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Braga empata com o Bétis e um calcanhar que não chegou a Sevilha

Havia um princípio de velório na Pedreira ao cair da noite. Não pela exibição, que foi digna e corajosa, mas pela sensação de que a história poderia ter sido escrita de outra maneira. O SC Braga e o Real Bétis empataram 1-1 nesta quarta-feira, no Estádio Municipal de Braga, num jogo que soube a muito para os guerreiros de Carlos Vicens e a pouco para os homens de Manuel Pellegrini. E agora, tudo se decide em Sevilha, como manda a cartilha das grandes noites europeias.

A partida mal tinha aquecido quando Florian Grillitsch inscreveu o seu nome na memória dos adeptos minhotos. Aos cinco minutos, Diego Rodrigues cobrou um canto rasteiro para a zona do primeiro poste e o médio austríaco, num gesto de puro génio, desviou de calcanhar, surpreendendo a defensiva andaluza e o guarda-redes Pau López. Era o início perfeito que o treinador bracarense tinha desenhado no quadro. A aposta de Carlos Vicens em Diego Rodrigues no onze titular, abdicando da experiência de João Moutinho, mostrou-se acertada durante os primeiros minutos – o jovem português trouxe frescura e foi o motor das jogadas de bola parada, uma das armas que a equipa minhota tem vindo a explorar com sucesso.

O Braga, num esquema táctico que alternava entre o 3x4x3 e um posicionamento mais solto, não se limitou a defender a vantagem. Pelo contrário, pressionou alto e criou desconforto na saída de bola espanhola. Ricardo Horta, Pau Victor e Gabri Martínez movimentavam-se entre linhas com inteligência, obrigando os centrais do Bétis a decisões constantes. O problema residiu na eficácia – uma sina que assombra o futebol português nas competições europeias.

A resposta espanhola e a muralha checa

Do outro lado, Manuel Pellegrini surpreendeu ao deixar Antony e Isco fora do onze inicial, apostando num meio-campo mais físico com Amrabat e Marc Roca. E, durante largos minutos da primeira metade, a estratégia parecia ter saído furada. O Bétis sentia dificuldades em furar o muro bracarense e recorria às bolas paradas como principal meio de assustar.

Aos 24 minutos, Marc Bartra cabeceou um livre cobrado por Marc Roca e viu a bola beijar o poste – o aviso estava dado. Pouco depois, foi a vez de Abde Ezzalzouli e Cucho Hernández testarem os reflexos de Lukas Horníček. E que testes! O jovem guarda-redes checo esteve colossal, negando o golo ao colombiano com uma defesa instintiva que manteria o Braga em vantagem ao intervalo. Horníček foi, sem margem para dúvidas, o grande herói da primeira parte e um dos jogadores em maior evidência na noite.

A segunda parte: a queda e o castigo

Se o primeiro tempo foi de dominio repartido com vantagem justa para os portugueses, a segunda metade trouxe a reviravolta emocional. Pellegrini não hesitou: lançou Antony ao intervalo, retirando o amarelado Amrabat, e deu mais velocidade e imprevisibilidade ao ataque. A equipa espanhola subiu no terreno, mas foi novamente o Braga a surgir com perigo por intermédio de Grillitsch, obrigando Pau López a uma grande defesa.

No entanto, o momento decisivo chegaria aos 61 minutos. Jean-Baptiste Gorby, num lance de carrinho dentro da área, derrubou Abde Ezzalzouli quando este se preparava para desferir o remate. O árbitro alemão Felix Zwayer assinalou a grande penalidade sem hesitação e, após breve discussão sobre quem bateria, Cucho Hernández assumiu a responsabilidade. O colombiano não tremeu e, com um remate colocado no canto esquerdo, restabeleceu a igualdade.

A partir daí, o jogo entrou numa toada de nervos. O Braga, que até então tinha sido a equipa mais perigosa, ressentiu-se do golo sofrido e perdeu a fluência. As substituições de Vicens – com a entrada de Moutinho aos 18 minutos para dar critério ao meio-campo após a lesão de Diego Rodrigues, e mais tarde Fran Navarro e Dorgeles para refrescar o ataque – não conseguiram devolver a intensidade inicial. Pelo contrário, o Bétis equilibrou as acções e até poderia ter ganho nos descontos, quando Antony, após flectir para o meio, rematou em arco e viu a bola passar a centímetros do poste.

