Há jogos que valem por uma época e a tarde desta quarta-feira, 18 de março, no Municipal de Braga, terá um lugar especial na memória dos arsenalistas. Depois de uma derrota desmoralizante em Budapeste, por 2-0, que colocou uma pedra gigantesca no caminho dos quartos de final da Liga Europa, o SC Braga precisava de uma exibição perfeita. Pois não só a concretizou, como a superou, e logo com uma goleada por 4-0 frente ao Ferencváros.
Com os búlgaros como adversários, os mesmos que uma semana antes tinham ganho justamente por 2-0 deixando uma ideia de que o obstáculo era intransponível para os pupilos de Carlos Vicens, estes assinaram esta quarta-feira uma das suas maiores jornadas europeias, consumando uma reviravolta de encher o olho e provando que este conjunto tem fibra de sobra para os grandes palcos.







O onze da crença: a aposta de Vicens na recuperação
Se na Hungria o SC Braga tinha pecado pela intranquilidade e pela falta de pontaria, Carlos Vicens tratou de endireitar o leme. Consciente de que não bastava vencer, sendo necessário golear para anular o desaire da primeira mão, o técnico espanhol desenhou uma equipa propositadamente ofensiva, mas sem nunca perder o discernimento tático que tem caracterizado a sua era.
O onze inicial refletia essa ambição controlada. No entanto, a verdadeira magia residia na atitude. Vicens pediu uma pressão alta e asfixiante sobre a construção dos húngaros, algo que tinha falhado no jogo anterior, onde a equipa “demorou a entrar” e “não soube responder” à agressividade inicial do Ferencváros, como admitira o capitão Ricardo Horta na semana passada.







Desta vez, os guerreiros entraram com uma fome e uma intensidade que deixaram o conjunto de Budapeste completamente perplexo. O meio-campo, com Florian Grillitsch e Jean-Baptiste Gorby a comandarem a estratégia dos guerreiros com excelente leitura de jogo, permitiram a apresentação de um onze que soube sempre comandar os tempos da partida, na qual os laterais subiam e que os extremos exploravam as costas da defensiva magiar.
Primeiro tempo de sonho: a eliminatória virou antes do intervalo
Quem esperava um Ferencváros recuado a defender o resultado, enganou-se, até porque simplesmente não lhe foi permitido tal estratégia num jogo em que o SC Braga foi um rolo compressor desde o apito inicial. Aos 11 minutos a Pedreira já festejava o primeiro golo, num lance de puro instinto de área. Ricardo Horta, o eterno capitão, apareceu no coração da pequena área para encostar para o fundo das redes, depois de um cruzamento com régua e esquadro de Zalazar. Estava conseguido o 1-0 e a certeza de que a tarde podia ser mesmo histórica.
O golo precoce, ao contrário do que seria expectável, não acalmou o ímpeto bracarense; exacerbou-o. A equipa de Carlos Vicens não dava tréguas e o Ferencváros, sem capacidade de resposta, ia assistindo ao naufrágio. Foi preciso por isso apenas mais quatro minutos para que o SC Braga chegasse ao 2-0 e empatasse a eliminatória. Aos 15 minutos, Grillitsch, numa jogada que ele próprio iniciou a meio-campo, foi lá à frente concluir com um remate de fora da área em que o guarda-redes Gróf permitiu um grande frango.







O Estádio Municipal vibrava em uníssono, a eliminatória estava empatada, o SC Braga queria mais e, ainda antes do intervalo, ao minuto 34, Pau Victor lançou Gabri Martínez pelo corredor direito, o ala espanhol começou por adiantar a bola e, já perante Gróf, rematou “de bico” fazendo a bola entrar na baliza do Ferencváros pela terceira vez neste jogo.
O intervalo chegou pouco depois, num jogo em que, em apenas 45 minutos, a desvantagem de 2-0 de Budapeste tinha-se transformado numa vantagem de 3-2 no agregado. A remontada estava em marcha.
O selo do capitão e a gestão inteligente de Vicens
Na segunda parte, o guião manteve-se, Com o dono daquilo tudo em Braga a ditar a sua lei. Ricardo Horta, é dele que falamos, voltou a fazer das suas ao minuto 53, assinando o quarto golo de forma brilhante. Grillitsch fez o passe para a zona de penálti e Horta, com todo o espaço, rematou colocado e de primeira para um golaço que permitiu o 4-0 no marcador.






Anulado pelos bracarenses, os jogadores do Ferencváros mostravam-se nulos ofensivamente, procurando um eventual golo que lhes permitisse reentrar no jogo, mas esbarrando constantemente num muro minhoto bem organizado. Aos 65 minutos, Carlos Vicens fez a primeira mexida, refrescando o meio-campo para manter a intensidade, lançando Gabriel Moscardo no lugar de Gorby para dar mais posse e critério na transição.
Nos minutos finais Vicens geriu o esforço, dando descanso a alguns dos esteios, ciente de que o trabalho hercúleo estava feito. O resultado não mais se alterou, mas a festa nas bancadas prolongou-se bem para lá do apito final.







Uma lição de caráter e um futuro promissor
O SC Braga de Carlos Vicens não se limitou a ganhar um jogo; deu uma verdadeira lição de caráter, competência e fé. Depois de uma primeira mão cinzenta, em que a equipa saiu derrotada e onde o técnico lamentou que não se pode “perdoar” ao mais alto nível, a resposta foi à medida dos grandes. A equipa conseguiu ligar o “motor ofensivo” que tinha avariado na Hungria e colocou “toda a carne no assador” para justificar a goleada.
Com Ricardo Horta a assumir o papel de Homem do Jogo, liderando as tropas com golos e raça, e com um coletivo simplesmente irrepreensível, os guerreiros do Minho carimbaram o passaporte para os quartos de final da Liga Europa.








A eliminatória, que se apresentava particularmente complicada, tornou-se numa demonstração de força e poderio. A Pedreira voltou a tremer, mas desta vez foi de orgulho.









