LuisMontenegro-SaoBento

Quando Montenegro fica entre a espada de Trump e a parede da oposição

Cumpre-se a primeira semana de um conflito cujas repercussões já não se medem apenas em baixas no Médio Oriente, mas em estragos no tabuleiro político doméstico. E se há imagem que define a posição em que se encontra Luís Montenegro é a de um primeiro-ministro encurralado: entre a espada da administração Trump e a parede de uma oposição que acaba de receber, das mãos de Madrid, uma munição inesperada.

Quando o governo de Pedro Sánchez recusou a utilização das bases militares norte-americanas em território espanhol para os ataques ao Irão, fê-lo invocando a legalidade internacional e a ausência de mandato da ONU . O gesto teve consequências imediatas — o Pentágono retirou uma dúzia de aviões de reabastecimento de Morón e Rota  —, mas produziu um efeito colateral que vai incomodar (e muito) em São Bento: expôs a solidão portuguesa.

Porque, do lado de cá da fronteira, o silêncio de Montenegro fala mais alto do que qualquer comunicado. Ao contrário do vizinho ibérico, que fez valer a soberania nacional para travar uma ofensiva que considera unilateral, Portugal mantém a base das Lajes ao serviço da ponte aérea americana. Os KC-46 Pegasus descolaram dos Açores e ninguém em Belém ou São Bento levantou um reparo público . O governo português limitou-se a condenar os “injustificáveis ataques do Irão”, como se do outro lado não houvesse também bombas a cair .

Esta gritante assimetria de postura entre os dois países ibéricos é o prato principal que a esquerda levará para o debate quinzenal desta quarta-feira. José Luís Carneiro já afiou as facas e exige saber, ponto por ponto, o que foi autorizado, ao abrigo de que cláusulas e com que proteção para os portugueses que por lá andam . O Livre e o Bloco não deixarão passar a oportunidade de colar o governo à política de Trump e Netanyahu .

O problema é que o fogo amigo de Sánchez — ainda que involuntário — coloca Montenegro num beco de difícil saída. Se explica e justifica o uso das Lajes, entra na bitola estreita de comparar a sua posição com a espanhola, e aí a derrota política é certa: como justificar o alinhamento automático com Washington quando o nosso principal parceiro europeu e vizinho fez exatamente o oposto? Se se remete ao silêncio, alimenta a suspeita de que há mais a esconder do que a revelar e oferece flanco à narrativa da subserviência.

A verdade é que o primeiro-ministro fica, de facto, entre Trump e a parede. Mas a parede, neste caso, tem nome e endereço: chama-se opinião pública portuguesa e fica num país que ainda não digeriu as cheias e as tempestades que devastaram infraestruturas e deixaram um rasto de prejuízos de centenas de milhões de euros . Um país que agora vê o preço do petróleo a aproximar-se dos 80 dólares e a fatura energética a ameaçar o já frágil poder de compra das famílias .

A economia portuguesa, que mal começava a dar sinais de recuperação da estagnação europeia, enfrenta agora um choque energético que pode travar o investimento, agravar a inflação e, num cenário mais negro, obrigar o BCE a reverter a política de juros . O turismo, esse motor de 40 mil milhões, treme com a instabilidade no espaço aéreo e o custo dos combustíveis .

Ou seja: o executivo vê-se entre a espada geopolítica (a aliança com os EUA) e a parede económica (o bolso dos portugueses). E a Espanha, ao dar o exemplo da contenção, deixou Portugal numa incómoda posição de retaguarda.

Não se trata de ser contra ou a favor dos americanos. Trata-se de saber se, quando a História chamar por este governo, ele saberá dizer “presente” com a dignidade de quem coloca os interesses nacionais acima das conveniências de alinhamento automático. Por enquanto, Luís Montenegro joga no silêncio. Mas no xadrez político, como na guerra, quem não se mexe acaba encurralado. E o debate de quarta-feira promete ser o momento em que o rei terá de sair da sombra.

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