O Estádio da Luz, com quase todos os 49.311 adeptos que estiveram nas bancadas na noite deste domingo, excepção feita a duas ou três centenas de apoiantes do Alverca ali presentes, viu-se refém do tempo que, por muito pouco, ficou à beira de levar o jogo até ao final com mais um dos empates desastrosos consentidos pelo Benfica na presente época. Valeu aos encarnados a determinação de um miúdo de 17 anos, o avançado Anísio, ele que aos 86 minutos, com menos de um minuto em campo, desfez a igualdade até então registada com o golo que colocou o Benfica em vantagem, o 2-1 com que terminou o jogo entre Benfica e Alverca e que permitu aos encarnados vencer este complicado jogo perante a turma ribatejana.
Com o clássico entre FC Porto e Sporting à espreita para esta segunda-feira, o empate ameaçava transformar-se em muito mais do que um simples deslize, resultando em tragédia para o Benfica. José Mourinho, o treinador da turma benfiquista, tinha dito antes do jogo que o único resultado permitido para a sua equipa era a vitória pelo que qualquer outro desfecho do jogo seria desastroso. Valeu ao Benfica a entrada do jovem Anísio Cabral que, recém-entrado, surgiu como um santo de última hora, resolvendo o problema à cabeçada e garantindo os três pontos numa vitória por 2-1 sobre o Alverca.










Uma primeira parte
de equilíbrio e discórdia
O Benfica começou a ditar o ritmo do jogo e foi recompensado aos 16 minutos, com Andreas Schjelderup a abrir o marcador. A equipa de José Mourinho apresentou novidades táticas: Rafa Silva no “10”, relegando Georgiy Sudakov para o banco, e Sidny Lopes Cabral a substituir o lesionado Mihailo Dedic no flanco direito.
O domínio encarnado, no entanto, esmoreceu rapidamente. Aos 30 minutos, numa jogada em que a defesa “ficou completamente a dormir”, Figueiredo apareceu entre Samuel Dahl e Nicolás Otamendi para, de cabeça, empatar o jogo para o Alverca. A igualdade no intervalo foi um reflexo justo do que se viu em campo, apesar do claro desperdício de uma oportunidade escandalosa por parte dos visitantes.
Ainda assim, o Benfica teve oportunidades para sair a vencer para o intervalo, isto porque ainda no primeiro tempo ficou por assinalar uma grande penalidade cometida sobre Schjelderup. Ao minuto 33, Bruno Costa, o árbitro da partida, ignorou um empurrão claro sobre o extremo do Benfica, uma decisão que o VAR entendeu por bem manter quando ficou claro que o jogador encarnado foi empurrado pelo defesa do Alverca. O lance lançou a primeira semente de indignação que cresceria ao longo da noite.









A segunda parte: nervos,
anulação e milagre tardio
Após o intervalo, o Benfica avançou para o segundo tempo determinado a retomar o comando. Aos 60 minutos, Pavlidis parecia ter feito o 2-1, ao finalizar de peito um cruzamento de Schjelderup. Só que a festa dos encarnados foi de curta duração, isto porque, após análise no VAR, Bruno Costa anulou o golo por um toque com a mão, ligeiro mas existente, por parte do ponta-de-lança grego, que terá assim controlado a bola antes de a empurrar com o peito para a baliza de Mateus Mendes.
Se o ambiente era já de alguma expectativa entre os adeptos do Benfica, o nervosismo evidente instalou em definitivo. O Alverca, bem montado por Custódio Castro, defendia-se com organização e perigo no contra-ataque, tendo na retaguarda o guardião Mateus Mendes que, gigante, foi negando as incursões dos encarnados, nomeadamente uma finalização certeira de Prestiani aos 75 minutos.
No banco, José Mourinho agitava-se. A sua equipa, apesar da posse de bola e do pendor ofensivo constante, mostrava-se “agitada, mas paralisada nas decisões”. A tensão aumentou com dois lances polémicos idênticos ao primeiro: uma carga sobre Rafa Silva e outra sobre Leandro Barreiro dentro da área do Alverca. O árbitro deixou seguir, mas a verdade é que, no lance de Rafa Silva, ficou mesmo um castigo máximo por assinalar, isto porque o jogador benfiquista foi agarrado quando tentou tirar a bola do alcance do jogador da turma ribatejana, acabando no relvado num lance em que competia ao VAR dar conta da forma incorreta como a defesa do Alverca travou o camisola 27 da equipa da casa.









