Uma vitória tão tangencial quanto suficiente sobre o Alverca, por 1-0, no jogo referente à 32.ª jornada do campeonato da I Liga, permitiu ao FC Porto garantir a conquista do 31.º título de campeão nacional da I Liga do futebol português.
No dia em que o relógio marcava o fim da espera de quatro longos anos, o FC Porto confirmou aquilo que os números já anunciavam há semanas. Com uma vitória magra, mas de um peso monumental, por 1-0 frente ao Alverca, no Estádio do Dragão, os azuis e brancos garantiram matematicamente o 31.º título de campeão nacional da sua história. Mais do que os três pontos, foi a conquista do troféu que fez explodir de alegria as bancadas da Invicta, numa noite que ficará para sempre gravada na memória dos adeptos portistas.
A temporada 2025/2026 chega ao fim com um desfecho que poucos ousariam prever no início: o regresso do FC Porto ao lugar mais alto do pódio, interrompendo um jejum que se arrastava desde 2022, permitindo o título para Francesco Farioli e para o seu grupo de trabalho, também para o presidente André Villas Boas que garantiu o seu primeiro título de campeão enquanto presidente do FC Porto, e tudo isto com o prémio acrescido de poder fazer calar o rival Sporting, que ao longo da época assumiu o papel de adversário principal, mas também o Benfica de José Mourinho, que termina a época como o único adversário capaz de discutir o título, e ainda assim arredado do mesmo à antepenúltima jornada.











A estratégia que decidiu o campeonato
Francesco Farioli, o técnico italiano que chegou com a missão de reconstruir a alma dos dragões, não inventou. Sabia que o título não se ganhava com floreados, mas com eficácia, e voltou a apostar nesse eficácia neste jogo decisivo. Do outro lado, o Alverca de Custódio Castro não veio ao Dragão fazer de figurante, sendo que, com uma linha defensiva sólida e olhos postos nos contra-ataques rápidos, conseguiu a equipa ribatejana anular grande parte do processo ofensivo portista durante a primeira meia-hora.
O esquema tático desenhado por Farioli, apostando na posse de bola (56% de posse) e na pressão alta, esbarrava num muro organizado. O destaque inicial até foi para o Alverca, com Chiquinho a explorar as costas da defensiva portista, colocando em sentido Jakub Kiwior e Jan Bednarek. As estatísticas do primeiro tempo eram teimosas: muitos remates e pouca pólvora. Até que a sorte ou a justiça poética (consoante a perspectiva) bateu à porta do Estádio do Dragão.








O golo do título na cabeçada da redenção
Aos 41 minutos, o Dragão respirou fundo. Num canto batido da direita por Gabri Veiga – o espanhol que tem sido uma das armas secretas de Farioli no final da temporada – a bola subiu como que guiada por uma mão invisível e, no segundo poste, Jan Bednarek, o gigante polaco que tem sido um muro na defesa ao longo da época, apareceu como um avançado nato. Com um salto poderoso e um desvio de cabeça certeiro, o defesa-central fuzilou a baliza de Matheus Mendes.
Foi um golo tão curto na sua duração (um segundo) quanto longo no seu significado. Bednarek, que abraçou a mística do clube como poucos reforços estrangeiros, correu para o canto com o punho cerrado, sabendo que aquele não era apenas o seu segundo golo na competição, mas sim o golo que devolvia o FC Porto ao trono do futebol português . “É dos momentos mais importantes da minha carreira”, diria o jogador no final, ainda a recuperar o fôlego.






Ficha de Jogo
Campeonato: Primeira Liga 2025/26 – 32.ª Jornada
Data: 2 de maio de 2026
Local: Estádio do Dragão, Porto
Árbitro: David Silva
FC Porto (Francesco Farioli):
Diogo Costa (C); Alberto Costa, Jakub Kiwior (Alan Varela, 46′), Jan Bednarek, Zaidu Sanusi (Martim Fernandes, 46′); Pablo Rosario, Victor Froholdt, Gabri Veiga (Seko Fofana, 74′); Pepê (Rodrigo Mora, 86′), Deniz Gül, Oskar Pietuszewski (Borja Sainz, 63′).
Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, Otávio, Mário Silva, Gonçalo Borges.
Golo: Jan Bednarek (41′)
Assistência: Gabri Veiga
Cartão amarelo: Jakub Kiwior (38′)
FC Alverca (Custódio Castro):
Matheus Mendes; Naves (Diogo Spencer, 89′), Sergi Gómez (C), Bastien Meupiyou; Nabil Touaizi, Lincoln, Rhaldney, Isaac James; Figueiredo (Davy Gui, 77′), Sandro Lima (Cédric Nuozzi, 89′), Chiquinho (Marezi, 77′).
Suplentes não utilizados: Afonso Figueiredo, Pedro Empis, Tiago Lopes, João Basso.
Cartões amarelos: Chiquinho (38′), Naves (52′), Figueiredo (77′), Sandro Lima (74′)






