Há equipas que tremem quando ouvem o hino da Liga dos Campeões e há equipas que, simplesmente, adoram jogar contra alemães. Entre estes últimos encontramos, claramente, o FC Porto, que parece ter encontrado um habitat natural nos duelos com a Bundesliga. Afinal, se em Estugarda já havia mostrado credenciais que lhe permitiram vencer há uma semana, esta quinta-feira, no Dragão, no jogo da segunda mão dos oitavos de final da Liga Europa, voltou a dar uma lição prática de como se faz um resultado positivo frente a um dos tubarões do futebol germânico.
Com o marcador final a apontar 2-0, permitindo um agregado de 4-1 no conjunto da eliminatória e os quartos de final da Liga Europa à espera, os azuis e brancos às ordens de Francesco Farioli podem agora preparar com o mesmo afinco o embate com o próximo adversário. Na calha estão agora os ingleses do Nottingham Forest, orientados pelo bem conhecido Vítor Pereira, ele que foi adjunto do agora presidente portista, Villas Boas, e que ficou na Invicta quando aquele deixou a cadeira de sonho para ser, também ele, campeão pelo FC Porto.









A herança de Estugarda e a noite de afirmação
Se há uma semana, na Arena de Estugarda, os dragões tinham deixado um cartão-de-visita de personalidade, conseguindo uma vitória por 2-1 com uma equipa revolucionada e oito alterações no onze , a noite desta quinta-feira serviu para confirmar a tendência. O Estugarda, quarto classificado da Bundesliga e habituado a meter medo com a sua pressão alta e verticalidade, chegou ao Porto disposto a dar luta. Durante 20 minutos até conseguiu, mas depois apareceram os valores do FC Porto.
Os alemães entraram a tentar sufocar o Dragão, com bola e com critério, obrigando Diogo Costa a trabalhar mais do que seria desejável, ele que acabaria este jogo como um dos melhores em campo. Foi um período de sentido único, com Jaquez, Demirovic e Fuhrich a testarem as luvas do guardião portista. Mas este FC Porto de Francesco Farioli já mostrou que sabe sofrer. E que, sobretudo, sabe esperar pelo momento certo para dar a melhor resposta.







O onze de Farioli e a arte da gestão
Francesco Farioli voltou a mostrar que não veio para o Dragão para brincar às rotações. O técnico italiano, que já tinha feito oito alterações no jogo da primeira mão na Alemanha, promoveu uma ligeira cirurgia ao onze, mantendo a espinha dorsal que tem dado garantias na Europa. Voltou assim a confiar num bloco coeso, com Thiago Silva a fazer dupla com Bednarek no centro da defesa e Pablo Rosário a funcionar como elemento de ligação entre setores.
A estratégia foi clara: fechar os corredores, ganhar duelos individuais e explorar as transições rápidas. E resultou. O golo de William Gomes, aos 21 minutos, nasceu exatamente desse manual: roubo de bola de Zaidu, tabela entre Borja Sainz e Karazor, e o brasileiro a aparecer no sítio certo para encostar. O Dragão explodiu e para trás ficava o sufoco alemão, algo que, afinal, tinha durado 20 minutos. O resto da noite seria a preceito portista.







Froholdt, o poema de pé esquerdo
Mas a grande noite teria ainda um momento para ficar na memória. Ao minuto 72, quando o Estugarda ainda teimava em acreditar que podia discutir a eliminatória, eis que a bola chega a Froholdt. O médio, que tinha entrado ao intervalo para o lugar de Rodrigo Mora, nem pensou duas vezes. Com o pé esquerdo – ele que é direito – soltou um verdadeiro míssil, colocadíssimo, daqueles que a bola parece demorar uma eternidade a entrar e, quando entra, faz explodir o estádio. Estava feito o 2-0, estava a eliminatória resolvida, e meio Dragão de pé a aplaudir uma obra de arte.
Até o próprio Farioli, habitualmente contido, levou as mãos à cabeça. Não por estranheza, mas por admiração. “Às vezes ele fica no fim dos treinos a rematar de pé esquerdo. Eu nem queria acreditar”, confessou o treinador no final, sobre o dinamarquês que tem sido uma das apostas fortes da época. Froholdt, mais contido na flash, limitou-se a dizer que estava feliz por contribuir com um golo bonito. E era mesmo. Um hino ao futebol, numa noite em que o hino do FC Porto se cantou bem alto.


Diogo Costa e a homenagem possível
Mas não se pense que foi um mar de rosas. O Estugarda, mesmo em desvantagem, nunca deixou de tentar. E teve oportunidades. Muitas. Aí, entrou em cena o outro nome grande da noite: Diogo Costa. O guarda-redes portista, a recuperar de dores nas costas que o atormentaram durante a semana, fez uma exibição monumental.
Defesas de grande grau dificuldade a remates de Führich, intervenções decisivas em cruzamentos venenosos, saídas aos pés com a frieza dos eleitos. Esta era uma semana particularmente sensível para a baliza portista, com a morte de Silvino Louro, histórico treinador de guarda-redes. Diogo tratou de fazer a melhor das homenagens: voou baixo, segurou o resultado e deu à equipa a tranquilidade para construir o resto.
No final, Farioli não poupou elogios: “O Diogo fez um grande jogo, apesar de ter passado a semana com algumas dores. O Bednarek e o Thiago Silva fizeram uma masterclass, especialmente a proteger a área. Toda a gente ajudou muito.”








O caminho segue para Nottingham
Com este triunfo, o FC Porto junta-se a Sporting e Sp. Braga no lote dos clubes portugueses apurados para os quartos de final das competições da UEFA. E o adversário dos dragões terá um sabor especial: o Nottingham Forest, agora orientado por Vítor Pereira, técnico que foi bicampeão no Dragão, e que já venceu os dragões na fase de liga.
Farioli, esse, prefere deixas as preocupações com os ingleses para mais tarde. Agora, aponta já baterias ao próximo desafio. “Antes de pensar em Nottingham, temos o SC Braga”, lembrou, com os pés bem assentes na terra.
Ainda assim, a noite desta quinta-feira era para ser vivida. E foi mesmo, com golos, garra e… um remate de pé esquerdo que vai durar muito tempo na memória de quem o viu.








O Dragão segue em frente e os alemães, coitados, que tratem de arranjar outro clube para assombrar. Este FC Porto já não é para eles.









