Se há expressão que se repete todos os anos nesta altura, é essa mesma: a silly season. O conceito, importado da imprensa britânica, descreve o período de verão em que a política e o país abrandam, os parlamentos fecham e os jornais, com menos “grandes” notícias, agarram-se a tudo o que mexe. É a época em que a toalha de praia de um primeiro-ministro se pode tornar um “potencial assunto de Estado” ou em que uma entrevista menos feliz ganha um eco desmesurado. A ideia é que, com menos concorrência informativa, qualquer pequeno incidente ganha uma dimensão quase épica.
Mas este ano, esta “época tonta” parece ter uma camada extra de complexidade. Apesar de ser agosto, mês de praia e sol, não é bem um período de “não notícias” . Para quem está atento, a percepção é que o país não pára e, pior, que a silly season já não se confina aos meses de verão. A sensação que fica, como alguns têm notado, é que a lógica do “tudo é notícia” se tornou uma constante, um ruído de fundo que nos acompanha o ano inteiro, onde se repete até à exaustão o mesmo assunto, mesmo quando já não há nada de novo a dizer sobre ele. A linha entre o que é relevante e o que é mero ruído tornou-se ténue, e o resultado é um cansaço informativo que ultrapassa as férias.
E é aqui que reside a ironia. Com o país a “ferver” com crises em várias pastas governativas, a ideia de uma silly season light e descontraída parece um luxo que não temos. Ao invés de um Verão de pura trivialidade, assistimos a uma acumulação de problemas reais que, por falta de uma resposta clara, se arrastam e se vão tornando crónicos. A “silly season” deixa de ser “silly” quando revela, como um raio-X, a falta de estratégia e a incapacidade de comunicação que se vão arrastando há meses.
O que temos, por isso, é um paradoxo: a época que deveria ser dominada pelo fútil e pelo anedótico torna-se, afinal, um espelho de fragilidades mais profundas. A tentação de olhar para o que se passa como uma simples “silly season” é, por isso, um erro. Serve para amenizar a gravidade dos temas, mas a verdade é que as questões que ficam por resolver durante o Verão não se evaporam com o calor. São elas que vão marcar o Outono, altura em que, como se costuma dizer, o país “volta à realidade” e se confronta com o preço da inércia. Na verdade, e infelizmente, somos levados a crer que, mais que uma silly season, temos um silly country!

Jorge Reis – jornalista desde 1988, numa carreira iniciada aos 22 anos na Agência Lusa depois de uma primeira aventura no mundo da rádio quando descobriu a magia da comunicação, então na Rádio Mais, passou por diversos jornais desde o Correio da Manhã, a revista Golo, ainda O Jogo, 24horas e Diário de Notícias. Avançou para a informação online com a LusoSaber que fundou, dirige, e onde está até hoje desde 2000, com os títulos LusoMotores e LusoNotícias a seu cargo. Acredita que é possível navegar contra a maré negativa que atravessa o jornalismo e insiste em querer ser livre e caminhar nas ruas enquanto português e cidadão do Mundo, sempre de cabeça levantada.