“Como diz Jorge Costa…”: A homenagem sentida
Com o apito final de David Silva, o Estádio do Dragão transformou-se. O que era tensão transformou-se em catarse. Os jogadores caíram no relvado, misturando o cansaço com a euforia. Os adeptos lembravam o empate do Benfica em Famalicão e confirmavam a matemática — 85 pontos, 9 de vantagem, título estava garantido com duas rondas de antecedência.
No entanto, a celebração teve um sabor agridoce. Um minuto de silêncio antecedeu a entrega da placa de campeão, numa homenagem sentida a Jorge Costa. O “Bicho”, como era carinhosamente apelidado, antigo capitão do FC Porto e diretor de futebol da atual administração de André Villas-Boas, faleceu subitamente no início da época, vítima de uma paragem cardíaca, e ninguém quis agora esquecer o mítico camisola 2 dos Dragões.
A ausência de Jorge Costa pairou como uma sombra de gratidão sobre o relvado. O presidente André Villas-Boas, visivelmente emocionado, foi o primeiro a pegar no microfone. “Este título é para uma pessoa que esteve aqui connosco no início e que nos deixou cedo demais. O Jorge Costa olhava para este balneário e sorria. Ele sabia o que aqui se estava a construir”, afirmou.
Foi Francesco Farioli, o homem do banco, quem deu o mote mais poderoso da noite, ecoando uma frase que correu o país: “Como diz Jorge Costa, voltamos a ter um equipa, uma grande equipa!” . A frase, dita em português com o sotaque carregado de emoção, fez vibrar o estádio. Farioli, na sua primeira temporada em Portugal, não só ganhou o campeonato, mas soube entrar na alma do clube, resgatando a memória do ídolo.
O capitão Diogo Costa, também ele com lágrimas nos olhos, apontou o céu em claro tributo a Jorge Costa, enquanto a festa, por esta altura ainda feita dentro das quatro linhas, era, no fundo, um abraço coletivo à memória do capitão que partiu, mas cujo legado de “raça” e “sofrimento” foi a imagem de marca deste título.







A noite em que o Dragão cuspiu fogo
Fora do recinto, na Alameda do Estádio do Dragão, o ambiente era de êxtase. A Câmara Municipal do Porto já tinha preparado o terreno, mas, naquela noite, o epicentro era o próprio Dragão. Milhares de adeptos tomaram as ruas circundantes, transformando a VCI e as avenidas num mar azul e branco.
Os adeptos fizeram questão de homenagear os heróis da temporada. O nome de Jan Bednarek foi cantado em loop, mas foram Diogo Costa (o capitão que sempre acreditou) e Zaidu Sanusi (campeão pela segunda vez pelo clube) os mais aclamados nas redes sociais durante a madrugada. A interatividade digital também pertenceu a Terem Moffi, o nigeriano que chegou por empréstimo e agarrou a sua primeira grande conquista nacional.
A festa estendeu-se pela noite dentro, com os jogadores a surgirem na varanda do estádio por volta da 1h00 da manhã, ao som dos foguetes e das luzes que iluminaram o céu portuense. Para muitos, foi a redenção. Para o presidente André Villas-Boas, a confirmação da vitória do projeto sobre o antigo mestre José Mourinho, que viu o seu Benfica invencível bater na trave.
Quando ao grupo de trabalho do futebol do FC Porto, terminou a noite como terminou o jogo: com a certeza do dever cumprido. O FC Porto é o justíssimo campeão nacional da época de futebol de 2025/2026 que liderou sempre, e enquanto a noite avançava o som que se ouvia, vindo dos cânticos na baixa portuense, era um só: “Somos os maiores, temos o 31!”… acompanhado pelo eco de uma promessa: “Jorge Costa, esta conquista é para ti.”


















