Morreu esta quinta-feira, aos 83 anos, António Lobo Antunes, um dos maiores escritores de língua portuguesa de todos os tempos. O autor, que levava uma vida recatada há já alguns meses devido a problemas de saúde, deixa uma obra monumental que recolocou o romance português no mapa da literatura mundial, valendo-lhe comparações com Faulkner, Céline e Proust, e uma permanente nomeação para o Prémio Nobel da Literatura que, como lembra esta sexta-feira o jornal espanhol El País, a Academia Sueca “injustamente nunca lhe concedeu”.
Nascido em Lisboa, a 1 de setembro de 1942, no seio de uma família da alta burguesia, Lobo Antunes quis ser escritor desde os sete anos, mas foi contra a vontade que seguiu Medicina, por imposição paterna. Licenciou-se em 1969 e especializou-se em Psiquiatria, uma área que exerceu durante vários anos no Hospital Miguel Bombarda e que deixaria marcas profundas na forma como dissecou, até ao tutano, a alma humana nos seus romances.
A experiência traumática da Guerra Colonial, onde serviu como médico militar em Angola entre 1971 e 1973, foi o rastilho que incendiou a sua escrita de regresso a Lisboa. Desse período conturbado nasceram, em 1979, os seus dois primeiros romances publicados em simultâneo: Memória de Elefante e Os Cus de Judas. Eram obras de uma violência e originalidade ímpares, que rompiam com a norma literária da época e que a crítica recebeu com reservas, mas que o público rapidamente abraçou.
Ao longo de mais de quatro décadas, Lobo Antunes construiu uma das obras mais densas, complexas e fascinantes da literatura europeia. Romances como Fado Alexandrino (1983), As Naus (1988), O Manual dos Inquisidores (1996) ou O Esplendor de Portugal (1997) são marcos incontornáveis de um percurso obsessivo em torno da memória, da culpa, da solidão, do desencanto e da fragilidade das relações humanas. A sua escrita, feita de um fluxo de consciência polifónico, frases longas como capítulos e uma desconcertante sobreposição de tempos e vozes, criou um universo literário inconfundível que o crítico norte-americano Harold Bloom classificou como sendo de “um dos escritores vivos que mais importam”.


Nunca deixando de se considerar um “artesão das palavras”, escrevia sempre à mão, num processo lento e minucioso, e gostava de se comparar a um “caçador de palavras”. O seu génio literário foi reconhecido internacionalmente muito antes de o ser em Portugal. França, Alemanha, Itália e Brasil acolheram-no como um mestre. O jornal francês Le Monde escreveu recentemente que a sua obra é composta por “páginas magníficas sobre o sofrimento humano”, fruto de uma escrita onde a “polifonia de vozes e a sobreposição de diferentes fluxos de consciência mergulham nas mais profundas complexidades do ser humano”.
Ao longo da carreira, foi distinguido com alguns dos mais importantes prémios literários: o Prémio Camões em 2007, o mais importante da língua portuguesa, o Prémio Jerusalém em 2005, o Prémio Juan Rulfo em 2008, e a consagração máxima de ver a sua obra integrada na prestigiada coleção francesa La Pléiade da Gallimard, feito que o coloca na galeria dos imortais da literatura mundial, ombreando com Fernando Pessoa.
Apesar da fama de “difícil”, quem se entregou à sua escrita descobriu um mundo de uma humanidade avassaladora. O escritor Alex Castro, na Folha de S. Paulo, definiu-o assim: “deu tudo de si e exigiu tudo de nós”, mas “poucas obras literárias recentes valem tanto o esforço de explorá-las”.
O Presidente da República já decretou luto nacional para este sábado, dia do funeral, que se realiza no Cemitério de Benfica, em Lisboa, o bairro da sua infância e adolescência que tantas vezes povoou as suas histórias. A Câmara Municipal de Lisboa decretou também luto municipal, sublinhando que Lobo Antunes “faz hoje parte da rara aristocracia da literatura mundial, onde estão os grandes mestres que nos habituámos a admirar”.
A escritora Lídia Jorge, numa primeira reação, resumiu o sentimento de toda uma cultura: foi “aquele que fez da escrita a vida absoluta” e que “hoje deixa uma obra gigantesca”. Portugal fica mais pobre, mas a obra de António Lobo Antunes fica, para sempre, como um dos mais altos cumes da nossa literatura.









