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FC Porto e Nottingham Forest empatam em noite fria com autogolo traiçoeiro

Foi um daqueles golos que nem o melhor argumentista de Hollywood ousaria escrever. Aos 13 minutos, quando o estádio ainda vibrava com a explosão de alegria pelo golo inaugural de William Gomes, Martim Fernandes atirou a bola do meio-campo para a sua própria baliza, deixando Diogo Costa plantado no relvado como uma estátua sem reação. A bola passou por Diogo Costa, lenta e caprichosamente, e continou a rolar para a baliza azul e branca, detendo-se apenas no fundo das redes.

O FC Porto, que até aquele momento já vencia e com justiça, empatava-se a si próprio perante um Nottingham Forest que sorriu sem saber bem como é que voltou ao jogo. No final, o 1-1 no Estádio do Dragão deixou tudo em aberto para a segunda mão, em Inglaterra, onde a história — essa senhora implacável — sussurra números nada animadores para os dragões que, para lá do Canal da Mancha, nunca venceram qualquer partida oficial.

Primeiro tempo: romance e tragédia em quinze minutos

A noite no Dragão começou com a promessa de um rolo compressor azul e branco. Francesco Farioli, fiel ao seu estilo de gestão intensa que tem mantido a equipa viva em todas as frentes, lançou os seus jogadores para cima do Forest com uma fúria controlada. Aos 45 segundos, Terem Moffi já testava os reflexos de Stefan Ortega. Aos 11 minutos, a recompensa: uma jogada de encantar, com Pablo Rosário a solicitar Gabri Veiga em profundidade, o espanhol a cruzar rasteiro para o lado contrário da pequena-área e William Gomes a antecipar-se no segundo poste para empurrar a bola para o fundo da baliza. O Dragão explodiu.

Mas a euforia durou o tempo de um suspiro. Ou melhor, o tempo de um passe de 40 metros para trás. Martim Fernandes, provavelmente ainda tonto com a festa, endossou a bola na direção de Diogo Costa com uma força e colocação tão perfeitas que parecia um remate à baliza. A bola rolou, serena, imparável, enquanto o guarda-redes portista corria em vão para trás, como um ator numa comédia de enganos. Estava feito outogolo que deu o empate a 1-1 e as bancadas do Dragão caíram num silêncio gelado, quebrado apenas pelo espanto dos adeptos.

O lance, para além de caricato, teve consequências práticas imediatas. Martim Fernandes, atordoado, acabaria por sair mais tarde devido a uma entrada que o transformou em “dano colateral” do seu próprio pesadelo. O ritmo frenético dos primeiros minutos deu lugar a um jogo mais contido, com o Forest a ganhar confiança e o Porto a tentar, sem sucesso, recuperar a lucidez perdida. Ainda antes do intervalo, Moffi, de cabeça, obrigou Ortega a uma boa defesa, mas o golo da vantagem teimava em não aparecer.

O duelo de estratégias: Farioli vs. Vítor Pereira

O jogo foi também um fascinante duelo tático entre dois treinadores com filosofias distintas. Do lado portista, Francesco Farioli tem sido elogiado pela forma como gere o plantel, promovendo rotações que mantêm a equipa fresca mesmo nos momentos mais exigentes da temporada. Contra o Forest, a sua aposta em jogadores como William Gomes (o herói da noite até ao momento do golo) resultou plenamente no arranque. No entanto, a incapacidade de finalizar as inúmeras oportunidades criadas — algo que o próprio central Bednarek já havia identificado como um ponto a melhorar, referindo que a equipa por vezes “quer resolver a jogada demasiado depressa”  — revelou-se fatal.

Do outro lado, Vítor Pereira regressava a casa. O antigo treinador bicampeão nacional pelo FC Porto entre 2011 e 2013 foi homenageado antes do apito inicial , mas a nostalgia rapidamente deu lugar ao pragmatismo. Conhecido por arriscar em momentos cruciais — como quando fez seis alterações num jogo da Liga Europa para poupar jogadores para a Premier League, numa altura em que o Forest luta para não descer  — Vítor Pereira montou uma equipa paciente, que sabia que mais cedo ou tarde o erro portista poderia aparecer. E apareceu. O treinador português sabia que segurar o empate no Dragão era mais do que um bom resultado; era um trunfo psicológico enorme para a receção em Nottingham.

Segundo tempo: o domínio sem recompensa

A etapa complementar foi um monólogo portista, mas daqueles que deixam o espectador com a sensação de que a bola tem dono e não quer entrar. Aos 49 minutos, William Gomes, endiabrado, deixou dois adversários no corredor direito e rematou rasteiro ao lado. Farioli mexeu: lançou Froholdt, Deniz Gul e Pepê, numa tentativa de dar novo alento ao ataque. E funcionou quase. A dez minutos do fim, Pepê fez um calcanhar genial a isolar Froholdt na cara de Ortega, mas o dinamarquês rematou a centímetros do poste. O estádio gemeu. Foi o último suspiro de uma equipa que, apesar de superior, parecia amaldiçoada.

Pelo meio, ainda houve tempo para um golo anulado a Igor Jesus, do Forest, por falta sobre Diogo Costa, e para uma grande defesa de Ortega a um remate em arco de William Gomes. O 2-1, que seria o resultado mais justo face à exibição portista, nunca mais chegou.

Antevisão: o murmúrio assustador do City Ground

Daqui a uma semana, o FC Porto visita o City Ground, em Nottingham, para decidir a eliminatória. E é aqui que a história pesa como chumbo. O FC Porto nunca venceu qualquer jogo oficial em Inglaterra. Nunca. São 18 derrotas e 3 empates em 21 deslocações a solo britânico, um registo que se arrasta há décadas e que inclui eliminações dolorosas frente a Liverpool, Chelsea, Manchester United e Arsenal.

O empate da primeira mão, sendo positivo por manter a eliminatória em aberto, deixa os dragões numa posição frágil. Vítor Pereira, que conhece os meandros do clube como poucos, saberá explorar a ansiedade portista e a frieza de um Forest que joga em casa e que já provou esta época ser capaz de vencer o FC Porto (2-0 na fase de grupos). Para Francesco Farioli, o desafio é colossal: não basta jogar bem, é preciso quebrar uma maldição psicológica de 22 anos sem vencer uma eliminatória a um clube inglês.

No fim da noite, o que fica é a sensação de que o FC Porto foi melhor, mas o Forest foi mais inteligente. E num confronto a duas mãos, a inteligência muitas vezes pesa mais do que a qualidade.


Ficha de Jogo

Competição: Liga Europa 2025/26 – Quartos de final (1.ª mão)
Local: Estádio do Dragão
Resultado: FC Porto 1-1 Nottingham Forest
Intervalo: 1-1
Marcadores:

  • 1-0: William Gomes (11′)
  • 1-1: Martim Fernandes (13′, p.b.)

FC Porto (XI inicial): Diogo Costa; Martim Fernandes (saiu lesionado), Thiago Silva, Bednarek, Zaidu; Fofana (Varela), Rosario, Gabriel Veiga (Froholdt); Sainz (Pepê), Moffi (Deniz Gul), William Gomes 

Nottingham Forest (XI inicial): Ortega; Domínguez, Abbott, Murillo, Morato; McAtee, Yates, Gibbs-White (Hutchinson); Bakwa (Neco Williams), Wood, Ndoye 

texto: José Andrade
fotos: Pedro Loureiro / Avantsports

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