A Pedreira parecia prestes a assistir a mais um capítulo de afirmação de um Braga que, sob o comando de Carlos Vicens, tem demonstrado uma identidade cada vez mais vincada. O cenário era perfeito: a equipa da casa, embalada pela “química especial” entre os seus principais jogadores, tinha acabado de inaugurar o marcador através do pé certeiro de Rodrigo Zalazar.
O Estádio Municipal de Braga, com mais de 25 mil almas, vibrava e o líder do campeonato parecia estar na corda bamba. Mas o futebol, como a vida, reserva sempre reviravoltas para quem tem coragem de as escrever e o FC Porto conseguiu e justificou a remontada, acabando por vencer por 1-2 em Braga e assinando a encomenda para as faixas de campeão a exibir na Avenida dos Aliados na cidade do Porto.








A apoteose e o eclipse de Zalazar
Até ao final da primeira parte, o jogo foi um estudo de equilíbrio tenso. Francesco Farioli, o técnico portista, lançou uma equipa revolucionada em relação aos compromissos europeus, mantendo apenas Diogo Costa, Bednarek e Zaidu como sobreviventes do onze habitual. A estratégia inicial até resultou em termos de controlo, com Alan Varela a acertar no poste aos quatro minutos. Mas a verdade é que a equipa não fluía.
Do outro lado, Carlos Vicens apostava na dupla que tem sido a alma do ataque minhoto. E se há um jogador que encarna o momento de forma do Braga, esse jogador é Rodrigo Zalazar. O uruguaio, que já leva 14 golos no campeonato, voltou a ser o homem dos momentos grandes.
Aos 52 minutos, num lance de insistência após um canto, Gabri Veiga puxou a camisola de Niakaté dentro de área e o árbitro António Nobre não hesitou em assinalar o penálti claro. Zalazar pegou na bola, colocou-a na marca e, com a frieza dos predestinados, atirou para um canto, enganando Diogo Costa que caiu para o lado contrário. A Pedreira explodiu com a sua equipa em vantagem neste jogo.








Até ao golo dos guerreiros do Minho, a “química especial” de que Vicens tanto fala parecia estar a fazer a diferença. Ricardo Horta, o capitão, tentava associar-se, Pau Victor procurava espaços e Zalazar tinha conseguido o desejado golo. No entanto, a verdade é que, depois do golo, o Braga pecou pelo mesmo mal que Ricardo Horta viria a admitir no final: “Falta-nos alguma maturidade em jogos destes”.
Em vez de gerir a vantagem com a experiência de um João Moutinho em campo, os guerreiros permitiram que o Porto, qual animal ferido, fosse reencontrar a sua garra, reunisse todos os argumentos e, com uma força notável, voltasse a acreditar.








O “efeito” William e a fúria de Fofana
O que se seguiu foi uma lição de gestão de recursos. Enquanto Vicens tentava segurar o resultado com as entradas de Gabriel Moscardo e Gabri Martínez, Farioli mostrou porque o seu plantel é considerado o mais completo do campeonato. Aos 58 minutos, Victor Froholdt, o maestro dinamarquês que tem sido uma das revelações da época com as suas visões de jogo e entradas na área, obrigou Hornicek a uma defesa monumental. O aviso estava dado.
Mas a verdadeira reviravolta veio do banco. William Gomes, o extremo brasileiro, entrou e rapidamente mostrou o seu cartão de visita: velocidade e um corte para dentro que é um pesadelo para qualquer defesa . Aos 69 minutos, Pietuszewski, outro jovem lançado na segunda metade, fugiu nas costas de Moscardo — adaptado a central, uma aposta arriscada de Vicens que saiu frustrada — e cruzou rasteiro. William Gomes apareceu como um “ponta de lança” para, com um toque simples, encostar para a baliza e recolocar a igualdade no marcador.








A Pedreira sentiu o golpe. E quando o corpo já não respondia à exigência física, o factor anímico jogou a favor dos visitantes. A cereja no topo do bolo foi servida por Seko Fofana, outra aposta de Farioli vinda do banco. Aos 80 minutos, num canto à segunda vaga, a bola sobrou para o costa-marfinense na entrada da área. Sem pensar duas vezes, atirou com um potente remate que não deu hipóteses a Hornicek. A reviravolta, servida a partir do banco de suplentes, de onde saíram os marcadores dos dois golos e o autor de uma das assistências, estava consumada.
Até ao fim do jogo, sempre disputado em grande velocidade e com uma intensidade notável por parte de duas equipas que jogaram (e ganharam) para a Liga Europa na passada quinta-feira, o jogo manteve o resultado favorável aos visitantes. O Braga ainda tentou repor a igualdade, mas faltou-lhe fôlego e, como confessou o capitão, a tal “maturidade” para segurar um resultado frente a um candidato ao título.
O FC Porto, por seu lado, não só respondeu à vitória do Sporting no mesmo dia, como deu um passo gigantesco rumo ao campeonato, mantendo os sete pontos de vantagem no topo da tabela.










Num jogo onde o onze titular até se equilibrou, a história foi escrita por quem estava no banco. Enquanto os homens de Farioli entraram e mudaram a cara do jogo, os de Vicens não conseguiram segurar a vantagem que Zalazar lhes ofereceu. No futebol de alta-roda, os detalhes contam-se em golos. E neste domingo, na Pedreira, os detalhes chamavam-se William Gomes e Seko Fofana.









