O Estádio da Luz acordou este domingo para mais do que um jogo de futebol. Num dia em que se assinalou com um comovente minuto de aplausos o aniversário da morte de Miklos Fehér, e em que Eusébio da Silva Ferreira completaria 84 anos de vida, a história que se escreveu no relvado foi de pura afirmação do futuro. O Benfica venceu o Estrela da Amadora por 4-0, num resultado redondo da 19.ª jornada que, no entanto, diz menos sobre o marcador e mais sobre o caminho traçado por José Mourinho.
O técnico dos encarnados, fiel ao seu espírito pragmático e ao seu compromisso com a formação, apresentou uma equipa com uma surpresa de peso: a estreia a titular de Benjaqui, um lateral-esquerdo de apenas 17 anos já Campeão do Mundo no seu escalão.









Com a bola em jogo, o árbitro David Silva forneceu o primeiro flashpoint do jogo, ao deixar por exibir um cartão amarelo claro a um jogador do Estrela aos 5 minutos, num lance em que ficou clara a pouca definição que este juíz da partida viria a demonstrar durante o jogo.
A primeira parte foi “mastigada”, com o Estrela a mostrar-se bem organizado, frente a um Benfica que procurou espaços sem a acuidade habitual. Foi assim preciso esperar quase até ao final do primeiro tempo para, ao minuto 43′, surgir o desbloqueio da partida, com um golo pelo suspeito do costume. Vangelis Pavlidis, é dele que falamos, na resposta a um pontapé de canto batido por Sidny Cabral a partir do lado direito do ataque encarnado, cabeceou a preceito para o 1-0 com que se chegaria ao intervalo.









Sidny Cabral mostra caminho para goleada
Se o primeiro tempo permitiu abrir a contagem, o segundo tempo trouxe a avalanche, e novamente com Sidny Cabral como arquiteto. Aos 54 minutos, o jovem extremo, uma dor de cabeça constante para a defesa tricolor, foi brutalmente pisado por Ancada dentro da área.
Penalidade clara assinalada pelo árbitro David Silva e Pavlidis, depois de ter falhado um castigo máximo frente à Juventus, pegou na bola com a frieza de um killer e não falhou. O remate, forte e a meia-altura, levou a direção de Renan, que acertou no lado para o qual voou, mas acabou ainda assim no fundo das redes, tal foi a força e a precisão do pontapé do avançado grego. Estava feito o 2-0, permitindo a Pavlidis assumir, sozinho, a liderança da tabela de goleadores do campeonato.










Apesar dos dois golos de Pavlidis, a noite era mesmo de Sidny e aos 62 minutos, após um mau atraso de um homem do Estrela da Amadora, recebeu a bola isolado em frente a Renan e não hesitou: partiu para cima do guarda-redes tricolor e, à entrada da área, rematou cruzado para assinar o terceiro golo da partida.
O celebrar contido, por respeito ao clube formador, Estrela da Amadora, dizia mais sobre o seu carácter do que qualquer festejo extravagante para o qual até tinha motivos. Afinal, em três golos, Sidny esteve presente em todos: assistência, penalidade sofrida e golo. Uma exibição completa que lhe valeu no final, e bem, o título de homem-do-jogo.








O regresso de Rafa e a estreia de Anísio Cabral
Foi então que a Luz recebeu o regresso há muito aguardado. Aos 72 minutos, entrou Rafa Silva. A camisola 27 foi recebida com alguns assobios mas com uma onde bem maior de aplausos, um abraço coletivo das bancadas da Luz a um jogador que regressa a casa.
A sua entrada simbolizou um reencontro com o passado, mas os minutos finais da partida viriam a pertence ao futuro mais puro que ofuscou tudo o resto.











Mourinho, ao minuto 82′, com o jogo resolvido, fez a aposta mais ousada: lançou Anísio Cabral, outro talento sub-17 também ele Campeão do Mundo, e o miúdo escreveu um conto de fadas em dois minutos. Aos 84′, Benjaqui, o lateral titular que justificou em absoluto a confiança do treinador com uma exibição sólida e ofensiva, cruzou da esquerda para dentro da área, e encontrou na área Anísio Cabral, o jovem avançado que apareceu com a intuição de uma velha raposa e cabeceou sem piedade.
Estava feito o 4-0, assinado por dois jogadores sub-17 — Benjaqui e Anísio —, a combinarem para um golo que não foi só um número: foi um manifesto.












Perante 54.548 espectadores, o apito final escutado após um deficitário minuto de compensação (só as substituições realizadas ao longo do segundo tempo deveriam ter permitido mais tempo dado pelo árbitro), confirmou uma goleada que serve a lógica da tabela. Mas o que realmente fica desta noite na Luz é a imagem de um treinador a cumprir a palavra, a confiar nos miúdos e a ser recompensado.
Pavlidis é o marcador do presente, Rafa é o regresso emotivo, mas Sydni Cabral, Benjaqui e Anísio Cabral são a prova viva de que, sob o comando de Mourinho, o recurso à formação do Seixal não só está disponível como é o caminho mais rápido para brilhar no maior palco. O futuro, nesta noite, jogou – e marcou – na equipa principal dos encarnados.















