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Altitude e lesões marcaram ensaio de Portugal no Azteca

Houve um dia em que o Estádio Azteca, agora reinaugurado com vidros e betão fresco para o Mundial de 2026, tremia com os pés de Pelé, de Maradona e até de Eusébio. Neste domingo, 29 de março, o mítico colosso mexicano voltou a abrir as portas para receber a Seleção das Quinas, para uma festa de reabertura que prometia um cartucho de pólvora, um duelo de candidatos. Porém, o que os 80 mil espectadores (e os que assistiam do outro lado do Atlântico) viram foi um fogo de artifício molhado, sem brilho, sem chama… e sem golos!

O empate a zeros marcou assim o ensaio geral para o Mundial, um jogo que deixou a sensação de que a altitude — ou a falta de oxigénio nos pulmões e no futebol jogado — nivelou tudo por baixo, e Portugal, que tem claramente mais qualidade do que o México, acabou enredado num futebol trapalhão e pouco objectivo, num jogo em que, no final, as estatísticas deram conta de terem existido apenas três remates enquadrados ao longo de todo o jogo, sendo um efectuado pelo México e dois por Portugal. Muito pouco para um jogo entre seleções quando o Mundial está mesmo aí à porta.

A crónica deste amigável não se escreve apenas com os pés; escreve-se, antes de mais, com as ausências. Roberto Martínez, o selecionador espanhol ao serviço de Portugal, enfrentou o desafio no relvado da Cidade do México com uma mão presa nas costas. A lista de convocados para esta digressão americana, divulgada semanas antes, já trazia os avisos: Cristiano Ronaldo, Ruben Dias e Bernardo Silva, pilares fundamentais, ficaram entregues aos departamentos médicos dos seus clubes, baixas de última hora que retiraram ao grupo não só talento, mas também a espinha dorsal.

Joao Palhinha, Nélson Semedo, e mais recentemente Diogo Costa e Rafael Leão, também sentiram na pele os rigores de uma temporada longa, e tudo isto transformou a viagem à Cidade do México num verdadeiro casting forçado para soluções de recurso. De tal forma assim foi que o homem mais aplaudido da Turma das Quinas foi, na segunda parte, o “mexicano” Paulinho, cujo o nome foi cantado nas bancadas do Azteca, fruto da excelente carreira que o avançado está a realizar ao serviço do Toluca. Marca golos e faz assistências, mas nem assim terá lugar na Seleção de Portugal daqui a dois meses.

Um meio-campo sem (tanta) magia

Sem os habituais donos do meio-campo, Martínez optou por lançar uma dupla de sustento: ao lado de Rúben Neves, surgiu Samu Costa,o médio que alinha no Málaga da liga espanhola, numa aposta clara na solidez defensiva para suportar o esforço físico exigido pelos 2400 metros de altitude. A ideia de controlar o jogo pela posse de bola (61 por cento, segundo os dados finais) existiu, mas faltou aquele fio de desequilíbrio que só a classe pura consegue tecer.

Na frente, a aposta recaiu sobre os jovens. Gonçalo Ramos, herdeiro natural da camisola 9, e João Félix, naquele papel de falso criativo que tanto gosta de desempenhar, foram os responsáveis por dar profundidade. Até aos 45 minutos, foram eles os únicos a assustar. Félix, num toque de classe, ensaiou um chapéu na pequena área que saiu por cima da baliza. Ramos, mais forte, carimbou o poste numa recarga que prometia ser golo. Foram dois suspiros no primeiro tempo. Depois, o cansaço e a lógica dos treinos de preparação falaram mais alto.

Para o segundo tempo entrou o já referido Paulinho, a quem a bola poucas vezes chegou em condições, e Gonçalo Guedes, um jogador que entrou na partida francamente sem ritmo nem qualidade, deixando a certeza para Roberto Martinez de que é menos um a convocar na viagem a sério a partir de Portugal para os Estados Unidos da América.

Futebol de mar numa cidade de montanha

O intervalo serviu para a avalanche de substituições. Ao todo, Portugal trocou praticamente a equipa toda — saíram Nuno Mendes, António Silva, Matheus Nunes, João Félix e Francisco Conceição, entraram Cancelo, Tomás Araújo, Vitinha, Guedes e Neto — e o ritmo do jogo morreu afogado. O que restou foi um domínio estéril. Bruno Fernandes, o motor que restava em campo, tentou organizar, mas atirou bolas para as nuvens ou para lá da linha de fundo.

