Num Mercedes-Benz Stadium com lotação esgotada — 72.297 almas, na sua grande maioria a puxar pelos anfitriões —, a Seleção portuguesa de Roberto Martínez fez o que lhe competia: no segundo jogo particular realizado na viagem da Turma das Quinas ao continente americano, e depois do empate sem golos frente ao México, pôde agora vencer os Estados Unidos por 2-0, em amigável de preparação para o Mundial 2026 que serviu para confirmar o fosso que ainda separa o futebol norte-americano das potências europeias.
Francisco Trincão e João Félix apontaram os golos, um em cada metade da partida, carimbando a vitória de Portugal num jogo em que os comandados de Martinez nunca precisaram de acelerar verdadeiramente para se impor. Curiosamente, velocidade foi coisa que nem sequer se tornou muito possível num conjunto em que ficou evidente a ausência de automatismos, algo que Portugal terá que conseguir para aumentar a qualidade do futebol do conjunto. A complicar a melhor capacidade técnica de Portugal esteve também o relvado, muito aquém da espectacularidade do recinto, prejudicando o espetáculo que as duas equipas poderiam ter proporcionado.





O tabuleiro e o tapete: a ilusão do Mercedes-Benz
É inevitável começar por aquilo que saltava à vista, mesmo para quem acompanhava pela televisão. O Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, é uma obra-prima da arquitetura desportiva moderna — com o seu teto retrátil em forma de pétalas e aquele anel de vídeo em 360 graus que transforma cada instante em espetáculo. Só que o tapete, infelizmente, não estava à altura do salão. O relvado natural instalado para a ocasião apresentava marcas visíveis da utilização anterior e revelou-se irregular, com a bola a saltar de forma imprevisível em vários lances.
Para equipas que primam pela troca curta e pela construção apoiada — e Portugal é uma delas —, esta condição é um adversário invisível, mas incómodo. O jogo sofreu com isso, sobretudo nos primeiros minutos, quando a precisão nos passes deixou a desejar. É um aviso para o Mundial, que irá passar por Atlanta com oito partidas, incluindo duas da fase de grupos de Espanha e uma das meias-finais. Espera-se que o relvado, em junho, esteja à altura do certame.
As escolhas de Martínez: a dança das ausências
Roberto Martínez apresentou-se em Atlanta com uma convocatória que já trazia um nome de peso ausente: Cristiano Ronaldo, ainda a recuperar de uma lesão muscular contraída em fevereiro. A ausência do capitão abriu espaço para que o selecionador espanhol testasse soluções alternativas no ataque, algo que fez questão de explorar desde o onze inicial.







O técnico optou por uma linha ofensiva composta por Trincão, Pedro Neto e Gonçalo Ramos, com Bruno Fernandes a desempenhar o papel de organizador mais adiantado. No meio-campo, a aposta recaiu na dupla Vitinha e Samu Costa, numa clara tentativa de dar robustez e capacidade de transporte à zona central.
A primeira parte começou com uma toada de estudo. Os Estados Unidos, ainda sob o efeito moral da derrota pesada com a Bélgica (2-5), entraram com intensidade e até criaram as melhores oportunidades nos primeiros 20 minutos. Mas Martínez, fiel à sua matriz, não se deixou contagiar pela ansiedade. A equipa portuguesa foi ajustando os mecanismos de pressão e, após a pausa para hidratação — um desses detalhes modernos que promete marcar o próximo Mundial —, passou a controlar o ritmo.
A capacidade de leitura do jogo por parte dos jogadores lusos, aliada às indicações do banco, permitiu que Portugal anulasse a energia inicial norte-americana e impusesse o seu futebol de posse. Com isso, aos 36 minutos, a eficácia falou mais alto: um erro na saída de bola dos EUA, um passe de rutura de Vitinha para Bruno Fernandes e um calcanhar genial do médio do Manchester United para Trincão finalizar cruzado, sem hipóteses para Matt Freese.





