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Crónica da noite em que os Guerreiros conquistaram Sevilha

Há noites que desafiam a lógica, que rasgam o guião e ficam gravadas a fogo na memória de um clube. A noite desta quinta-feira, 16 de abril, em Sevilha, foi exatamente isso quando, perante um Estádio Olímpico de La Cartuja repleto e ensurdecedor, os Guerreiros do Minho protagonizaram uma das maiores reviravoltas da história recente do futebol português, derrotando o Betis por 4-2 e garantindo um lugar nas meias-finais da Liga Europa.

Esta não foi apenas mais uma vitória europeia. Foi antes a afirmação de um clube que, calmamente instalado no quarto posto da I Liga e sem grandes pressões internas, decidiu fazer do sonho europeu a sua grande obsessão. E que sonho. A eliminação do Betis, uma equipa caseira até então imbatível na prova, inscreve os arsenalistas no lote restrito dos quatro melhores da Liga Europa, um habitat que o clube não visitava desde a épica final de 2010/11.

Pesadelo andaluz durou
os primeiros 25 minutos

Se o resultado final é épico, o caminho até ele foi um exercício de sofrimento. A estratégia inicial de Carlos Vicens parecia ter sido engolida pelo vendaval andaluz. O Betis entrou com uma ferocidade típica de quem precisava de resolver o jogo em casa, e o terramoto aconteceu cedo.

Aos 13 minutos, Antony, o brasileiro que veio do futebol italiano para encantar Sevilha, surgiu na área a desviar de cabeça um cruzamento de Abde Ezzalzouli, fazendo 1-0. Depois, ao minuto 26, o pesadelo agravou-se quando Abde, num dia inspirado, apareceu solto dentro da área para ampliar a vantagem para 2-0. O La Cartuja vibrava, o Sporting de Braga tremia e, para piorar a situação, a lesão de Bright Arrey-Mbi forçou Vicens a mexer cedo na defesa, lançando Gabriel Moscardo ainda antes da meia-hora. Tudo indicava que estava instalado o caos da formação bracarense.

A centelha de Pau Víctor

Apesar de todos os indicadores apontarem para o abismo, no futebol a linha entre o desastre e a glória é muitas vezes ténue. E quando tudo parecia perdido, com Antony a ver um terceiro golo anulado por fora de jogo aos 29 minutos, o SC Braga agarrou-se à única corda que tinha.

Aos 38 minutos, numa jogada de aparente sobra na área espanhola, a bola sobrou para Pau Víctor. O avançado, de regresso a solo espanhol, não tremeu: atirou de primeira, reduziu para 2-1 e devolveu a alma aos guerreiros. Estava descoberto um oásis no deserto e o intervalo chegou com a eliminatória em aberto e um balneário bracarense a acreditar no impossível.

A tempestade perfeita
chegou depois do intervalo

Se a primeira parte foi um filme de terror, a segunda foi um conto de fadas em alta definição. Carlos Vicens afinou a equipa, e o SC Braga regressou a mandar no jogo e a querer ditar as regras. A reviravolta acabou assim por surgir como um verdadeiro turbilhão:

  • 49 minutos: Vítor Carvalho, o defesa transformado em herói, sobe mais alto que a defensiva do Betis a um cruzamento perfeito de Ricardo Horta (livre direto) e empata a partida: 2-2.
  • 53 minutos (penálti): A loucura instala-se. Demir Tiknaz sofre falta de Amrabat dentro da área. A responsabilidade é do capitão. Ricardo Horta, com uma frieza digna da sua condição de capitão, desloca o guarda-redes para um lado e remata para o lado contrário, assinando o 2-3. A reviravolta consumava-se em menos de cinco minutos.
  • 74 minutos: Ainda havia espaço para a cereja no topo do bolo. Gorby, de fora da área, solta um míssil rasteiro sem hipótese para Pau López, fechando o marcador em 2-4 e silenciando por completo as bancadas sevilhanas.

