Um triunfo de Portugal sobre o Chile por 2-1, no primeiro de dois jogos de preparação da Turma das Quinas antes do arranque da fase final do Mundial’2026, foi um resultado agradável e positivo para os comandados de Roberto Martinez. Contudo, o jogo ficou longo de permitir a melhor preparação da Nossa Seleção, isto porque Rafael Leão foi expulso ao envolver-se numa troca de empurrões com o chileno Iván Román, acabando os dois por verem ambos o cartão vermelho direto, levando a que a segunda metade da partida fosse disputada com os dois conjuntos reduzidos a 10 jogadores.
A Seleção de Portugal mostrou carácter, é certo também que a estreia foi atribulada, mas como o próprio selecionador alertou no final, até porque Portugal terá como adversário na primeira fase do Mundial’2026 uma seleção sul-americana (Colômbia), é bom que os nossos jogadores falem com a bola e não com os jogadores contrários, evitando reagir a provocações. Agora, Portugal terá que aguardar pelo relatório do árbitro desta partida, o italiano Luca Zufferli, tendo a convicção de que o juís da partida terá verificado que não se tratou de conduta violenta por parte dos jogadores, acreditando por isso que este cartão vermelho não terá mais consequências do que um jogo de suspensão que poderá mesmo ser o da próxima quarta-feira, frente à Nigéria, a disputar em Leiria.







Expulsões à parte, a verdade é que Portugal venceu e mereceu a vitória, ainda que tenha terminado o jogo a sofrer um golo quando ficou a ideia de que, a jogar com 10, a turma lusa perdeu um pouco de presença a meio-campo. Antes, porém, Portugal entrou a dominar, criou oportunidades flagrantes de golo, obrigou o guarda-redes chileno Vigouroux a uma excelente defesa após cabeceamento de Rúben Dias, logo aos 4 minutos, Rafael Leão enviou uma bola ao poste direito e Cristiano Ronaldo assinou um lance de perigo para as redes chilenas em que ficou à beira de fazer o primeiro golo para Portugal. Leão e Cancelo, pela esquerda, formaram uma dupla eficiente na forma como foram desmontando a defesa do Chile, Bernardo Silva recuou na ajuda à construção a partir da zona dos centrais e Bruno Fernandes surgiu como um verdadeiro patrão do meio-campo, prometendo um Mundial à altura dos seus pergaminhos.
Com as bancadas cheias de adeptos vibrantes, o Estádio Nacional, inicialmente transformado em uma enorme Esfera Armilar sobre a qual assentou o Escudo de Portugal enquanto a fadista Sara Correia interpretou de forma arrepiante A Portuguesa, assistiu assim este sábado ao primeiro ensaio da Seleção Nacional a caminho do Mundial’2026. Num ambiente de casa cheia para receber o Chile, os comandados de Roberto Martinez venceram por 2-1, num amigável que teve de tudo: golos (um deles um “tiro” de Bruno Fernandes), qualidade individual, e uma “carga de emoção” negativa nos instantes finais da primeira parte, com a expulsão de Rafael Leão a ditar uma noite de reflexão para o selecionador Roberto Martinez.






Afinal, se o objetivo era testar rotinas e afinar a máquina para a estreia frente à República Democrática do Congo (17 de junho), o resultado foi positivo. Contudo, o espetáculo ficou marcado por um lance de pura loucura que tirou Martinez do sério, deixou Portugal a jogar apenas com 10 jogadores e ainda pode trazer mais dores de cabeça.
“Miúdos” e veteranos:
A primeira metade sem golos
Com a cabeça no Mundial mas o pé ainda no aquecimento, Portugal entrou em campo com a missão de impor o seu ritmo. E cumpriu. A primeira metade foi um monólogo da Turma das Quinas, que chegou a rondar os 80% de posse de bola.
Rafael Leão, numa espécie de “cabo dos trabalhos” antes da tempestade, foi o mais perigoso. Após um belo calcanhar de Cristiano Ronaldo (o “capitão” jogou 45 minutos), o ainda extremo do AC Milan rematou ao poste, deixando o Jamor a suspirar. Ruben Dias, de cabeça, também testou o guarda-redes chileno, mas o nulo no marcador teimava em manter-se. Perto do intervalo, Cristiano Ronaldo até colocou a bola na rede, mas o golo foi (bem) anulado por fora-de-jogo.
Vivia-se até aqui o que se poderia classificar como um treino normal de preparação. Até que o relógio marcou 45+2′. A determinada altura João Cancelo entra de forma mais ríspida sobre um adversário, é empurrado por um jogador do Chile mais intempestivo, Rafael Leão mete-se na contenda para defender o seu companheiro, o chileno Iván Román cresce para Leão, trocam empurrões, e eis que Román acaba projectado para trás caindo no relvado empurrado pelo jogador do AC Milan.









Cabeça quente de Leão
resulta em vermelho direto
O que era um simples ensaio transformou-se por instantes no que mais parecia um ringue de boxe. Após a entrada mais dura de João Cancelo (que estava a ser dos melhores em campo), os ânimos exaltaram-se. O chileno Felipe Faundez respondeu, e num ápice, os jogadores de ambas as equipas aglomeraram-se junto à linha de fundo.
Foi nesse “furação” que Rafael Leão perdeu a cabeça de vez. O português envolveu-se numa troca de empurrões com Iván Román, e num gesto seguramente evitável empurrou o chileno de forma mais evidente, com as ambas as mãos no peito de Román que não perdeu a oportunidade para rebolar no relvado aumentando o efeito cénico do lance. O árbitro italiano, Luca Zufferli, não hesitou: mostrou o cartão vermelho direto para Leão e, porque a lei exige equilíbrio, fez o mesmo com Román, deixando as seleções de Portugal e do Chile reduzidas a 10 elementos para o segundo tempo.








