Madrid, Spain 25th Feb 2025; Vinicius Vini Junior (Real Madrid CF)  seen celebrating after scoring goal during Champions League knock out play off game between teams of Real Madrid CF and SL Benfica; Maciej Rogowski. Alamy Live News

Real Madrid vence e segue na Champions frente a Benfica estratégico de Mourinho

O Real Madrid venceu esta quarta-feira o Benfica por 2-1 no Santiago Bernabéu, carimbando com isso o passaporte para os oitavos de final da Liga dos Campeões. Mas se o resultado escuda os merengues e a polémica em torno de Vinicius Jr., a noite fica marcada pela sensação agridoce de uma equipa encarnada que teve o jogo na mão e o deixou escapar… por opção. Ou, melhor dizendo, por não opção de José Mourinho, que de um “camarote sobre rodas” permitiu que a águia voasse mas sem nunca lhe dar a liberdade para atacar o céu de Madrid.

Há jogos que se perdem antes de a bola rolar e há outros que se perdem por não se querer ganhá-los. Ora, sobre este, o Benfica de José Mourinho, treinador que construiu uma carreira a desafiar lógicas e a vencer em campos inimigos, viveu esta quarta-feira, em Madrid, uma noite de paradoxos. Perdeu por 2-1, sim, e despediu-se da Liga dos Campeões. Mas a derrota soube menos ao golo de Vinicius Júnior aos 80 minutos e mais à sensação de que a águia, presa na gaiola dourada do técnico português, nunca foi autorizada a esticar as asas.

O fantasma do jogo da Luz
e a receção hostil em Madrid

Se o futebol se jogasse apenas dentro das quatro linhas, esta eliminatória já teria sido complicada para o Benfica. Mas a verdade é que a bola até foi o menos importante nos dias que antecederam o apito inicial do árbitro Slavko Vincic.

A primeira mão no Estádio da Luz ficou marcada por um episódio gravíssimo: a acusação de racismo de Vinicius Júnior a Gianluca Prestianni, que valeu a suspensão preventiva do argentino por parte da UEFA e o transformou no grande ausente desta partida. O ambiente em Madrid, como seria de esperar, estava electrizado, e ainda antes do jogo a tensão transbordou das bancadas para as ruas: adeptos benfiquistas que se dirigiam para o estádio dos merengues foram alvo de uma investida da polícia espanhola, num cenário de hostilidade que mais parecia preparar o palco para um confronto bélico do que para um jogo de futebol.

Dentro do Santiago Bernabéu, a “familia blanca” hasteou uma faixa com a mensagem “No al racismo”, numa tentativa de mostrar apoio à sua estrela brasileira. Fora das quatro linhas, o clima era mais de guerra do que de desporto, curiosamente no mesmo local em que os presidentes dos dois clubes puderam jantar num convívio protocolar que quase deixava a ideia de que aquele era um jogo normal. Mas não era, de todo, e, ao invés de um relvado, foi num ringue que a equipa o Benfica entrou.

Um sonho de 15 minutos
e o despertar por Tchouaméni

Mas se o coração dos adeptos encarnados estava apertado, a equipa entrou em campo para mostrar que o coração do futebol português ainda bate forte. E bateu primeiro. Aos 13 minutos, numa jogada de insistência, Pavlidis cruzou da direita, a defesa merengue hesitou, e Rafa Silva, oportunista como só ele, atirou para o fundo das redes da baliza à guarda de Courtois. O 1-0 no Bernabéu recolocava o Benfica na eliminatória e trazia de volta a esperança que parecia perdida desde o jogo da Luz.

A festa benfiquista durou 120 segundos. O suficiente para lembrar aos portugueses porque é que o Real Madrid é o “rei de Europa”. Aos 15 minutos, Valverde, jogador que poderia ter ficado de fora nesta partida se tivesse sido punido pela agressão a Dahl no jogo da primeira mão, num daqueles arranques que só os uruguaios sabem fazer, assistiu Tchouaméni na entrada da área. O francês não pensou duas vezes: remate colocado, rasteiro, e a igualdade estava reposta. O estádio, que por instantes emudeceu, voltou a rugir.

A primeira parte ainda teve um golo anulado a Arda Güler (fora de jogo milimétrico) e a sensação de que o Real, mesmo sem Mbappé, ausente por lesão, tinha recursos para resolver a eliminatória. Mas o Benfica não mostrava assustar-se e, pelo contrário, competia de igual para igual.

A segunda parte da hesitação…
e se Mourinho tivesse mexido mais cedo?

Se o primeiro tempo foi de choque e réplica, a segunda parte transformou-se num monólogo de intenções… por cumprir. O Benfica percebeu que o Real Madrid estava ali para ser incomodado.

