muralha de seis defesas, fechando o corredor central com uma disciplina cirúrgica.

Sem Trincão para desequilibrar, Pedro Gonçalves (Pote) atolava-se no miolo, Geny Catamo e Quenda estavam apagados nas alas, e a bola raramente chegava limpa a Luis Suárez, que andava há mais de um mês sem marcar. Foi um primeiro tempo de enorme sofrimento para quem pagou o bilhete.

A ilusão: Trincão entra, Sporting “acorda”

A segunda parte começou sem vibração com um leão sem garra nem ideias, perante um Tondela que continuava a fazer o que podia para iludir a diferença enorme de qualidade entre os dois conjuntos. Até que Rui Borges mexeu na sua equipa, aos 56 minutos, quando lançou Francisco Trincão e Salvador Blopa, levando a que o mundo mudasse (um pouco) de cor.

Trincão assumiu o corredor central, libertou Pote para a esquerda e deu nova dinâmica à equipa. Aos 62 minutos, a recompensa: Luis Suárez apareceu como um verdadeiro ponta-de-lança para desviar de primeira um cruzamento de Blopa. Era o 25º golo do colombiano no campeonato, quebrando o jejum e acendendo a luz… em Alvalade.

A equipa do Sporting finalmente cresceu, apareceu mais lá na frente, e conseguiu mesmo aos 78 minutos o que parecia ser o “golo de segurança”. Geny Catamo rematou forte e o defesa João Silva, com um gesto infeliz, desviou a bola para a própria baliza. Estava feito o 2-0 para a turma leonina que, em Alvalade e perante o seu público, perante o penúltimo classificado no campeonato, tinha pássaro na mão, aparentemente depenado e sem condições para voar.

O jogo parecia resolvido pelos pupilos de Rui Borges, a história escrevia-se a verde e branco e os cerca de 30 mil adeptos (num estádio com muitas cadeiras vazias) respiravam de alívio. A tal faixa que apontava a realidade como “intolerável” continuava lá, mas ninguém imaginava que voltasse a fazer tanto sentido.

Do céu ao inferno em 120 segundos

Faltava o costumeiro “minuto do Tondela”, mas o que se seguiu foi um verdadeiro golpe de teatro que faria corar qualquer dramaturgo.

– 90+1′ | Apontada uma grande penalidade favorável ao Tondela, o que desde logo fez tremer os adeptos leoninos, eis que o guarda-redes Rui Silva consegue a defesa que podia ter salvo tudo: Makan Aiko atirou para a baliza de Rui Silva mas este desviou a bola para a linha de fundo naquilo que parecia ter sido o selo da vitória.
– 90+2′ | Obra do acaso: No canto que resultou da defesa de Rui Silva, Salvador Blopa, que até tinha feito uma boa entrada no jogo, tentou cortar um desvio de Cícero e… fez autogolo. 2-1. O medo instalou-se nas bancadas e muitos adeptos começavam a jurar que já tinham visto aquele filme.
– 90+4′ | O golpe final: A equipa tremeu. Num novo canto favorável ao Tondela, no meio da área leonina voltou a aparecer o mesmo Cícero, ele que tinha regressado há poucos minutos de uma longa lesão, subiu mais alto que a defensiva leonina e cabeceou para o fundo das redes. Congelou o estádio ao assinar o 2-2.

Depois de Rui Silva ter defendido um penálti, os leões celebraram como se nada mais pudesse acontecer e o céu caiu-lhes em cima. Concederam golos aos 90+2 e aos 90+4 e deitaram tudo a perder, perante um conjunto beirão que luta desesperadamente para não descer e provou que está “vivo”, como diria o próprio Cícero no final do jogo.

Esperança beirã renascida

Deixando uma palavra para o Tondela, há que aplaudir a crença mantida pelos homens de Gonçalo Feio até ao fim. Fazendo omeletes sem ovos, que o mesmo é dizer que procurou os golos sem um goleador lá na frente, porque o clube beirão simplesmente não tem um jogador com essas características, apostou nas bolas paradas e tirou o melhor partida dessa estratégia.

