SCP 4-2 Santa Clara 3713

Sporting vence Santa Clara em jogo com polémica e muitos golos (4-2)

Os leões sofreram perante a turma açoriana na visita desta ao tapete verde de Alvalade, mas o miúdo Rafael Nel viria a permitir a luz ao fim do túnel, num jogo em que o início foi de pesadelo para o Sporting e a arbitragem revelou problemas de visão. O resultado final de 4-2 favorável à equipa da casa acaba por esconder o jogo menos conseguido perante uma formação mais modesta que nunca virou a cara à luta, deixando certamente alguns motivos de preocupação para o técnico do Sporting, Rui Borges, em face dos compromissos que se aproximam, desde logo já na próxima terça-feira frnete aos ingleses do Arsenal.

Quanto a este jogo, o relógio marcava os primeiros minutos quando Alvalade gelou. Gustavo Klismahn, aproveitando uma sobra de bola na sequência de um lançamento longo, atirou de primeira e fez o que ninguém esperava: o Santa Clara entrava a vencer no reduto leonino, na casa de um bicampeão nacional que parecia estar ainda a aquecer para o aquecimento. A festa dos açorianos era tão ruidosa quanto a mudança de humor nas bancadas verdes e brancas, mas o pior estava para vir.

Logo no minuto seguinte, a equipa de arbitragem liderada por André Narciso protagonizou o primeiro de vários episódios que mancharam a noite. Ricardo Mangas, num momento digno de um bailado trapalhão, tropeçou nos próprios pés na zona lateral da grande área. O árbitro, num gesto que deixou o estádio incrédulo, foi “levado” pela indicação do seu auxiliar e apitou, assinalando uma falta fantasma que, de todo, não existiu. Mal com esta decisão ficou o jogador do Santa Clara que, com o esférico e sem oposição, preparava-se para galgar terreno isolado frente a Rui Silva, com a possibilidade clara de fazer o 0-2, algo que não aconteceu porque o apito de Narciso matou a jogada. Foi o primeiro grande erro da noite, mas não o último, numa arbitragem que mais pareceu estar a cumprir um casting para uma peça de teatro do absurdo.

A força de vontade leonina
e a noite de Rafael Nel

Contra a arbitragem e contra a ansiedade, o Sporting teve de ranger. A equipa de Rui Borges, que não podia contar com o goleador Luis Suárez, suspenso, sentiu o peso da paragem para seleções e a mente já em terça-feira, quando o Arsenal visita Alvalade para os quartos de final da Champions. A entrada em campo foi débil, mas a reação, essa, foi de quem tem estofo de campeão.

Aos 22 minutos, a reviravolta começou a desenhar-se. Geny Catamo foi derrubado na área por Romão e, com algumas dúvidas na marcação, o árbitro assinalou grande penalidade. Na marca dos 11 metros, Pedro Gonçalves, o “Pote”, não tremeu: bola para um lado, guarda-redes para o outro. Golo e alma nova para os leões. A partir daí, o domínio foi avassalador. Daniel Bragança, aos 39 minutos, fez o 2-1 num belo entendimento com o jovem Nel, e Francisco Trincão, três minutos depois, ampliou para 3-1 na sequência de uma defesa incompleta de Gabriel Batista, atirando de forma acrobática para o fundo das redes.

Mas se a primeira parte resolveu a equação do resultado, foi na segunda que surgiu o nome do homem do jogo. Rafael Nel, o miúdo de 20 anos chamado a substituir a sombra gigante de Suárez, não se limitou a assistir Bragança. Já no período de descontos, quando o estádio ainda tremia com o golo de Gonçalo Paciência (89′) que tinha reduzido para 3-2, Nel apareceu como os grandes aparecem: na hora H. Aos 90+5, após passe de Quaresma, o jovem não tremeu na cara do guarda-redes e atirou para o 4-2 final. Foi o golo da tranquilidade, o primeiro do rapaz na I Liga, numa noite em que ele provou que o futuro já chegou.

O VAR que não viu
e a defesa que assusta

Contudo, e porque a crónica não pode ser só de elogios, é imperativo falar do elefante na sala: a arbitragem e a sua prima rica, a sala do VAR. Se a falta inexistente sobre Mangas no primeiro minuto foi ridícula, o que se passou já nos descontos da segunda parte beirou o escandaloso. Flávio Gonçalves, jovem recém-entrado, agarrou a camisola de um jogador do Santa Clara dentro da pequena área. A imagem é clara, o braço puxa, o adversário cai. O regulamento é taxativo: é grande penalidade.

