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Adeus, Sr. Martínez. Já vai tarde!

Roberto Martínez já não é selecionador de Portugal. O anúncio foi feito pelo próprio depois da eliminação da Turma das Quinas nos oitavos de final do Mundial FIFA’2026, frente à Espanha, com um discurso que parecia mais uma desculpa do que uma despedida. Antecipando-se ao próprio presidente da FPF, Pedro Proença, o técnico espanhol foi dizendo que “não fazia sentido continuar” sem vencer o Mundial e que era o momento de “uma nova voz” no comando da Seleção. Tem toda a razão. Mas, sinceramente, essa nova voz já devia ter chegado há mais tempo.

Não foi o resultado de um jogo que ditou o fim do ciclo. Foi a confirmação do que muitos já viam há muito tempo: Roberto Martínez nunca percebeu aquilo que dele se exigia. Não soube tirar partido de uma geração ímpar de jogadores portugueses. Pegou num dos plantéis mais talentosos do mundo — ainda com Cristiano Ronaldo, ao lado de Bruno Fernandes, Vitinha, João Neves, Rúben Dias e Nuno Mendes, entre outros — e transformou-o num conjunto de bons jogadores que, em campo, pareciam estranhos uns aos outros, incapazes de funcionar como uma equipa coesa. A ideia de jogo nunca existiu.

A Seleção passou a maior parte dos jogos a olhar para o adversário, à espera que ele fizesse algo para depois reagir. Com a matéria-prima que tinha, era um pecado jogar sempre em modo de contenção, sem ser proactiva, sem impor o seu valor. Contra a Espanha, foi a imagem de um filme que já conhecíamos: correr atrás do prejuízo, mexer tarde e mal. Basta olhar para as opções que fez — ou não fez. Manter Cristiano Ronaldo em campo os 90 minutos, mesmo aos 41 anos, quando já não consegue ser decisivo a este nível, e deixar Gonçalo Ramos, que tinha resolvido o jogo anterior, no banco, é quase uma declaração de intenções.

Aliás, sobre Cristiano Ronaldo, é importante frisar que Roberto Martinez nunca soube gerir o potencial que o capitão de Portugal ainda possui, insistindo em espremer a qualidade até ao fim quando podia (e devia) gerir o futebol do CR7, tirando o melhor partido de um jogador que continua a conseguir segurar dois elementos atrás de si, impondo um respeito natural em resultado de ser um dos melhores do Mundo. Ao invés, Martinez insistiu em colocar todo o peso da responsabilidade pelo resultado nos ombros de alguém que não é deus, mesmo continuando, a espaços, a ser um Super-Homem.

É verdade que, no papel, os números de Martínez são bonitos. Tem a melhor percentagem de vitórias da história de Portugal e a melhor média de golos. E ele próprio fez questão de o lembrar depois da derrota em Dallas, vangloriando-se das “melhores estatísticas” dos últimos anos. Mas as estatísticas não ganham jogos. E, mais importante, não ficam na memória de ninguém.

O que fica é uma conquista da Liga das Nações em 2025, que mais pareceu um prémio de consolação pelo que se esperava. Claro que é um título, e isso merece respeito. Mas, para o valor que esta equipa tinha, para a qualidade que saía dos pés daqueles jogadores, isso é francamente pouco. Ficou a sensação de que houve mais preocupação em não perder do que em ganhar, em gerir estatísticas do que em construir um legado.

Agora, abre-se a porta para Jorge Jesus. E, nesse aspecto, a esperança renasce. Conhecendo profundamente o futebol português, com uma identidade de jogo vincada e sem medo de ser ele próprio, Jesus vai assumir uma equipa que precisa, acima de tudo, de um líder. Alguém que decida, que arrisque, que não tenha medo de sentar quem tem de sentar. E ainda vai ter ao lado, no banco, um nome com peso e autoridade: Pepe. É o princípio do fim da era da passividade.

Adeus, Sr. Martínez. Já vai tarde e não leva saudades. Bem-vindo, Mister Jesus. Que seja igual a si mesmo!

Jorge Reis – jornalista desde 1988, numa carreira iniciada aos 22 anos na Agência Lusa depois de uma primeira aventura no mundo da rádio quando descobriu a magia da comunicação, então na Rádio Mais, passou por diversos jornais desde o Correio da Manhã, a revista Golo, ainda O Jogo24horas e Diário de Notícias, antes de avançar para a informação online com a LusoSaber que fundou, dirige, e onde está até hoje desde 2000, com os títulos LusoMotores e LusoNotícias a seu cargo. Acredita que é possível navegar contra a maré negativa que atravessa o jornalismo e insiste em querer ser livre e caminhar nas ruas enquanto português e cidadão do Mundo, sempre de cabeça levantada.

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