Foi num ambiente de celebração e reconhecimento que o Auditório Artur Agostinho, no coração do Estádio José Alvalade, acolheu, no passado dia 7 de fevereiro, a cerimónia anual de entrega das Bolsas de Estudo dos Leões de Portugal. O ato, singelo na forma mas profundo no significado, repetiu-se este ano como se repete há quatro décadas: um a um, 52 estudantes — do ensino básico ao doutoramento — subiram ao palco para receber um apoio que vai muito além do valor monetário. É o combustível que permite a jovens como a Maria Carlota ou o Joseph Alexander “ir atrás dos sonhos” e concluir mestrados dentro e fora do país, como a própria instituição faz questão de recordar.
Entre os rostos atentos na plateia, um olhar particularmente vigilante e cheio de projetos. O de Zeferino Boal. O novo presidente da Direção, que tomou posse no passado dia 6 de janeiro para o quadriénio 2026-2030, assistiu à cerimónia não apenas como um rito de passagem, mas como a confirmação de um legado que agora tem a missão de expandir. Em entrevista que brevemente editaremos, Zeferino Boal abriu o jogo sobre os desafios de modernizar uma casa com 41 anos de história, as dificuldades do presente e os sonhos ambiciosos para o futuro. Antes dessa conversa de fundo, importa perceber o estado da nação… leonina e solidária.

(Presidente da Direção dos Leões de Portugal)

De um grupo informal a IPSS de referência
A história dos Leões de Portugal confunde-se com a própria história recente do associativismo solidário em Portugal. Nascido em 1984 como um grupo informal de sportinguistas com vontade de fazer a diferença, o movimento rapidamente percebeu que a boa vontade precisava de estrutura. A formalização como Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) chegaria em 1997, profissionalizando um trabalho que já se destacava. Logo no primeiro ano de existência, em 1985, nasceu a iniciativa bandeira: as Bolsas de Estudo.
Nos 39 anos de bolsas que trouxeram esta instituição até ao seu momento presente, foram entregues mais de 600 mil euros e 954 bolsas, números que a instituição ostenta com orgulho. O objetivo para esta década é ambicioso: atingir a marca simbólica dos mil estudantes apoiados. Ao longo do caminho, o projeto cresceu para outras valências. Atualmente, o trabalho desenvolve-se em dois grandes eixos: o apoio aos jovens (através das bolsas) e o cuidado à população sénior, materializado no Centro de Dia e no Serviço de Apoio Domiciliário (SAD), o “Leões em Casa”.


O desafio de (re)ocupar a casa e sair à rua
Se as bolsas de estudo são a imagem de marca, é no apoio aos idosos que os Leões de Portugal enfrentam, neste momento, o seu maior desafio logístico e humano. A pandemia de Covid-19 deixou marcas profundas no funcionamento do Centro de Dia, localizado no estádio bem por cima das instalações ocupadas pela Clínica da CUF, e a recuperação da plena atividade tem sido lenta. Atualmente, a capacidade para cerca de 30 utentes está longe de ser aproveitada, funcionando muito aquém do desejável.
A resposta encontrada para esta quebra foi a aposta no serviço de apoio domiciliário. O “Leões em Casa” nasceu dessa necessidade premente e tem-se revelado um sucesso. Com quase 30 beneficiários, o serviço leva aos lares da freguesia do Lumiar — uma zona com um índice de envelhecimento de 96,1%, onde 14% dos idosos vivem sozinhos — cuidados personalizados, refeições, companhia e a possibilidade de permanecer no ambiente familiar, evitando o isolamento e o recurso precoce a estruturas residenciais. A procura existe e a equipa sabe que há potencial para crescer.
Mas gerir uma IPSS em 2026 é um exercício de equilíbrio financeiro constante. O financiamento assenta num pilar triplo: as quotizações dos associados, protocolos estabelecidos (como o desejado reforço com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa), donativos avultados (onde se inclui o apoio de figuras como Cristiano Ronaldo, patrono de uma bolsa) e a consignação do IRS. É neste último ponto que a “fatura” aperta. Com o aumento do número de entidades beneficiárias a quem os contribuintes podem consignar o seu IRS, o “bolo” total que chega aos Leões de Portugal tem diminuído, apertando as contas e exigindo criatividade para manter as contas certas.


Um leão com alma verde e… portas abertas
Uma das questões mais delicadas para uma instituição nascida no seio de um clube de futebol é a sua relação com a comunidade não-sportinguista. A lei das IPSS é clara: não pode haver discriminação no acesso às respostas sociais. E os Leões de Portugal cumprem-no rigorosamente. O Centro de Dia e o Apoio Domiciliário estão abertos a toda a comunidade, sem necessidade de cartão de sócio do clube.
A identidade sportinguista é o ADN, a garra e a mística que movem os voluntários e dirigentes, mas a ação é universal. Para ser sócio da instituição, no entanto, a tradição mantém-se: é preciso ser apresentado por dois sportinguistas. É uma forma de preservar a matriz, mas sem fechar a porta a quem queira ajudar, mesmo que o coração bata por outras cores. O esforço da nova direção passa por aumentar a comunicação junto dos núcleos do Sporting e da população local do Lumiar para dar a conhecer o trabalho que ali se faz, desfazendo a ideia de que se trata de um espaço fechado ou clubístico.



O sonho do lar e o congresso da solidariedade
Se os primeiros meses de mandato de Zeferino Boal são de diagnóstico e estabilização, o olhar já se projeta num futuro que se quer de expansão. O grande sonho no horizonte é a criação de um lar para idosos. A direção sabe que se trata de um projeto complexo e de elevado investimento, por isso pondera a possibilidade de o construir fora da área metropolitana de Lisboa, onde os custos com terreno e construção são proibitivos.
Paralelamente, a nova liderança quer afirmar os Leões de Portugal como uma voz ativa no panorama da solidariedade social ligada ao desporto em Portugal. O grande objetivo é organizar, em 2027, um congresso nacional sobre solidariedade social no desporto. A ideia é ambiciosa e ecuménica: sentar à mesma mesa clubes como Sporting, Benfica, FC Porto e outros para debater boas práticas, desafios comuns e formas de cooperação. Seria um passo em frente, permitindo demonstrar que a rivalidade do relvado pode e deve dar lugar à união, nomeadamente quando o assunto é ajudar o próximo.
Antes disso, há um caminho a percorrer. É preciso consolidar parcerias, reverter a apatia de alguns setores, encher novamente o Centro de Dia e garantir que a chama das bolsas de estudo se mantém acesa. Zeferino Boal sabe que as instituições vivem de calor humano. E é esse calor que, nas próximas semanas, promete trazer para a discussão pública. Nós estaremos atentos!









