Na sequência do corte da A1 devido ao rompimento do dique na margem direita do rio Mondego, como o LusoNotícias já aqui deu conta, o piso da A1 ruiu em dois locais, ambos no sentido norte/sul, num colapso parcial que promete manter cortada aquela via durante as próximas semanas, isto depois da inundação pelas águas do Mondego ter já determinado o corte deste autoestrada nos dois sentidos num outro ponto da via por inundação da mesma. Estamos assim perante a interrupção do principal eixo viário do país, nomeadamente para a ligação entre Lisboa e Porto, algo que coloca um problema a quem precisa de fazer a ligação entre as duas principais cidades do país: qual o percurso ideal a tomar? A opção passa pela utilização das autoestrada A8, A17 e A29, uma opção que implica mais quilómetros, consumo de mais combustível e um custo mais elevado sem vantagens face à A1.
A primeira questão que poderá colocar será se compensa, para quem sai de Lisboa com destino ao Porto, optar desde o início pela A8, logo a partir de Loures. A resposta é clara: não, não compensa optar desde o início pela A8 em substituição total da A1. A análise conjugada dos dados disponíveis – distância, custo de portagens, consumo de combustível e condições da via – demonstra que a A8 constitui uma alternativa mais longa, mais cara e, em condições normais, sem qualquer benefício objetivo para o condutor.
Comecemos pelos números objetivos. O percurso Lisboa-Porto pela A1 tem uma extensão de 301,6 km e um custo de portagens de 23,60 euros para um veículo da Classe 1. Pela A8, o trajeto até à sua intersecção com a A1 em Leiria soma 138 km, ao qual é necessário acrescentar o restante percurso até ao Porto via A17 e A29 – um eixo que totaliza 322 km, mais 20,4 km do que a A1. Este acréscimo de distância não é neutro: traduz-se em maior consumo de combustível (estimado em mais 2 a 3 euros por viagem, face aos cerca de 25 euros de gasolina na A1) e num custo de portagens que, sendo próximo, não é inferior. Diversas fontes convergem: o custo de portagens na A8/A17/A29 é “praticamente o mesmo” ou “ela por ela” face à A1. Não há, portanto, qualquer poupança no valor das portagens.
Usar a A8+A17+A29 entre Lisboa e Porto
é mais caro, mais demorado e menos seguro
O argumento do tempo também milita contra a opção pela A8. O trajeto pela A1 demora cerca de 3h27. A alternativa pelo litoral, apesar de alegada menor densidade de tráfego, acresce quilómetros e não oferece ganhos de tempo – antes pelo contrário. Nos fóruns de discussão entre condutores experientes, o consenso é claro: “A1 sempre” e “a A8+A17+A29 não compensa, nem em portagens, nem em euros gastos em combustível”.

Acresce um fator frequentemente ignorado: as condições intrínsecas da A8. Ao contrário da A1, cujo traçado é predominantemente plano, retilíneo e com três vias em grande extensão, a A8 apresenta um perfil sinuoso, com curvas apertadas, inclinações acentuadas e um historial documentado de problemas de segurança. Um estudo do Observatório de Segurança de Estradas e Cidades (OSEC) classifica-a como “estando entre as mais perigosas do país”, identificando múltiplos pontos de risco de hidroplanagem, violação dos raios mínimos de curvatura e distâncias de visibilidade insuficientes. O próprio presidente do Automóvel Clube de Portugal, Carlos Barbosa, embora admita utilizá-la como alternativa, reconhece que “há sítios onde para se fazer a 120 é preciso ter-se cuidado” e que o traçado inicial, “feito à pressa”, não reúne as condições de segurança desejáveis.
Mesmo a análise custo-benefício para deslocações curtas no Oeste mostra que a A8 nem sempre é a opção mais racional. Um trajeto Alcobaça-Lisboa pela A8 é mais rápido, mas fica cinco euros mais caro do que a alternativa pela A1/IC2, que demora apenas mais 15 minutos. Este padrão repete-se para outras localidades: a A8 é mais cara de modo consistente para quem pode escolher uma alternativa, ainda que mais demorada. Ora, se para um percurso de 100 km já não compensa, para um percurso de 322 km a conclusão é inevitável.