Curiosamente, o Benfica, indignado, viria a afirmar já depois da partida, nas redes sociais, que ficaram “três penáltis por marcar”, referindo-se aos lances com Schjelderup e Rafa Silva, mas também ao lance com Leandro Barreiro, em que houve efetivamente uma falta cometida sobre o médio encarnado sobre a linha limite da grande-área da formação ribatejana. Contudo, neste lance, ficou quanto a nós uma falta por assinalar sim, mas um pontapé livre direto por certo perigoso para a baliza do Alverca, isto porque seria assinalada bem perto, porventura a menos de um metro, da área de baliza do conjunto visitante. Porque a falta foi cometida fora da área o VAR não teve qualquer intervenção neste lance, acabando o árbitro Bruno Costa, de forma errada, por não assinalar qualquer falta.
Com este cenário, o desespero ameaçava materializar-se. Mourinho mexeu na equipa, fazendo entrar Bruma e Anísio Cabral, por troca com Schjelderup e Prestiani, aos 85 minutos, e. um minuto depois as substituições surtiram efeito. O jovem avançado do Benfica, campeão do Mundo de sub-17, com menos de um minuto dentro das quatro linhas, cabeceou com mestria um cruzamento da esquerda de Samuel Dahl, desbloqueando o jogo. O estádio explodiu em alívio e euforia, Mourinho voltou a mexer na equipa reforçando logo a defesa, apostando agora em António Silva e Barrenechea para os lugares de Rafa Silva e Pavlidis, o árbitro deu seis minutos de compensação na partida, e tudo isto quando a Luz já tinha eleito o seu herói – Anísio Cabral –, o ponta-de-lança que marcou de cabeça, curiosamente naquela que, segundo José Mourinho, para um jogador que comparou com Drogba, é a sua pior característica: o jogo de cabeça. Se esta é a pior característica e já marcou dois golos de grande qualidade, o que fará quando puder evidenciar as melhores qualidades?










Análise e consequências: três pontos
carregados de alívio e polémica
Certo é que o golo de Anísio acabaria por permitir a vitória ao Benfica, um resultado que deixa os encarnados em terceiro lugar, mas com a missão cumprida de manter a pressão antes do clássico entre os rivais diretos. Mais do que uma exibição convincente, que não se poderá dizer que o foi, acabou por ser, isso sim, um triunfo de resiliência. A arbitragem de Bruno Costa acabou por ser um ponto negativo da noite, com duas grandes penalidades por assinalar, e isto num jogo em que, há que destacar, ficou claro que o Benfica continua com enormes dificuldades perante equipas que joguem com bons blocos defensivos como foi o caso deste Alverca.
Será importante dar conta que o Alverca de Custódio Castro deixou o Estádio da Luz, depois deste embate com o Benfica, de cabeça erguida. O treinador admitiu que o objetivo era explorar a pressão psicológica sobre os encarnados, sabendo que “por causa do clássico, o Benfica não queria perder pontos”, e sem dúvida que cumpriu aquele objectivo com mérito, ficando à beira de ter garantido um resultado ainda melhor.









No fim dos 90 minutos (mais o tempo de compensação dado por Bruno Costa) a Luz celebrou a conquista dos três pontos e, tão importante quanto isso, o golo de Anísio Cabral, sem dúvida um golpe de catarse, o alívio de uma noite de frustração e a demonstração de que, por vezes, a redenção chega no último minuto, vinda da cabeça de um herói improvisado que segundo aquele que o treina nem joga bem de cabeça. O campeonato continua aceso, e o Benfica, apesar de tudo, mantém-se na luta.









