Em menos de uma semana, Portugal prepara-se para dobrar a esquina de um temporal e encontrar outro, mais intenso, à sua espera. Ainda mal respiramos do caos deixado pela depressão Kristin – a mais forte desde que há registo, com o seu rasto de seis vítimas mortais diretas e mais quatro posteriormente entre as populações afectadas, para além de prejuízos sem paralelo – e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) já anuncia a chegada iminente da depressão Leonardo para a qual foram emitidos alertas laranjas.
Se a tempestade Kristin foi um soco que deixou o país prostrado com ferimentos severos, em particular na região Centro de Portugal, a Leonardo promete ser um combate prolongado: um cerco de chuva, vento e mar feroz que se estenderá desde esta terça-feira, 3 de Fevereiro, até ao dia 7, atingindo todo o território continental e os arquipélagos.
A ameaça começa a materializar-se ao final da tarde desta terça-feira no Algarve e Baixo Alentejo, com chuva persistente e ventos que poderão atingir 95 km/h nas terras altas. Mas o verdadeiro núcleo da tempestade está marcado para a noite de quarta para quinta-feira, 4 para 5 de Fevereiro, quando a precipitação e a força do vento atingirão o seu auge. Os números são brutais: nas regiões montanhosas do Norte e Centro, espera-se que chova o equivalente a três dias de inverno em apenas 24 horas, com acumulados que podem chegar aos 150-250 litros por metro quadrado até sábado. Já a queda de neve descerá para os 1200-1400 metros, e o mar erguer-se-á com ondas de até aos seis metros de altura (11 metros máximos) na costa ocidental.
Para os Açores, o IPMA emitiu o aviso mais grave – o vermelho – devido à agitação marítima, com previsão de ondas até 10 metros no Grupo Ocidental, enquanto que, na Madeira, os ventos poderão rondar os 95 km/h nas zonas altas a partir de quinta-feira.
Este novo embate meteorológico encontra um país inundado, com os terrenos saturados de água e sofrimento, um país ferido e exausto. O solo, sobretudo no Centro, está completamente encharcado após a sucessão de tempestades, perdendo a capacidade de absorver água e aumentando exponencialmente o risco de cheias rápidas e deslizamentos de terras, encontrando-se por isso as infraestruturas debilitadas.
A passagem da depressão Kristin obrigou à mobilização de mais de 18.000 operacionais para responder a mais de 5.400 ocorrências, na sua maioria quedas de árvores e estruturas. O ministro da Economia já admitiu que os prejuízos materiais são “bastante acima” dos grandes incêndios dos anos anteriores, com fábricas destruídas e cadeias de produção interrompidas. Agora, tudo o que ficou precário – telhados, árvores, barreiras, redes elétricas – será submetido a um teste de resistência ainda mais longo.
A tempestade Leonardo que chega esta terça-feira, mas terá o seu ponto mais intenso na noite de quarta para quinta-feira, não traz apenas mau tempo, trazendo também às populações a memória recente da tragédia. E chega num momento em que a palavra “resiliência”, tantas vezes invocada, é posta à prova no seu sentido mais cru. O país, que ainda conta os seus mortos e avalia os estragos de um fenómeno histórico, vê-se obrigado a levantar os escudos outra vez, sabendo que o terreno de jogo é agora mais perigoso e imprevisível. A crónica dos próximos dias escrever-se-á entre avisos laranja e vermelhos, entre a coragem dos operacionais no terreno e a prudência de quem deve ficar em casa, perante mais um assalto de um combate contra os elementos da natureza para o qual ninguém teve tempo de treinar nem tão pouco recuperar forças.