A coragem de Vicens vs. a inércia de Pellegrini

O duelo tático foi decidido no intervalo. Manuel Pellegrini montou o Betis para matar o jogo na primeira parte, apostando na velocidade de Abde e Antony. Resultou durante 25 minutos. No entanto, quando o SC Braga reagiu e equilibrou o meio-campo com a entrada de elementos mais frescos (como Moscardo, que trouxe contenção), o Betis pareceu envelhecer. As mexidas do “Engenheiro” surgiram tarde (aos 66 e 78 minutos) e com pouco efeito.

Do outro lado, Carlos Vicens demonstrou uma coragem invulgar. Mesmo a perder por 2-0, não se encolheu. A aposta em manter Pau Víctor e Ricardo Horta no ataque, mesmo com a defesa em apuros, pagou dividendos. As substituições de Fran Navarro e João Moutinho nos instantes finais serviram para gerir o caos e trazer inteligência emocional à posse de bola, provando que o objetivo nunca foi segurar o resultado, mas sim ampliá-lo.

Nas declarações pós-jogo, Vicens foi humilde, mas ambicioso: “Somos uma família de gente boa e a gente boa merece coisas felizes. O objetivo não é perder as meias-finais, é ganhar!”

Os heróis da noite

Numa noite de reviravolta histórica, várias estrelas acabaram assim por brilhar no céu de Sevilha. Ricardo Horta, o capitão bracarense, foi claramente a figura, assumindo, como sempre, o papel de alma da equipa. Não só marcou o penálti da reviravolta como foi também dele o cruzamento (de bola parada) para o golo do empate de Vítor Carvalho. Liderou, pressionou e foi o maestro desta sinfonia improvável.

E porque falámos de Vítor Carvalho, também este foi uma das figuras do jogo. Adaptado a defesa-central devido às lesões, foi um colosso, marcou o golo que desbloqueou a equipa psicologicamente e segurou a defesa nos momentos mais críticos. Igualmente em destaque esteve Pau Víctor, ele que deu a esperança quando esta já quase nem existia e o seu golo antes do intervalo foi o ponto de viragem moral da eliminatória.

Por fim, Gorby fechou a noite com um golaço de primeira, o símbolo perfeito da confiança de uma equipa que, depois de estar a perder por 2-0, acabou a golear, justificando em pleno o nome que transportam: Guerreiros do Minho!


Ficha de Jogo

Competição: Liga Europa 2025/26 – Quartos de Final (2.ª Mão)
Data: 16 de abril de 2026
Local: Estádio Olímpico de La Cartuja, Sevilha (Espanha)
Resultado: Real Betis 2-4 Sporting de Braga (Agregado: 3-5)

Ao intervalo: 2-1

Marcadores:

  • 1-0: Antony (13′)
  • 2-0: Abde Ezzalzouli (26′)
  • 2-1: Pau Víctor (38′)
  • 2-2: Vítor Carvalho (49′)
  • 2-3: Ricardo Horta (53′, grande penalidade)
  • 2-4: Gorby (74′)

Equipas:

  • Real Betis: Pau López; Bellerín (Deossa, 78′), Marc Bartra, Diego Llorente, Ricardo Rodríguez (Valentin Gomez, 78′); Fornals (Bakambu, 78′), Amrabat, Fidalgo (Aitor Ruibal, 66′); Antony (Pablo Garcia, 83′), Cucho Hernández, Abde Ezzalzouli.
    Suplentes não utilizados: Alvaro Valles, Adrián San Miguel, Sergi Altimira, Chimy Ávila, Rodrigo Riquelme, Marc Roca, Isco.
    Treinador: Manuel Pellegrini. 
  • SC Braga: Horníček; Victor Gómez, Vítor Carvalho (Paulo Oliveira, 61′), Lagerbielke, Arrey-Mbi (Gabriel Moscardo, 20′); Gorby, Tiknaz (Fran Navarro, 61′); Ricardo Horta, Grillitsch, Gabri Martínez (Leonardo Lelo, 80′); Pau Víctor (João Moutinho, 80′).
    Suplentes não utilizados: Tiago Sá, João Carvalho, Zalazar, Dorgeles.
    Treinador: Carlos Vicens. 

Árbitro: Davide Massa (Itália).

Próximo adversário do SC Braga na Liga Europa: SC Freiburg (Alemanha), nas meias-finais.

texto: Inês Aires
fotos: Maciej Rogowski

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