A exceção – e é importante sublinhá-la – reside na situação de contingência. Com a A1 cortada entre Coimbra Norte e Coimbra Sul pelo abatimento do piso, devido à rutura do dique no Mondego, a A8/A17/A29 deixou de ser uma alternativa para passar a ser a única via possível para garantir a ligação Lisboa-Porto. Nesse cenário de força maior, a questão não é se compensa, mas sim se existe alternativa. E existe, ainda que mais longa, mais cara e de traçado ainda mais exigente.
Saiba por onde ir de Lisboa ao Porto
para “fugir” à inundação do Mondego
Em termos práticos, devendo qualquer ligação entre Lisboa e Porto começar por ser feita pela A1, será importante conhecer os desvios a que qualquer condutor estará obrigado em face do corte deste autoestrada entre Coimbra Norte e Coimbra Sul (km 189-198). As aplicações de navegação GPS estão já a sugerir um percurso alternativo que utiliza a A8 para contornar a zona crítica das cheias do Mondego, sabendo-se que, apesar de a Proteção Civil ter confirmado a existência de “um desvio de trânsito” no terreno, não foi apresentado qualquer itinerário oficial para a ligação entre Lisboa e Porto, criando um vazio informativo que está a ser colmatado pelos sistemas de navegação digital.
O itinerário recomendado pelos GPS consiste em abandonar a A1 em Leiria ou em Fátima, consoante a origem do tráfego, seguindo pela A8 em direção a sul para depois contornar a área interdita. Para quem circula de sul para norte, o percurso sugerido é: sair da A1 no nó de Leiria (ou alternativa pelo nó de Fátima), tomar a A8 em direção a sul até ao nó de Cambelas, onde se faz a ligação à A15, seguindo depois para o IC2 ou regressando à A17 (Autoestrada do Litoral Centro) para recuperar o eixo norte em direção a Aveiro e Porto. No sentido inverso, o desvio processa-se de forma simétrica, utilizando os mesmos nós de ligação, “descendo” a partir do Porto até ao nó de Albergaria, rumando depois a Aveiro para seguir pela A25/A17/A8.
Esta opção, que no sentido sul/norte adiciona aproximadamente nove quilómetros ao percurso total (313km pela A1 contra 322km pela A8/A17), representa uma alternativa com custos de portagem equivalentes e idênticas condições de qualidade rodoviária. Trata-se, na prática, de um regresso ao traçado tradicional do litoral que antecede a consolidação da A1 como eixo principal, evitando completamente a bacia do Mondego e o perímetro de segurança estabelecido em redor do dique rompido.

Autarquias fornecem as melhor opções
nas deslocações locais no vale do Mondego
É importante notar que a alternativa circular aqui sugerida, embora funcional para o tráfego de longa distância, não resolve os problemas de mobilidade local nas zonas ribeirinhas de Montemor-o-Velho, Soure e Coimbra, onde os cortes de estradas secundárias se multiplicaram e onde as populações continuam a recorrer a percursos organizados pelas autarquias. Para estas deslocações de proximidade, a A8 constitui uma solução excessivamente periférica e onerosa, permanecendo válidas as alternativas locais, ainda que estas devem ser feitas com as devidas precauções e sempre de acordo com as indicações das autoridades presentes no terreno.
A ausência de comunicação oficial sobre este desvio – que as aplicações GPS já massificaram – revela uma preocupante assimetria entre a capacidade de resposta tecnológica e a lentidão institucional na gestão de uma crise que mantém cortada a principal artéria rodoviária do país. Enquanto o Governo admite novas ruturas e mantém o dispositivo de vigilância, são os algoritmos de navegação a garantir, ainda que informalmente, a mobilidade entre Lisboa e Porto.
Em suma, para quem sai de Lisboa em condições normais de circulação na A1, optar deliberadamente pela A8 é uma decisão que penaliza a carteira, alonga a viagem e submete o condutor a um traçado rodoviário objetivamente menos seguro. A A8 cumpre a sua função de servir a região Oeste e de constituir uma redundância útil na rede viária nacional, mas não é, em circunstância alguma, a melhor escolha para quem quer ir de Lisboa ao Porto. Ainda assim, e perante o corte da A1, torna-se válido o adágio popular segundo o qual “quem não tem cão caça com gato”.