Do outro lado, o México de Javier Aguirre, também ele com um onze condicionado por lesões (Santiago Giménez, Edson Álvarez e Luis Chávez de fora), limitou-se a sobreviver ao assédio português, esperando o contra-ataque que só surgiu já perto do fim, num cabeceamento de Armando González que Rui Silva defendeu com a frieza de quem não teve muito trabalho.

Ficou a sensação de que a bola pesava. E não era impressão: a 2240 metros acima do nível do mar, a bola realmente viaja mais depressa, mas os pulmões cansam-se muito mais rápido e Portugal, que passou a semana a treinar no nível do mar na Riviera Maya, sentiu o choque fisiológico ao pisar o relvado do Azteca. Teoricamente superior no talento individual (com 16 jogadores nas cinco principais ligas europeias contra apenas três do México), Portugal viu essa vantagem anulada pelo cansaço e pela falta de pontaria.

O que ficou do ensaio?

Para Martínez, este jogo serviu como um laboratório de stress. Confirmou que, sem Cristiano Ronaldo e Bernardo Silva, a equipa carece de definição na grande área. Gonçalo Ramos mostrou movimento, mas falhou o golo. Paulinho, o veterano do Toluca que voltou a ser chamado aos 33 anos, entrou para dar experiência, mas não conseguiu mudar o rumo. Na defesa, a dupla António Silva e Renato Veiga começou sólida, mas a quebra física na segunda parte expôs alguns desentendimentos. Além disso, quando Roberto Martinez disse antes do jogo que iria querer testar as saídas baixas com bola em posse, apostou em centrais que não têm propriamente essa qualidade, deixando de fora Gonçalo Inácio ou Tomás Araújo, este último que viria a entrar no segundo tempo.

Pudemos assim assistir a um jogo de baixa intensidade emocional, onde o que mais sobressaiu foi um momento de exaltação entre Pedro Neto e Jesús Gallardo, resolvido com amarelos e muitos empurrões, numa altura em que o jogo já se arrastava para o desfecho inevitável. Alguém deverá avisar o Pedro Neto que não poderá repetir a brincadeira, porque num jogo mais a sério a forma como ele se envolveu com Gallardo teria resultado, no mínimo, num cartão vermelho direto e um jogo de suspensão. Exige-se mais cabeça fria quando se veste a camisola das Quinas, mesmo que possamos não gostar esteticamente deste novo equipamento que Portugal estreou na Cidade do México.

No jogo, mesmo tendo sido particular, a reinauguração do Estádio Azteca pedia golos, pedia magia. Em vez disso, ofereceu um empate sem golos que serviu para estrear o relvado renovado, mas que deixou a promessa adiada. Portugal viaja agora para Atlanta para defrontar os Estados Unidos, em novo particular, com a missão de encontrar o fio à meada que ficou perdido nas alturas da Cidade do México. Se a qualidade do futebol praticado esteve ao nível do mar, o desafio para Martínez continua a ser colocar a equipa a respirar melhor — dentro e fora de campo.


Ficha de Jogo

  • Data: 29 de março de 2026 (domingo)
  • Local: Estádio Azteca, Cidade do México (México)
  • Resultado: México 0-0 Portugal
  • Árbitro: Walter López (Guatemala)
  • Amarelos: Jesús Gallardo (MEX); Pedro Neto (POR)

México (4-3-3): José Raúl Rangel; Jorge Sánchez, César Montes, Johan Vásquez, Jesús Gallardo (Everardo López, 78′); Erik Lira (Armando González, 78′), Obed Vargas (Carlos Rodríguez, 46′), Álvaro Fidalgo (Erick Sánchez, 60′); Roberto Alvarado (Richard Ledezma, 60′), Raúl Jiménez (Germán Berterame, 60′), Brian Gutiérrez (Julián Quiñones, 46′).
Suplentes não utilizados: Ochoa, Pineda, Angulo, Martinez e Vega.
Selecionador: Javier Aguirre

Portugal (4-2-3-1): Rui Silva; Matheus Nunes (Diogo Dalot, 46′), António Silva (Tomás Araújo, 46′), Renato Veiga e Nuno Mendes (João Cancelo, 46′); Samu Costa (Vitinha, 46′) e Rúben Neves (João Neves, 46′); Bruno Fernandes (Trincão, 81′), João Félix (Gonçalo Guedes, 46′) e Francisco Conceição (Pedro Neto, 46′); Gonçalo Ramos (Paulinho, 64′).
Suplentes não utilizados: Ricardo Velho, José Sá, Gonçalo Inácio, Mateus Fernandes, Pedro Gonçalves e Ricardo Horta.
Selecionador: Roberto Martínez

texto: Jorge Reis
fotos: © FPF

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