A polícia entrou de madrugada nas praças do Rossio e D. João I, em Lisboa e no Porto. Houve dezenas de detenções, tendas apreendidas e inúmeros feridos mais ou menos ligeiros. Mas o que verdadeiramente pesa nestes episódios não é o que se viu depois das duas e meia da manhã no horário de inverno — é o que não se ouviu antes e continuou a não se fazer ouvir depois.
Condenar a violência é fácil quando ela acontece longe de nós. Mais difícil é reconhecer que a violência não começa com um bastão erguido. Começa quando milhares de pessoas percebem que trabalham, cumprem e ainda assim não conseguem pagar uma casa nas cidades onde vivem. Começa quando o problema é reconhecido por todos — Governo, oposição, OCDE, qualquer relatório que se consulte — e a resposta continua a ser uma lei do arrendamento aqui, um consenso alargado acolá, enquanto as rendas sobem e os salários não. Começa quando as rendas sobem em cidades sobrelotadas que continuam a receber mais e mais habitantes vindos sabe-se lá de onde.
O que se passou esta madrugada foi, segundo a PSP, uma operação para “repor a legalidade” na ocupação do espaço público. A polícia diz que houve diálogo prévio, que a força foi “limitada ao mínimo necessário” e que os manifestantes em Lisboa e no Porto ofereceram “resistência ativa”. Do lado dos acampados, a versão é outra: pessoas retiradas enquanto protestavam pacificamente, marcando uma posição, um cordão humano empurrado, detenções que consideram arbitrárias. Não cabe a quem escreve uma crónica de opinião decidir qual relato é o verdadeiro, mas cabe, isso sim, notar uma coisa: quando a única resposta visível para um problema social profundo é uma operação policial às três da manhã, alguma coisa falhou antes. Diria mesmo que muita coisa falhou antes… e continua a falhar!
E falha sobretudo no silêncio. Colocando de lado as palavras completamente irresponsáveis e criticáveis do presidente do IHRU, que ele próprio achou por bem depois retratar-se e pedir desculpa, outros governantes têm assumido posições no mínimo criticáveis… e condenáveis. O ministro da Administração Interna veio enaltecer o “profissionalismo” da PSP. O primeiro-ministro, dias antes, tinha avisado contra a tentação de “importar para Portugal climas de instabilidade”. O presidente da Câmara do Porto disse que não contribuía para “circos mediáticos”. Mas ninguém, absolutamente ninguém, apareceu para dizer, com clareza, o que se pretende fazer para que aquelas pessoas não precisem de montar tendas numa qualquer praça de uma qualquer cidade deste país para serem ouvidas. A decisão das cargas ficou, na prática, entregue à polícia, e a polícia ficou sozinha a explicá-la. Isso não é liderança. É alívio de responsabilidades.


Portugal não tem, felizmente, uma tradição de confrontos violentos nas ruas como outros países europeus. Mas essa tradição não é um dado adquirido. Constrói-se com confiança nas instituições e com a certeza de que o direito à manifestação não é uma concessão graciosa que se retira quando incomoda. Se o Estado só responde com força àquilo que devia resolver com política, então está a criar as condições para que a força se torne, um dia, a linguagem de ambos os lados.
A habitação não é um tema abstrato. É a mãe que faz duas horas de viagem por não conseguir viver perto do trabalho. É o jovem que adia sair de casa dos pais. É o idoso que vê a renda subir sem que ninguém lhe explique porquê. E a culpa de tudo isto é dos vários quadrantes políticos, dos que estão no poder e se escondem dentro dos gabinetes, e dos que já estiveram e que agora acusam com uma enorme cara de pau porqe esquecem os erros feitos anteriormente.
O jovem que quer uma casa e não tem, o idoso cuja reforma não dá para pagar a renda da sua casa e o jovem casal que continua a viver com os pais porque não tem dinheiro para uma casa própria, todos estes exigem uma resposta. Mas enquanto quem governa continuar a tratar este problema como matéria de gestão corrente e as cargas policiais como assunto da PSP, o país vai continuar a acordar com tendas nas praças. E a única coisa que se pode garantir é que, na próxima madrugada, ninguém do Governo estará lá para explicar porquê.

Jorge Reis – jornalista desde 1988, numa carreira iniciada aos 22 anos na Agência Lusa depois de uma primeira aventura no mundo da rádio quando descobriu a magia da comunicação, então na Rádio Mais, passou por diversos jornais desde o Correio da Manhã, a revista Golo, ainda O Jogo, 24horas e Diário de Notícias. Avançou para a informação online com a LusoSaber que fundou, dirige, e onde está até hoje desde 2000, com os títulos LusoMotores e LusoNotícias a seu cargo. Acredita que é possível navegar contra a maré negativa que atravessa o jornalismo e insiste em querer ser livre e caminhar nas ruas enquanto português e cidadão do Mundo, sempre de cabeça levantada.