Aos 70 minutos, Rafa Silva ainda fez tremer a trave da baliza de Courtois, num remate que poderia ter mudado o destino da noite. Do outro lado, Valverde atirou ao lado quando tinha tudo para fazer o gosto ao pé.

Era o momento. O Benfica precisava de um rompante de frescura, de loucura. Era hora de mexer. E Mourinho? O “Special One”, cada vez mais o “Practical One”, como aqui no LusoNotícias já o apelidámos aquando do seu regresso aos encarnados, via o jogo de um local inusitado: o autocarro da equipa, na garagem do Bernabéu, cumprindo castigo após a expulsão na Luz.

Lá de baixo, a partir da garagem do recinto blanco para onde os elevadores do estádio foram mesmo bloqueados, para que ninguém pudesse incomodar os encarnados, as ordens subiam talvez por telemóvel ou por mensagens endereçados ao seu adjunto, João Tralhão. E as ordens eram claras: não arriscar.

Foi assim preciso esperar pelos 85 minutos, já depois de Vinicius Júnior ter resolvido a contenda cinco minutos antes (numa arrancada letal pela esquerda, após uma desconcentração defensiva, que culminou no 2-1 final), ele que também poderia ter ficado de fora deste jogo se na Luz tivesse visto o segundo cartão amarelo que o árbitro não lhe mostrou, só então nesta altura as mudanças surgiram a partir do banco do Benfica. Só que as mudanças revelaram receio, quer pelo conteúdo – entraram Barrenechea e Ivanovic por troca com Aursnes e Schjelderup –, quer principalmente porque já era tarde. Muito tarde.

Em vez de lançar a artilharia pesada bem mais cedo no segundo tempo, quando o jogo se mantinha empatado e um golo dos encarnados poderia empatar a eliminatória, numa altura em que o jogo pedia velocidade e ruptura, Mourinho, através de João Tralhão, preferiu esperar, deixou no banco nomes como Lukebakio, Bruma, Sudakov ou Anísio, e deixou que o Real Madrid acordasse ao seu ritmo, empurrado pelos seus adeptos.

Jogadores com capacidade de desequilibrar, de um para um, de decidir, não foram aposta, e quando os reforços vindos do banco entraram nas quatro linhas, já o monstro tinha acordado e o resultado estava consumado. Ficou a pergunta no ar: e se tivessem entrado aos 60 minutos? E se o Benfica tivesse ido à loucura num momento em que o Real Madrid parecia em sentido?

A guerra do campeonato:
o plano racional de Mourinho

Mas José Mourinho, lá no seu autocarro, não via apenas um jogo. Via uma época inteira de uma forma fria e calculista. E a verdade é que, olhando com essa observação mais racional, a eliminação na Champions pode saber a estratégia a longo prazo para os encarnados.

Com a derrota neste jogo da Champions, o Benfica fica de fora da prova milionária e pode agora concentrar-se a 100% na I Liga. Enquanto isso, os rivais diretos, FC Porto e Sporting, continuam em prova na UEFA, o que significa para dragões e leões mais desgaste, mais viagens, mais jogos no meio da semana, enquanto as águias preparam os seus voos apenas para o campeonato ao fim de semana.

Acabou assim este jogo frente ao Real Madrid, por tudo isso, transformado em uma noite de vitórias morais e derrotas reais. O Benfica saiu de Madrid de cabeça erguida, com a convicção de quem fez um grande jogo frente ao ‘Sr. Champions’, mas saiu também com a convicção de que podia ter feito muito mais. Podia ter arriscado. Podia ter vivido perigosamente. E é verdade que podia? Sim, podia, e não seria de todo a mesma coisa. Só que em vez disso, José Mourinho preferiu jogar racionalmente. E por isso a sua equipa morreu na praia, mesmo que de cabeça erguida e depois de um jogo em que se bateu de olhos nos olhos com o colosso da Liga dos Campeões da UEFA.

A eliminatória acabou assim por ser ganha pelo Real Madrid, que segue em frente para os oitavos de final da Champions. Mas a noite, na história do futebol, ficará sempre a noite do “se”… do “se” Mourinho tivesse confiado mais nos seus soldados. Sobre isso, restam-nos as convicções individuais de quem viu este jogo em que o Benfica caiu de pé, e sobre o qual nunca saberemos se teria conseguido evitado a queda.

texto: Jorge Reis
fotos: Maciej Rogowski

Sondagem

Qual a sua convicção pessoal relativamente ao curso da guerra na Ucrânia?

View Results

Loading ... Loading ...

Rádio LusoSaber

Facebook

Parcerias

Subscreva a nossa Newsletter

Inscreva-se para receber nossas últimas atualizações na sua caixa de entrada!