DFR_9397

Torreense ganha a Taça e faz o corso do Carnaval com os leões como cabeçudos

Os sinais estavam todos lá. Torres Vedras é terra de folia, de gente que sabe festejar como poucos, mesmo num ano em que o comboio de tempestades que afetou Portugal não tenha permitido que o corso carnavalesco tivesse saído à rua no tempo certo entre as gentes do Oeste. Encarando a Final da Taça de Portugal como uma coisa séria, como aliás as gentes de Torres também encaram o próprio Carnaval, ainda que o façam de sorriso no rosto, o Torreense chegou ao Jamor sem complexos, com o à-vontade de quem já tinha feito a sua graça só por estar ali.

Já o Sporting, coitado, nem desconfiou do perigo que tinha pela frente perante este adversário proveniente da II Liga. Quando deu por ela, estava a levar um banho de humildade num domingo à tarde, num Estádio Nacional que vai ficar na história como o palco do maior choque que a Taça de Portugal já viu.

Afinal, o que aconteceu este domingo, 24 de Maio, foi daqueles feitos que merecem livros, documentários, talvez uma estátua qualquer em Torres Vedras. Pela primeira vez em 88 anos de prova, um clube que não joga na primeira divisão ergueu o troféu, e fê-lo depois de vencer um adversário de peso: o Sporting, o vice-campeão nacional, um colosso que veio ao Jamor à procura da salvação de uma época que estava a escapar-lhe pelos dedos.

O pesadelo do leão
começou bem cedo

A festa começou bem cedo no Jamor, com os piqueniques instalados um pouco por todo o lado na mata do Jamor, alguns até onde não deveriam estar, nomeadamente nos parques de estacionamento reservados que serviram para tudo menos para os propósitos a que estavam destinados, por falha grosseira da organização. Depois, já no relvado, Bárbara Bandeira cantou ‘A Portuguesa’, abrindo o caminho para uma tarde de futebol na festa da Taça de Portugal.

Na tribuna do Jamor, o recinto que continua à espera de uma verdadeira requalificação, o Presidente da República, António José Seguro, surgia ladeado pelo presidente da FPF, Pedro Proença, mas também pelos dirigentes dos dois clubes. Depois, na bancada central, muitas figuras do futebol português, e nomeadamente alguns notáveis do Sporting, nomeadamente o antigo presidente leonino José de Sousa Cintra. Só que o tempo era de se ouvir o apito do árbitro para o arranque da partida e a partir dali as atenções recaíam sobre os onze jogadores de cada uma das equipas dentro das quatro linhas, num relvado lento, seco, que travava muitas vezes a bola e não permitia lances com grande velocidade de execução.

Quanto às incidências do jogo, elas começaram a surgir muito cedo, mais propriamente aos quatro minutos, para ser exacto. Um canto batido da esquerda, Leo Silva a ganhar no primeiro poste, Morita a evaporar-se como um fantasma na área, e Kevin Zohi a empurrar para o fundo das redes. Estava feito o 1-0 para o Torreense, no golo mais madrugador numa final desde 2012. Os adeptos do Sporting ainda estavam a instalar-se nas bancadas, alguns nem tinham acabado a cerveja, e já os homens de Torres Vedras estavam a fazer a festa.

O que se seguiu foi um Sporting irreconhecível. Nervoso, apressado, desconexo. A equipa que dobrou adversários europeus esta época parecia um bando de debutantes assustados. Pedro Gonçalves ainda acertou no poste antes do intervalo, Luis Suárez também ameaçou, mas era tudo sem convicção, como quem foge à forca em vez de perseguir a glória.

Do outro lado, o Torreense defendia com a alegria de quem está a segurar um bilhete premiado, desfilando com o mesmo num carro alegórico bem decorado pelas ruas de Torres Vedras em tarde Carnaval. Dessa forma, os pupilos do técnico Luís Tralhão, do Torreense, atacavam sem medo, fazendo os jogadores do Sporting parecer mais lentos do que realmente são. Havia ali qualquer coisa de perigoso, uma equipa feliz que sabia que estava mais perto do sucesso do que qualquer prognóstico ousaria arriscar.

O empate por Luis Suárez
que não acalmou os ânimos

O golo do empate para o Sporting acabou por chegar mesmo, antes dos 90 minutos, num lance em que a sorte sorriu ao conjunto leonino. Maxi Araújo, o uruguaio que apareceu em campo com um visual diferente para marcar uma presença que não conseguiu com o jogo realizado — viria a ficar ligado à derrota dos leões de uma forma ainda mais clamorosa —, viu a bola ressaltar nas suas pernas depois de um corte trapalhão de Ali-Diadié. A bola ficou ao alcance de Luis Suárez, o goleador da época no futebol português, e este não perdoou: 1-1, naquele que foi o 42º golo da temporada para o colombiano.

Podia pensar-se que o Sporting, aliviado, iria partir para cima do adversário. Que o Torreense, coitado, ia encolher-se. Pois bem, não foi nada disso. Os leões continuaram numa toada morta, lenta, sem chama, dando espaço para que o Torreense usasse da experiência dos veteranos Stopira, David Bruno e Costinha para ir controlando o ritmo, e quando o árbitro apitou para o prolongamento, já se ouvia um coro de assobios vindo das bancadas leoninas. O Sporting, aos olhos dos seus próprios adeptos, estava já ali à beira de perder a final.

