O cessar-fogo de duas semanas entre os Estados Unidos e o Irão anunciado esta terça-feira, e que ainda não garantiu totalmente a paragem do conflito no Médio Oriente, não deverá ser suficiente para repor as operações de transporte marítimo de contentores no Estreito de Ormuz nas condições anteriores ao conflito, prevendo-se que a disrupção nas cadeias de abastecimento e o aumento das taxas de frete se mantenham.
De acordo com analistas da plataforma Xeneta, especializada em inteligência de mercados de transporte marítimo e aéreo, os armadores deverão adotar uma abordagem cautelosa face à trégua. As rotas alternativas para a região do Golfo, nomeadamente as pontes terrestres a partir de Khor Fakkan, Sohar e Jeddah, vão manter-se ativas, enquanto as transportadoras realizam, em simultâneo, viagens-teste individuais através do Estreito de Ormuz.
Peter Sand, analista-chefe da Xeneta, sublinha que o cessar-fogo deve ser encarado com realismo, pois dificilmente haverá um regresso rápido à normalidade no transporte de contentores no Médio Oriente. Apesar de ser expectável um aumento das travessias no estreito, a forma como essa transição será gerida permanece incerta, dado que duas semanas são um período muito curto e não há garantias de que a trégua se mantenha.
O conflito já deslocou uma capacidade semanal de 250 mil TEU (unidade equivalente a contentor de vinte pés) no transporte de contentores, e os armadores investiram consideráveis esforços e custos no estabelecimento de rotas alternativas para permitir a entrada de mercadorias na região. Para Peter Sand, não faz sentido abandonar subitamente essas soluções devido a um cessar-fogo de apenas duas semanas.
O encerramento do Estreito de Ormuz e a utilização de rotas terrestres alternativas causaram forte congestionamento e disrupção nos portos do Médio Oriente e regiões vizinhas. A analista sénior Destine Ozuygur acrescenta que a capacidade semanal para os portos de Jeddah e King Abdullah aumentou 19%, com os armadores a lançarem novos serviços para ligar a ponte terrestre à região do Golfo. Apesar das rotas alternativas, há uma enorme desorganização das escalas em portos como Mundra, Nhava Sheva e Khor Fakkan — uma situação que não se resolverá de um dia para o outro.
Ozuygur alerta ainda que o cessar-fogo não resolve o desvio de capacidade, limitando-se a criar uma breve oportunidade para movimentar as mercadorias mais urgentes. A prioridade será desafogar a carga acumulada em portos alternativos — especialmente Nhava Sheva — expedindo-a para Jebel Ali e saindo dali o mais rapidamente possível. Os armadores estão conscientes de que arriscam ver os seus navios novamente aprisionados no Golfo caso haja uma deterioração súbita da situação de segurança.
A analista adverte igualmente para o impacto de longo prazo que o controlo do Estreito de Ormuz poderá ter no transporte de contentores na região. Se o estreito se transformar efetivamente numa “portagem” controlada pelo Irão, permanecem enormes interrogações operacionais: quanto custará a travessia? Como serão geridos os pagamentos e as autorizações? Isso atrasará o regresso dos serviços dos armadores à região? Haverá navios a quem seja negada a passagem mesmo que estejam dispostos a pagar? Este tipo de incerteza é prejudicial para as cadeias de abastecimento.
Manter as cadeias de abastecimento em movimento tem um custo. Os carregadores que transportam mercadorias da China para Jebel Ali, o maior porto de contentores do Golfo, enfrentam um aumento potencial médio das taxas de frete spot superior a 270% face ao final de fevereiro. Mesmo na rota da China para a Costa Oeste dos EUA, que atravessa o Pacífico a milhares de quilómetros do conflito no Médio Oriente, as taxas spot subiram 37%, em parte devido ao congestionamento no Médio Oriente que se propagou a grandes centros de transbordo asiáticos como Singapura, Tanjung Pelepas e Port Klang.
Peter Sand conclui que é expectável que as taxas de curto prazo subam ainda um pouco, simplesmente porque existe uma janela de oportunidade de duas semanas e todos estão com pressa. A descida do preço do petróleo deverá aliviar parte da pressão sobre os custos de combustível e limitar a aplicação de novas sobretaxas de emergência por parte dos armadores, mas a situação continua crítica e os carregadores devem contar com taxas de frete mantidas em níveis elevados.









