3D Book Furtado

“Entre a Loucura e a Graça”… ou a geografia íntima da existência

Num cenário literário por vezes dominado pela pressa ou pela mera ilustração de teses, chega-nos um romance que ousa fazer o caminho inverso. ‘Entre a Loucura e a Graça’, a obra de estreia de Salvador Furtado, é um daqueles livros que se descobre como um relógio antigo: precisa, meticulosa e cheia de uma vida interna que vibra para além do mostrador.

A premissa parece clássica, mas o tratamento é tudo menos convencional. Acompanhamos Inácio, um jovem que suspende a vida em Lisboa para embarcar numa errância pela Europa, até que um apelo difuso e iniludível o empurra para Oriente. A sinopse descreve uma fuga de um passado sombrio e uma busca por redenção, mas é na tessitura desse percurso que o romance encontra a sua força. Entre o brilho superficial da Côte d’Azur e o caos sagrado de Mumbai e Varanasi, Inácio confronta-se com as ilusões que construiu, revisitando fantasmas do passado como Graça e Simão. A jornada geográfica torna-se, assim, um mapa da psique, um caminho onde a culpa e a solidão se diluem na poeira das estradas indianas.

Salvador Furtado

O que diferencia Salvador Furtado de muitos estreantes é a origem do seu gesto criativo. Nascido no Porto em 1996, é um autor que chegou à escrita quase por acaso, por sugestão de um amigo que o desafiou a escrever um conto . Longe de ser um biografado de aventuras ruidosas, Furtado confessa que foram os detalhes banais da sua própria vida – “pouco espectacular à superfície” – que se revelaram matéria-prima de ficção . Essa humildade perante o real reflecte-se na página. Terminou o romance durante uma viagem à Índia, e percebe-se: o livro não é uma visão de um turista, mas uma imersão táctil na alteridade .

Em ‘Entre a Loucura e a Graça’, as personagens não são meros veículos para a acção. Figuras como Alice, uma voluntária altruísta, ou Sudhir, um monge perturbador, funcionam como espelhos que obrigam Inácio a questionar a sua moralidade e a fragilidade do ser. Alice, em particular, confronta o protagonista com os seus demónios mais profundos, apresentando-lhe uma visão da morte que o colocará perante uma escolha de consequências arrebatadoras.

Ler este romance é aceitar um convite para a desaceleração. Numa altura em que se valoriza o entretenimento rápido, Salvador Furtado entrega uma narrativa filosófica e poética sobre os dilemas da vida e os ecos do amor. A escrita, para este autor que vive em Lisboa entre o trabalho e um mestrado, não é uma fuga, mas “um método de compreensão”. E é nesse território de fronteira – entre a lucidez cruel e a graça inesperada – que este livro se torna essencial para quem procura na literatura mais do que um espelho: uma janela aberta sobre o caos e a beleza do mundo.

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