O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dirigiu-se na noite desta quarta-feira ao povo americano num discurso em horário nobre a partir da Casa Branca, o primeiro grande discurso desde o início do conflito com o Irão, há cerca de um mês. Na sua declaração, Trump afirmou que os “objetivos estratégicos fundamentais” da administração estão “próximos da conclusão” e reiterou a sua estimativa de que as operações militares poderão terminar nas próximas duas a três semanas, sugerindo que os Estados Unidos poderão sair do conflito mesmo sem um acordo formal com Teerão.
Em termos práticos, sobre o discurso de Trump poder-se-á dizer que “a montanha pariu um rato”, isto porque não trouxe nada de novo e voltou a resumir as ideias transmitidas nos últimos dias. Na verdade, durante o discurso, tal como em declarações prévias, o Presidente americano enumerou uma série de vitórias militares, afirmando que a marinha iraniana foi destruída, a força aérea está em ruínas, a capacidade de lançamento de mísseis e drones foi “drasticamente reduzida” e os líderes do país foram mortos.
Trump justificou a ação militar não como uma tentativa de obter recursos, mas como uma forma de ajudar aliados, sublinhando que os EUA “não precisam do petróleo” da região. Em tom crítico, voltou a atacar os aliados da NATO, classificando-os como “maus aliados” e um “tigre de papel”, ao mesmo tempo que sugeriu que países asiáticos como o Japão, a Coreia do Sul e a China deveriam assumir a responsabilidade de garantir a segurança no Estreito de Ormuz, dado que são grandes consumidores do petróleo que ali circula.
Olha para o que eu digo,
não olhes para o que eu faço!
A verdade é que a realidade no terreno contrasta fortemente com o tom otimista do discurso de Trump. O conflito, que começou a 28 de fevereiro com um ataque conjunto EUA-Israel ao Irão e a morte do líder supremo, Ali Khamenei, espalhou-se rapidamente por toda a região, envolvendo o Líbano, o Iraque e grupos pró-iranianos.

Este mês de guerra deixou um rasto de destruição e um balanço humano e económico severo: as perdas para os países árabes são estimadas em cerca de 186 mil milhões de dólares, o equivalente a uma perda de 6% do PIB regional, com mais de 3,7 milhões de postos de trabalho destruídos e cerca de 4 milhões de pessoas a cair abaixo do limiar da pobreza. A crise humanitária agravou-se, com mais de um milhão de deslocados só no Líbano e centenas de milhares de dólares em ajuda humanitária retida no Dubai, incapaz de entrar na zona de conflito devido ao bloqueio no Estreito de Ormuz.
O estreito, por onde passava cerca de um quinto do petróleo mundial, permanece efetivamente fechado, com o tráfego a cair 90% e o Irão a intensificar o seu estrangulamento sobre esta artéria vital. As consequências sentem-se em todo o mundo, particularmente na Ásia, onde países como as Filipinas já declararam emergência energética face à escassez de crude. Enquanto isso, o Irão continua a lançar mísseis contra Israel e os seus vizinhos do Golfo, e os confrontos militares prosseguem sem tréguas.
Crise sem fim à vista…
Olhando para o futuro, as perspetivas para o conflito permanecem profundamente incertas. Apesar da retórica de Trump sobre uma conclusão iminente, analistas e especialistas alertam que o Presidente poderá ter subestimado a complexidade da situação, havendo quem considere que as declarações de Trump são um “jogo tático” para acalmar a opinião pública e estabilizar os mercados face ao aumento dos preços da energia, antevendo que o conflito poderá arrastar-se por vários meses.

O especialista chinês Zhu Yongbiao, da Universidade de Lanzhou, observa que Trump está numa posição difícil: desejando uma guerra rápida que levasse a uma mudança de regime em Teerão, vê agora esse objetivo falhado e enfrenta o risco de uma guerra prolongada, tentando encontrar uma saída honrosa que lhe permita declarar vitória.
Para já, as hostilidades não dão sinais de abrandamento. O Irão já deixou claro que não avança para negociações sob ameaça e que a sua vontade de lutar permanece intacta, enquanto Israel afirma ter atingido mais de metade dos seus objetivos e não demonstra intenção de estabelecer um calendário para o fim das operações militares.
Perante tudo isto, mesmo que os Estados Unidos retirem as suas forças nos próximos meses, o legado deste mês de conflito será duradouro: uma região mais fragmentada, uma crise económica profunda e uma arquitetura de segurança regional profundamente abalada, com os países do Golfo a questionarem a fiabilidade do seu aliado americano. E a guerra, essa, está aí para durar, com todas as consequências particularmente nefastas para a economia mundial.