Com este empate em Alvalade, o Tondela passa a somar quatro jogos, num total de oito realizados em casa dos leões, em que conseguiu empatar. Mas o mais curioso é que, nas três vezes em que somou empates em Alvalade, sempre na fase final dos campeonatos, acabou por conseguir três manutenções na última jornada, sempre por um ponto milagroso, algo que certamente as gentes de Tondela pretendem acreditar que possa acontecer uma quarta vez.

O mais difícil, aquilo que muitos considerariam impossível, que foi mais um empate em Alvalade, mesmo depois de terem estado a perder por dois golos, foi feito, e já na próxima jornada haverá um jogo entre o Casa Pia e o Tondela marcado para domingo às 15h30. Resta a Cícero e companheiros trabalhar, lutar… e acreditar.

Renovação na ressaca do desaire

De regresso à análise deste jogo entre Sporting e Tondela, o empate sem dúvida ‘histórico’ (pela negativa do ponto de vista leonino) não podia aparecer em pior altura para o grupo de trabalho de Rui Borges. O Sporting soma agora cinco jogos consecutivos sem vencer em todas as competições, ficou matematicamente arredado da corrida pelo título e vê agora mais distante o segundo lugar do campeonato que era um dos objectivos “mínimos” do grupo.

Mas pior do que os pontos perdidos é o ambiente que fica. Marcada para esta sexta-feira, às 11 horas, está a cerimónia de renovação de contrato de Rui Borges como treinador do Sporting, ele que nunca foi um nome consensual no universo leonino, havendo quem não lhe reconheça valor suficiente para liderar o grupo de trabalho do Sporting, mesmo depois de ter sido campeão em Alvalade e ter levado os leões aos quartos-de-final da Liga dos Campeões.

Rui Borges passa assim a ser uma aposta pessoal do presidente Frederico Varandas que, após exibições paupérrimas e desaires consecutivos, acentua a condição de “tudo menos consensual” entre os adeptos leoninos, eles que sabem que tudo estava já estava complicado e agora está ainda mais. Afinal, o rival Benfica tem margem de erro e até se pode dar ao luxo agora de empatar um dos três jogos que tem pela frente até ao fim do campeonato.

Os adeptos leoninos, a digerir este indigesto desaire, acham por isso que tudo isto é intolerável, exigem mais e agitam mesmo alguns lenços brancos como um aviso para o futuro, ficando claro para Rui Borges que a renovação de contrato na próxima sexta-feira será assinada (se nada for alterado até lá) sobre brasas.

FICHA DE JOGO

  • Resultado: Sporting CP 2-2 CD Tondela
  • Data: 29 de abril de 2026
  • Local: Estádio José Alvalade, Lisboa
  • Árbitro: Fábio Veríssimo

Golos:

  • 1-0: Luis Suárez (62′)
  • 2-0: João Silva (78′, auto-golo)
  • 2-1: Salvador Blopa (90+2′, auto-golo)
  • 2-2: Cícero Alves (90+4′)

Sporting CP: Rui Silva; Georgios Vagiannidis (Salvador Blopa, 56′), Eduardo Quaresma, Zeno Debast, Maxi Araújo; Hidemasa Morita, Daniel Bragança (Giorgi Kochorashvili, 85′); Geny Catamo (Nuno Santos, 85′), Pedro Gonçalves (Luís Guilherme, 74′), Geovany Quenda (Francisco Trincão, 56′); Luis Suárez.
Treinador: Rui Borges.
Suplentes não utilizados: Kovacevic, Diomande, Mangas, Kochorashvili, Nel.

CD Tondela: Bernardo Fontes; Rodrigo Conceição, Babacar Mbaye, João Silva (Henry, 85′), Matheus; Hélder Tavares, Cícero Alves, Juansé (Hugo Félix, 78′); Tiago Manso (Rafael, 85′), Rony Lopes (Makan Aiko, 85′), Pedro Maranhão.
Treinador: Gonçalo Feio.
Suplentes não utilizados: Filipe, Kelvin, Omar, Diogo.

texto: Jorge Reis
fotos: Diogo Faria Reis

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