O Estádio da Luz, na noite de quarta-feira, não foi apenas palco de futebol. Foi teatro puro, dirigido por um maestro que, mesmo sob o risco de ser chamado de excêntrico, confiou no guião mais improvável. A surpresa, preparada por José Mourinho, para uns hoje e sempre um génio enquanto que para outros é tido como ultrapassado, chegou antes do apito inicial: nas bancadas, o nome de Pavlidis ecoava como certeza absoluta; no relvado, Franjo Ivanovic, um jogador visto como um suplente pouco convincente, surgia como ponta de lança titular.
A explicação, dada depois pelo treinador, era um tratado tático: contra um Nápoles compacto que defendia “ao homem”, era preciso um jogador que atacasse a profundidade e descompactasse linhas, não um avançado convencional como Pavlidis. Atrás, no eixo da defesa, Tomás Araújo substituía António Silva, pela velocidade que era necessária para travar Hojlund. Tudo pensado, até ao último detalhe.
Nos primeiros minutos, porém, o plano pareceu frágil, principalmente porque Ivanovic parecia destinado a cumprir as expectativas (nulas ou quase) na finalização. Aos 11′ minutos, um toque de calcanhar magistral de Aursnes isolou Ivanovic frente ao guarda-redes Milinkovic-Savic. O croata, fora do seu habitat natural, falhou o duelo.









Pouco depois, novo falhanço de Ivanovic, com a bola a sobrar para Aursnes que, com um remate ao segundo poste, atirou a bola ao lado da baliza. A Luz conteve a respiração, receando mais um capítulo de desperdício e frustração, num ciclo que parecia repetir-se. A pressão acumulada de uma campanha europeia sofrida – com o Benfica a chegar a esta ronda como 30.º classificado, com apenas 3 pontos – pairava no ar.
Richard Ríos abriu o livro do conhecimento
Mas eis que aos 20 minutos a teimosia deu frutos. Samuel Dahl cruzou da esquerda, a bola ressaltou na área após um desvio, e lá estava Richard Ríos, o colombiano, a aparecer como um farol no caos. Com um toque subtil, quase despretensioso, enganou Milinkovic-Savic e fez a rede estremecer. Foi o seu primeiro golo na competição e, mais do que o 1-0, foi a materialização de uma confiança que se impunha.
O Nápoles, campeão italiano privado de De Bruyne e Lukaku, reagiu com pouca convicção e o brasileiro David Neres, em regresso emocionado à Luz onde vestiu de águia ao peito, era a sua única centelha, frente a uma defesa encarnada em que pontificavam Otamendi imponente e Araújo seguro, mantendo esta dupla tudo sob controlo. O jogo foi para o intervalo com o Benfica a vencer pela diferença mínima, mas com uma estranha confiança a pairar sobre a Luz, onde os adeptos gostavam do que viam nos pupilos de Mourinho.









Com o arranque do segundo tempo regressou o bom futebol do Benfica e, mais importante e em consequência disso mesmo, o segundo golo da formação benfiquista. E se o primeiro golo trouxe alívio, o segundo, logo aos 49′ da segunda parte, trouxe arte e redenção. Numa transição rápida, Ivanovic, o herói improvável da estratégia, serviu Ríos pela direita.
O colombiano, agora dono do jogo, cruzou rasteiro para a pequena área onde, com um gesto de pura inspiração, apareceu Leandro Barreiro a desviar de calcanhar, com uma classe que deixou a quase totalidade dos 54.353 adeptos presentes nas bancadas em êxtase, excepção feita aos cerca de três mil ‘tifosi’ napolitanos presentes no topo norte do Estádio da Luz. Foi um momento de pura beleza futebolística, o cume de uma noite que já era especial. O 2-0 acabava de ser conseguido com a tão famosa “nota artística”, aliada ao que o treinador dos encarnados preferiu apelidar de eficácia.









Freitas e Neto com noite para jamais esquecer
O resto da partida foi uma demonstração de maturidade tática, algo que José Mourinho tanto preza. O Benfica soube “baixar linhas, pressionar alto e defender com uma linha de cinco”, tendo Mourinho apostado em António Silva para se juntar a Otamendi e Tomás Araújo. Trubin, sereno, só foi seriamente testado num remate forte de Neres, que desviou por cima da barra, e a turma Nápoles às ordens de Antonio Conte, mesmo com as entradas de Politano e Spinazzola, não encontrou respostas. E nos minutos finais, a noite ganhou contornos de conto de fadas: Mourinho lançou Tiago Freitas (19 anos) e José Neto (17 anos), dois talentos formados no Seixal, que estrearam-se assim pela equipa principal na Champions em pleno Estádio da Luz. Foi o epílogo perfeito.
No final, o apito confirmou uma vitória justa e inequívoca por 2-0, num jogo que permitiu, sem dúvida, a melhor exibição do Benfica desde a chegada de Mourinho à Luz para ocupar o lugar de Bruno Lage, mas também antes disso, tendo os encarnados conseguido encontrar dentro do seu conjunto a arte e o engenho que ainda não haviam demonstrado. Nas palavras do treinador, a equipa “começa a ter cultura tática e começa a ser equipa”, mesmo estando “longe” do seu ideal.






Richard Ríos, eleito o melhor em campo, porque o foi efectivamente, com um golo, uma assistência e uma exibição cerebral que lhe permitiu dominar em todo o campo, foi a ponte entre a tenacidade e a genialidade.
Leandro Barreiro está hoje cada vez mais perto do cisne depois de ter sido um mero patinho feio, Aursnes continua a estar em todo o lado, quando e onde é preciso, e Enzo, sempre a aparecer de frente para o jogo, revelou-se uma pedra fulcral no meio-campo dos encarnados.








Com tudo isto, quanto à presente edição da Liga dos Campeões, o Benfica, que há duas semanas parecia “morto” na competição, está agora vivo, subiu ao 25.º lugar e mantém-se na luta pelo play-off, com as tais possibilidades matemáticas que dão ânimo e confiança ao grupo de trabalho às ordens de Mourinho. Nesta noite, mais do que vencer, o Benfica reencontrou-se. E com José Mourinho, finalmente, fez-se Luz.