A herança de Sevilha

No final, o empate soube a gestão de riscos. Ambas as equipas perceberam que perder na Pedreira poderia ser fatal e travaram a ânsia de vencer. Para Carlos Vicens, o resultado é agridoce – o Braga provou que pode discutir a eliminatória de igual para igual, mas falhou na hora de matar o jogo. A lesão de Niakaté nos descontos, a sair de maca sem conseguir apoiar o pé, é ainda um duro golpe para a defensiva arsenalista.

Do lado de Pellegrini, a missão está cumprida. O empate em Portugal, com um golo marcado fora, dá vantagem psicológica ao Bétis. O “Engenheiro” sabe que na próxima quinta-feira, no Estádio La Cartuja, a história será diferente. Com o apoio maciço dos seus adeptos e a qualidade individual de jogadores como Antony, Isco (que deverá ser opção) e Cucho Hernández, o conjunto andaluz parte como favorito.

Antevisão da segunda mão

Daqui a uma semana, em Sevilha, o cenário promete ser de autêntico assalto. O SC Braga terá de marcar para sonhar com as meias-finais, pois um simples empate a zero ou a um golo favorece os espanhóis devido ao critério dos golos marcados fora – um regulamento que, para já, pende para o lado do Bétis.

A equipa minhota precisa de corrigir a ineficácia atacante e encontrar soluções para a pressão alta dos andaluzes. A velocidade de Abde e Antony, aliada à qualidade de passe de Isco e Marc Roca, pode fazer estragos. Por seu lado, os bracarenses terão de acreditar na mesma receita que resultou em Braga: bola parada, transições rápidas e uma noite inspirada de Horníček.

O que fica deste primeiro duelo é a certeza de que o sonho europeu do Braga está vivo. A caminhada não terminou em Braga – continuará em Sevilha. E num mar de camisas verdes e brancas, tudo pode acontecer.


Ficha de Jogo:

SC Braga – Real Bétis, 1-1
Liga Europa 2025/26, Quartos-de-final (1.ª mão)
8 de abril de 2026, Estádio Municipal de Braga (Pedreira)

Árbitro: Felix Zwayer (Alemanha)
Assistência: Cerca de 20.000 espectadores

Golos: Florian Grillitsch (5′); Cucho Hernández (61′, gp)

SC Braga (3x4x3): Lukas Horníček; Víctor Gómez, Gustaf Lagerbielke, Sikou Niakaté, Bright Arrey-Mbi; Jean-Baptiste Gorby, Florian Grillitsch (Demir Ege Tıknaz, 84′), Diego Rodrigues (João Moutinho, 18′); Gabri Martínez (Dorgeles, 77′), Pau Victor (Gabriel Moscardo, 84′), Ricardo Horta (Fran Navarro, 77′).
Suplentes não utilizados: Tiago Sá, Yanis da Rocha, Leonardo Lelo, Vitor Carvalho, João Carvalho, Paulo Oliveira, Amine El Ouazzani.
Treinador: Carlos Vicens.

Real Bétis (4x2x3x1): Pau López; Aitor Ruibal, Marc Bartra, Natan, Ricardo Rodríguez; Álvaro Fidalgo (Sergi Altimira, 62′), Sofyan Amrabat (Antony, 46′); Pablo Fornals, Marc Roca (Nelson Deossa, 62′), Abde Ezzalzouli (Rodrigo Riquelme, 77′); Cucho Hernández (Chimy Ávila, 82′).
Suplentes não utilizados: Adrián, Fran Vieites, Héctor Bellerín, Diego Llorente, Valentín Gómez, Isco.
Treinador: Manuel Pellegrini.

Disciplina: Cartão amarelo para Amrabat (10′), Niakaté (22′), Marc Roca (56′), Gorby (59′), Ricardo Rodríguez (66′) e Grillitsch (71′).

texto: Inês Aires
fotos: João Mota

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