O rio Mondego voltou a dar o ar da sua fúria. Ao final da tarde desta quarta-feira, 11 de Março, um dique na margem direita do canal principal do Mondego cedeu junto ao viaduto da Autoestrada 1, na localidade de Casais, em Coimbra. Foi precisamente às 17h45 que o dique rebentou, provocando uma subida instantânea e violenta do caudal do rio e agravando de forma dramática as cheias que já assolavam as margens do Mondego.
A rutura, testemunhada por empresários agrícolas que vistoriavam o local, ocorreu numa zona crítica — junto ao quilómetro 191 da A1 — e teve um impacto imediato na principal via do país. A Brisa confirmou o corte total da autoestrada entre os nós de Coimbra Norte e Coimbra Sul (km 198 e 189), em ambos os sentidos, uma interrupção que deixa o país cortado a meio com uma interrupção daquela via que deverá manter-se por horas de difícil previsão.
As consequências não se ficam pela estrada. A água que agora escapa sem controlo do canal principal está a inundar os campos do bloco de rega de São Martinho do Bispo e ameaça avançar sobre Montemor-o-Velho, Casal Novo do Rio e Ereira — esta última já isolada há uma semana. O cenário é de alerta máximo: há o risco iminente de um novo rebentamento ainda na margem direita, junto ao Centro Hípico de Coimbra, e a possibilidade de a água romper o dique esquerdo do leito periférico direito, o que colocaria em perigo direto o município de Montemor-o-Velho, repetindo o pesadelo de 2019.

Governo e poder local estão no terreno
As autoridades já estão no terreno, mas a verdade é que a preparação para este momento já vinha de trás. Na véspera, a Câmara de Coimbra tinha ordenado a retirada preventiva de cerca de três mil pessoas das zonas ribeirinhas de Torres do Mondego, Ceira, São Martinho do Bispo, Taveiro, Ameal e Arzila. Escolas foram encerradas e três lares de idosos evacuados. O que agora se vive é a confirmação do pior cenário para o qual os autarcas e a Agência Portuguesa do Ambiente já tinham alertado.
Numa conferência de imprensa realizada já após a rutura, o primeiro-ministro Luís Montenegro — que acumula transitoriamente a pasta da Administração Interna depois da demissão da ministra Maria Lúcia Amaral — dirigiu-se ao país ladeado pelo dispositivo de proteção civil. Montenegro foi claro: “Sabíamos que estávamos no limiar da capacidade de escoamento do caudal do rio Mondego e que esta situação podia ocorrer”. O chefe de Governo alertou para a “possibilidade de outras ruturas acontecerem nas próximas horas” e pediu uma “vigilância total e absoluta”, sublinhando que o processo de escoamento das águas será lento e que a precipitação pode voltar a intensificar-se na noite de quinta para sexta-feira.

Na mesma ocasião, o Governo anunciou já estar a processar os primeiros pagamentos de apoios e comprometeu-se a rever a obra hidrográfica do Mondego, um sistema envelhecido que, nas palavras do próprio primeiro-ministro, “precisa de ser atualizado”.
Na conferência de imprensa marcada para dar conta da gravidade da situação marcaram presença o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o Primeiro-Ministro Luís Montenegro, num sinal de união institucional perante a catástrofe que se abate sobre a região Centro. Esteve ainda presente Ana Abrunhosa, a presidente da Câmara Municipal de Coimbra, que deu conta do que está a ser feito pelo poder local junto das populações diretamente afetadas.
Próximas horas são críticas
As expectativas para as próximas horas são tudo menos tranquilas. O caudal continua no limite, a terra encharcada não aguenta mais pressão e a noite que se avizinha será longa para os agentes de proteção civil, que mantêm a monitorização constante ao longo de todo o vale do Mondego. As autoridades não afastam a hipótese de novas ruturas e o apelo é claro: mantenham-se afastados das zonas de risco e sigam rigorosamente as indicações das forças de segurança.

É precisamente neste ponto que importa deixar um aviso sério à população. Já há relatos de condutores que pararam as viaturas em plena Autoestrada 1 — uma via cortada, mas ainda assim um espaço de emergência — para observar o caudal e registar imagens da rutura do dique. Trata-se de uma atitude de irresponsabilidade extrema. Parar numa autoestrada, ainda que esta esteja interdita ao trânsito, coloca em risco a vida de quem o faz e de todos os que ali circulam, incluindo as equipas de socorro, e porque nenhuma imagem vale uma vida, as autoridades pedem que todos os cidadãos evitem deslocações desnecessárias e que, acima de tudo, não se coloquem em perigo por curiosidade.
A noite de hoje é de apreensão. O Mondego continua a subir e o país acompanha, minuto a minuto, a luta de Coimbra e do Baixo Mondego contra a fúria das águas.