O penálti que decidiu tudo
e o cartão que matou o leão

No segundo tempo do prolongamento, com o sol já escondido, veio o momento que vai ser repetido à exaustão nos próximos anos. Gonçalo Inácio, que teve uma tarde para esquecer, perdeu um duelo com Seidy. Maxi Araújo, no desespero, derrubou o atacante dentro da área e o árbitro António Nobre, bem colocado, assinalou de imediato o castigo máximo, com a sinalética a indica que o uruguaio tinha agarrado o homem do Torreense. Penálti e cartão vermelho directo para Maxi, e o Sporting, a cinco minutos do fim, ficava com menos um jogador dentro das quatro linhas.

Era preciso transformar o castigo máximo pelo que, entre os homens do Torreense, quem pegou na bola foi Stopira, o capitão da equipa, veterano cabo-verdiano, líder espiritual daquele balneário, um homem de 37 anos que já viu de tudo no futebol. Com um pontapé forte e colocado, bateu Rui Silva com uma frieza de meter respeito. 2-1. E o Jamor veio abaixo, com as gentes do Oeste a celebrar como se tivessem ganho o Mundo.

Ainda houve tempo para um momento à séria: num canto a favor do Sporting nos descontos, Rui Silva subiu à área contrária, a bola saiu e o Torreense lançou o contra-ataque. Ismail Seydi correu dezenas de metros com a baliza vazia, tinha o 3-1 nos pés, a cereja no topo do bolo, mas rematou já cansado… levando a bola a rolar de forma caprichosa saindo ao lado do poste direito da baliza solitária do Sporting.

Por pouco, muito pouco, a goleada não engrossou o vexame dos leões. O certo é que pouco depois ouvia-se o apito final do árbitro e era tempo de festa para os homens do Torreense.

Contestação em Alvalade
e uma festa que parece mentira

No final, as imagens eram de dois mundos opostos. De um lado, os jogadores do Torreense em êxtase, a abraçar a taça, a fazer a volta de honra com a alma nas mãos. Do outro, os adeptos do Sporting a vaiar a equipa e o treinador Rui Borges, que viu a época terminar sem qualquer título, depois de um segundo lugar no campeonato que só serve para mitigar a desgraça, mas não para a apagar.

Os homens de Alvalade fizeram o papel de cabeçudos num Carnaval fora de tempo. Para eles, a temporada acaba em branco, ao mesmo tempo que, para o Torreense, começa agora a verdadeira festa, certamente curta porque terá que baixar à terra porque há ainda muito em jogo na presente temporada para os homens de Torres Vedras.

As consequências
(de arrepiar cabelo)

A verdade é que esta vitória não é só troféu e glória, sendo também dinheiro, projecção, bem como uma verdadeira revolução no calendário do futebol português. Ao vencer a Taça, o Torreense garantiu um lugar directo na fase de liga da Liga Europa. Sim, leu bem. O clube da II Liga vai jogar na Europa na próxima época. Só que há mais consequências para equipas que nem sequer estiveram em campo nesta tarde de futebol e festa da Taça no Estádio Nacional no Jamor.

O triunfo do Torreense tem um efeito dominó que vai fazer doer em várias casas. O Benfica, que esperava herdar essa vaga caso o Sporting ganhasse, vai agora ter de começar a temporada mais cedo, na segunda pré-eliminatória da Liga Europa, a 27 de Julho. Isto numa altura em que os encarnados ainda nem sabem quem vai ser o treinador .

O Sporting de Braga também é prejudicado: cai para a Liga Conferência. E o Famalicão, que sonhava com a Europa, fica de fora de vez. Tudo por causa de um golo de penálti de um veterano cabo-verdiano num domingo à tarde no Jamor com a camisola do Torreense da II Liga.

O preço da glória

Agora, resta saber como é que o Torreense vai gerir esta montanha-russa de emoções. Na próxima quinta-feira, o clube do Oeste joga a segunda-mão do playoff de acesso à I Liga, no terreno do Casa Pia. Depois de 120 minutos de desgaste emocional e físico, os homens de Luís Tralhão vão certamente pagar a fatura. Mas, honestamente, acham que alguém em Torres Vedras está preocupado com isso agora?

Deixem-nos festejar. Eles merecem!


Ficha de Jogo

Sporting 1-2 Torreense (após prolongamento)

Estádio Nacional, Jamor (Oeiras)
24 de Maio de 2026

Árbitro: António Nobre

Sporting: Rui Silva; Quaresma, Diomande, Gonçalo Inácio; Maxi Araújo, Morita (Nel, 105′), Hjulmand, Nuno Santos (Quenda, 99′); Pote (Bragança, 105′), Trincão (Luís Guilherme, 91′); Luis Suárez.
Suplentes não utilizados: Kovacevic, Fresneda, Reis, Afonso Moreira.
Treinador: Rui Borges

Torreense: Lucas Paes; David Bruno, Diego Cruz, Ali Diadié, José Varela (Seydi, 67′); Costinha (Rodrigo, 99′), André Simões (Beni, 120′), Léo Oliveira (Patrick, 99′); Stopira, Kevin Zohi (Seidy, 84′), Leo Silva.
Suplentes não utilizados: Eduardo, Duarte, Simão, Tiago.
Treinador: Luís Tralhão

Golos: Kevin Zohi (4′), Luis Suárez (81′), Stopira (penálti, 114′)

Disciplina: Cartão vermelho para Maxi Araújo (112′)


texto: Jorge Reis
fotos: Diogo Faria Reis

Sondagem

Qual a sua convicção pessoal relativamente ao curso da guerra na Ucrânia?

View Results

Loading ... Loading ...

Rádio LusoSaber

Facebook

Parcerias

Subscreva a nossa Newsletter

Inscreva-se para receber nossas últimas atualizações na sua caixa de entrada!