Num momento em que o resultado estava 3-2 e o jogo vivia os seus momentos finais, a equipa de videoárbitro não chamou André Narciso ao monitor. O critério, ou a falta dele, brilhou pela ausência. Se o penálti fosse assinalado e convertido, o Santa Clara empatava a três golos quando já se jogava o período de compensação. O Sporting ainda marcaria o quarto, por Rafael Nel, mas isso não pode servir de desculpa para a incompetência de quem estava na cabine.

Será importante referir, aliás, que já antes o Santa Clara viu um primeiro golo de Gonçalo Paciência ser anulado pelo VAR, depois de uma falta cometida sobre Faye, num lance que tinha cometido exactamente com uma falta deste jogador do Sporting que deveria ter permitido um livre direto perigoso para o Santa Clara.

André Narciso não assinalou a primeira falta do Sporting, o Santa Clara manteve a posse de bola e Gonçalo Paciência assinou um golo de excelente qualidade, mas aí contou a intervenção do VAR para impedir que este golo fosse validado. Paciência, teve que puxar dos galões da sua qualidade para, minutos depois, fazer mesmo o segundo para os açorianos, uma vez mais com grande qualidade, num golo que desta vez não houve VAR para o retirar da contagem.

O aviso para o Arsenal

Perante a permissividade da defesa leonina neste jogo frente ao Santa Clara, ficou claro que, em termos defensivos, Rui Borges tem trabalho de casa. O golo sofrido ao primeiro minuto e a forma como a equipa adormeceu aos 89′, permitindo a Gonçalo Paciência fintar dois adversários antes de atirar, são indicadores preocupantes.

Na próxima terça-feira, diante de Viktor Gyokeres e do Arsenal de Mikel Arteta, estas distrações certamente que poderão pagar-se caro. A vitória neste jogo da 28ª jornada da I Liga soube bem, os quatro pontos de distância para o líder FC Porto são provisoriamente mantidos, mas a exibição deixou dúvidas, e num mês de abril que promete ser infernal, os leões levaram três pontos, mas também levaram um valente susto.


Ficha de Jogo

  • Competição: Liga Betclic – 28.ª Jornada
  • Data: 3 de abril de 2026
  • Local: Estádio José Alvalade, Lisboa
  • Resultado: Sporting 4-2 Santa Clara

Intervalo: 3-1

Árbitro: André Narciso
VAR: Luís Ferreira

Golos:

  • 0-1: Gustavo Klismahn (3′)
  • 1-1: Pedro Gonçalves (22′ – g.p.)
  • 2-1: Daniel Bragança (39′)
  • 3-1: Francisco Trincão (42′)
  • 3-2: Gonçalo Paciência (89′)
  • 4-2: Rafael Nel (90+5′)

Sporting: Rui Silva; Vagiannidis, Eduardo Quaresma, Debast, Ricardo Mangas; Morita (Hjulmand, 67′), Daniel Bragança (João Simões, 60′); Geny Catamo (Flávio Gonçalves, 88′), Pote (Maxi Araújo, 46′), Trincão; Rafael Nel.
Treinador: Rui Borges
Suplentes não utilizados: Diomande, Inácio, Kochorashvili, João Virgínia.

Santa Clara: Gabriel Batista; Lucas Soares, Sidney Lima, Henrique Silva, Guilherme Romão; Pedro Ferreira (Vinícius Lopes, 59′), Welinton Torrão (José Tavares, 59′); Serginho, Gabriel Silva (Brenner, 71′), Klismahn (Darlan, 71′); Fernando (Gonçalo Paciência, 77′).
Treinador: Petit
Suplentes não utilizados: Paulo Victor, Venâncio, Diogo Calila, Neneca.

Disciplina: Cartões amarelos para Trincão (23′), João Simões (75′), Vagiannidis (76′), Hjulmand (90+7′); Pedro Ferreira (44′), Gonçalo Paciência (90+7′) e Petit (treinador, 86′).

texto: Jorge Reis
fotos: Luís Moreira Duarte

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