Sessão Plenária de 27 de março de 2024 - Eleição e posse do Presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco

Portugal à deriva: direita corre o risco de desperdiçar oportunidade histórica

Portugal vive um momento político paradoxal. Nunca como hoje o espaço político da direita dispôs de uma representação parlamentar tão significativa e, simultaneamente, nunca pareceu tão incapaz de transformar essa força num verdadeiro projeto de governação para o país.

A maioria existente na Assembleia da República está a esfrangalhar-se perante os olhos dos portugueses. Não por falta de números, mas por falta de liderança, de visão e de capacidade de mobilização. O país assiste a uma sucessão de erros políticos, falhas de coordenação, crises de comunicação e conflitos que enfraquecem diariamente a confiança dos cidadãos nas instituições e nos seus representantes.

Enquanto os portugueses enfrentam dificuldades crescentes para aceder à habitação, veem os serviços públicos degradarem-se e sentem uma economia incapaz de gerar prosperidade para a classe média, a resposta política tem sido marcada pela ausência de rumo. A governação parece navegar ao sabor das circunstâncias, sem uma estratégia clara para o futuro e sem a coragem reformista que o momento exige.

O problema não é apenas governativo. É sobretudo político. Falta uma liderança capaz de unir, de inspirar e de construir pontes dentro do próprio espaço da direita democrática. Falta alguém que compreenda que a fragmentação e o sectarismo são o caminho mais rápido para a derrota. Falta uma figura que coloque o interesse nacional acima das agendas pessoais, dos cálculos partidários e das guerras de fação.

Se nada mudar, a direita arrisca-se a desperdiçar uma oportunidade histórica. Pior ainda, poderá abrir caminho ao regresso de uma esquerda que, apesar dos seus erros e contradições, continua a beneficiar sempre que os seus adversários se revelam incapazes de governar com competência e sentido de Estado.

É tempo de dizer claramente que Portugal precisa de uma alternativa mais ampla do que os atuais enquadramentos partidários. Há milhares de portugueses que já não se identificam com as bandeiras existentes, que recusam os radicalismos e que procuram uma plataforma política séria, reformista, patriótica e agregadora. Um espaço capaz de reunir moderados, independentes, reformistas e todos aqueles que acreditam que o país merece mais do que a mediocridade política que tem dominado os últimos anos.

O futuro exige coragem para romper com o conformismo. Exige uma liderança forte, credível e mobilizadora. Exige um projeto nacional que una em vez de dividir, que reforme em vez de remendar e que coloque Portugal acima dos interesses particulares.

A história ensina-nos que as oportunidades políticas não são eternas. Quando os líderes falham, os povos procuram alternativas. E Portugal está cada vez mais próximo desse momento.

Zeferino Boal define-se, ele próprio, como um cidadão, angolano e português, livre pensador e de ação cívica. Com carreira militar na FAP e formação na área da gestão, desempenhou funções públicas, políticas, desportivas e privadas de que se orgulha de terem sido marcadas sempre pela dedicação e responsabilidade.

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