A noite de Pulisic e o laboratório norte-americano
Do outro lado, Mauricio Pochettino, o treinador argentino que comanda os anfitriões, também usou o jogo como laboratório. A experiência mais visível foi a utilização de Christian Pulisic como falso nove, num sistema mais ofensivo ao lado de Weston McKennie. A ideia era aproximar a estrela da baliza, quebrar um jejum que já dura desde 2024 e dar-lhe mais liberdade de movimentos. Na teoria, fazia sentido. Na prática, foi mais um capítulo de frustração para o jogador do AC Milan.
Pulisic teve duas oportunidades claras na primeira meia-hora — um remate fraco aos seis minutos e uma falha de contacto aos 22, após cruzamento de Tim Weah — que denunciaram a falta de confiança de quem anda há meses sem balançar as redes. Aos 41 minutos, a frustração transformou-se em agressão: um pontapé em Vitinha valeu-lhe um aviso e, pouco depois, um cartão amarelo por mais um acesso de raiva. Pochettino retirou-o ao intervalo, numa substituição que soou a reconhecimento do fracasso da experiência.
Os Estados Unidos terminaram o jogo com a oitava derrota consecutiva frente a adversários europeus, um registo que evidencia as dificuldades de um projeto que se quer competitivo para o Mundial que vai co-organizar. Pochettino, que só no dia 26 de maio anunciará a lista definitiva para a competição, tem muito trabalho pela frente.
O golo de João Félix e a gestão de recursos
A segunda parte trouxe frescura com as substituições em massa permitidas pelos amigáveis. Martínez lançou João Félix após o intervalo e, aos 59 minutos, o antigo jogador do Atlético de Madrid agora a militar no Al Nassr tratou de sentenciar o jogo com um golo de laboratório.




Após um canto batido por Bruno Fernandes, a defesa norte-americana deixou-se levar pela movimentação dos jogadores lusos que subiram em bloco para junto da baliza, deixando João Félix sozinho na entrada da área. Ali, recebeu a bola e teve tempo para dominar, deixar bater a bola no relvado e desferir um pontapé colocado ao segundo poste, tudo isto sem que qualquer defesa se aproximasse.
Conseguiu assim Félix um golo que vale quase como um cartão de visita para um jogador que terá conseguido convencer Martínez de que merece um lugar no avião para o Mundial.
A partir daí, o jogo entrou numa toada de treino. Portugal geriu o esforço, rodou praticamente todo o plantel, e os Estados Unidos, já sem argumentos, limitaram-se a assistir. Matt Freese, o guarda-redes do NYCFC que recuperou a titularidade, ainda evitou um resultado mais volumoso com duas defesas de qualidade, primeiro a um míssil de Rúben Neves e depois a um remate de Francisco Conceição nos descontos.
Portugal venceu sem espinhas, deixando a sensação de que há níveis de exigência que, por mais vontade que se coloque em campo, não se alcançam sem maturidade e talento — duas coisas que, neste jogo, a Turma das Quinas teve em quantidade.




Ficha de Jogo
Competição: Amigável internacional (preparação para o Mundial 2026)
Data: 31 de março de 2026 (1 de abril em Portugal continental)
Público: 72.297 espectadores
Árbitro: Sven Jablonski (Alemanha)
Estados Unidos: Matt Freese; Alex Freeman, Chris Richards, Auston Trusty, Antonee Robinson; Aidan Morris, Sebastian Berhalter, Weston McKennie; Tim Weah, Christian Pulisic (c) e Malik Tillman .
Treinador: Mauricio Pochettino.
Portugal: José Sá; Diogo Dalot, Tomás Araújo, Gonçalo Inácio e João Cancelo; Samu e Vitinha; Trincão, Bruno Fernandes e Pedro Neto; Gonçalo Ramos.
Treinador: Roberto Martínez.
Jogaram ainda: Ricardo Velho, António Silva, João Félix, Nuno Mendes, Renato Veiga, Matheus Nunes, Rúben Neves, Ricardo Horta, Francisco Conceição, Mateus Fernandes e Paulinho.
Golos: Francisco Trincão (37’), João Félix (59’).