A reação de Leão? Um sorriso maroto enquanto saía de campo. A reação da bancada e do banco? De incredulidade. Com Nuno Mendes, Vitinha, João Neves e Gonçalo Ramos (PSG) ainda a contas com o jet-lag e a chegar tardiamente à concentração, perder Leão assim, por insanidade, foi um balde de água fria para a Turma das Quinas.
Roberto Martinez diria no final que gostou de ver a forma como o avançado do AC Milan procurou defender o seu companheiro de seleção, mas foi lembrando que Portugal vai ter pela frente um adversário sul-americano, devendo Portugal adoptar uma postura mais tranquila face às provocações que certamente poderão aparecer ao longo do jogos.
A reviravolta na segunda parte:
Guedes entra e resolve










Com 10 para cada lado, o espaço no relvado aumentou, e Roberto Martinez teve que improvisar, treinando afinal um esquema que não tinha equacionado antes da partida. Para o segundo tempo fez todas as alterações que estavam programadas, e apenas Francisco Trincão acabaria por não entrar em jogo, ele que deveria ter substituído Leão dentro das quatro linhas, o que já não pôde acontecer.
Entras diversas mudanças, Cristiano Ronaldo foi um dos que não voltou dos balneários para o segundo tempo, acabando por dar o seu lugar a Gonçalo Guedes, ele de quem se disse que era uma escolha discutível para este Mundial’2026 mas que, nesta partida frente ao Chile, veio a revelar-se uma “aposta de mestre”.








Aos 58 minutos, Rúben Neves (outro que entrou ao intervalo) endossou um passe de rutura de letra de manual e Gonçalo Guedes, com um perfeito domínio de bola entre os centrais chilenos, desferiu um remate colocado, não dando hipóteses ao guarda-redes chileno Vigouroux, assinando o 1-0 a favor de Portugal. O público nas bancadas do Jamor aplaudiu, aliviado, a vantagem afinal justa mas que tardava para Portugal.
Se o primeiro golo foi de insistência, o segundo foi de pura classe mundial. Aos 75 minutos, após uma assistência de Francisco Conceição, num passe atrasado para a zona frontal à área chilena, a bola chegou a Bruno Fernandes que, com a parte interna do pé, enrolou a bola para o ângulo superior direito, num autêntico “tiro de míssil” que valeu o 2-0. Era, aparentemente, a pá de cal num jogo que se tornou mais complicado e o maestro do Manchester United resolvia naquele momento.







O golo sofrido que serve de aviso
O futebol, porém, tem sempre a última palavra. Quando tudo parecia resolvido e os adeptos já pensavam na flash interview de Bruno Fernandes, o Chile mostrou que não veio passear a Portugal e ao relvado do Jamor.
Aos 90+2 minutos, Lucas Cepeda, jovem chileno que entrou no segundo tempo nesta seleção sul-americana, aproveitou uma desatenção da defensiva lusa e, de fora da área, desferiu um remate seco e cruzado que bateu Rui Silva (que tinha rendido José Sá ao intervalo), fixando assim o resultado final em 2-1 favorável a Portugal. Foi um golo de consolação para os chilenos, mas que terá reforçado outro aviso para os pupilos de Roberto Martinez: os jogos só acabam mesmo quando o árbitro dá o apito final, sendo necessária a concentração e o empenho totais enquanto isso não acontecer.









Portugal venceu, pode apontar baterias para o próximo jogo de preparação a disputar na quarta-feira, em Leiria, frente à Nigéria, onde irá ter já disponível todo o grupo de 27 jogadores, ainda que Rafael Leão deva ficar na bancada a cumprir um jogo de “castigo”, isto se a FIFA não encontrar algo mais que possa agravar a punição ao internacional português, se o árbitro Luca Zufferli carregar na escrita sobre o que se passou este sábado no Jamor. Depois, restará a Portugal cruzar o Atlântico até terras do Tio Sam para ali disputar o Mundial’2026.
Pedro Proença, o presidente da FPF, disse no final desta partida frente ao Chile que Portugal deverá conseguir, no mínimo, ultrapassar os quartos de final da competição. Os portugueses, porém, pedem mais, e sonham com mais. “E sempre que o Homem sonha…”
Ficha de Jogo
- Competição: Particular de Preparação para o Mundial 2026
- Data: 6 de junho de 2026
- Local: Estádio Nacional, Jamor (Oeiras, Portugal)
- Resultado: Portugal 2-1 Chile
- Árbitro: Luca Zufferli (Itália)
Portugal: Jose Sá (Rui Silva, 46′), Nélson Semedo (Diogo Dalot, 46′), Rúben Dias (Tomás Araújo, 86′), Renato Veiga (Gonçalo Inácio, 46′), João Cancelo, Samú Costa (Pedro Neto, 46′), Bernardo Silva (Rúben Neves, 46′), Bruno Fernandes, Francisco Conceição (João Félix, 76′), Rafael Leão e Cristiano Ronaldo (Gonçalo Guedes, 46′).
Selecionador: Roberto Martinez
Chile: Vigouroux, Faúndez, Román, Maripan, Suazo, Loyola, Pizarro, Arce, Gutiérrez, Osorio e Tapia.
Selecionador: Nicolás Córdova
Golos:
- Portugal: Gonçalo Guedes (58′), Bruno Fernandes (75′)
- Chile: Lucas Cepeda (90+2′)
Expulsões (45+2′):
- Portugal: Rafael Leão (agressão – vermelho direto)
- Chile: Iván Román (agressão – vermelho direto)















