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José Maria Ricciardi – a outra face: sportinguista

Na semana passada, ao receber a triste notícia do falecimento de José Maria Ricciardi, escrevi:

“Tolhido pela surpresa ao amanhecer com a notícia do seu falecimento, fui invadido por um turbilhão de pensamentos — todos eles centrados na eterna dualidade entre a vida e a morte.

Durante muitos anos, foi para mim uma dessas personalidades que parecem distantes, quase inacessíveis ao cidadão comum. Porém, as vicissitudes da vida e o universo leonino acabaram por nos aproximar. Daquilo que começou como uma relação distante, por vezes até antagónica, fomos descobrindo afinidades no pensamento, no caráter e na forma resiliente de enfrentar os obstáculos.

Entre amizades e gostos em comum — como a ausência de horários para boas conversas — fomos construindo um espaço de diálogo que tanto acontecia ao amanhecer como pela madrugada dentro. Tivemos discussões intensas, momentos de franca discordância, mas também muitas risadas. Mesmo nos tempos mais recentes, nunca faltou a discrição que ambos sabíamos ser necessária.

Parte agora um cidadão que, mesmo quando lhe foi vedada a possibilidade de exercer plenamente a sua competência e de ‘limpar’ o que estava oculto, ainda assim contribuiu para valores maiores do País. A História saberá, no seu tempo, fazer justiça e compreender as circunstâncias que o levaram a agir como agiu.

Desaparece também um amigo e um apaixonado pelo Sporting, alguém que muito deu ao Clube. Por vezes incompreendido, terá também, em determinados momentos, servido de escudo a muitas das fragilidades do dirigismo leonino ao longo dos anos.

Era alguém com a rara capacidade de transformar divergência em aproximação, de gerar entendimento quando estavam em causa interesses superiores ao individualismo.

Como qualquer ser humano, não foi isento de falhas — foi enganado ou deixou-se enganar em alguns momentos. Mas isso apenas o torna mais humano, mais próximo, mais real.

Fica a memória, o respeito e a amizade.

Estamos juntos, Zé Maria.”

Sinto, no entanto, a obrigação de acrescentar alguns episódios da sua vivência.

Depois de, durante anos, termos integrado Órgãos Sociais do Sporting — onde por vezes nos cruzámos em posições distintas — foi em 2018, num momento particularmente sensível da vida do Clube, que estreitámos a nossa relação. Aí, tivemos oportunidade de partilhar histórias, tanto da política como, naturalmente, do Sporting.

José Maria era também um sportinguista que, por força das funções e cargos que ocupava, se via muitas vezes sujeito aos palcos que a sociedade impõe. Em plena campanha eleitoral, procurávamos captar apoios de diversos quadrantes, e surgiu a possibilidade de criar condições para um encontro entre uma delegação da Juventude Leonina e a nossa candidatura.

Essa reunião ocorreu de forma discreta na Casa de Angola. Acompanhámos José Maria Ricciardi, bem como a delegação da JuveLeo, liderada por Nuno Mendes, conhecido como “Musta”. Após uma longa e proveitosa conversa, o encontro terminou de forma descontraída, entre cervejas e whisky. Ficou desde logo combinada uma visita à “casinha”, que viria a concretizar-se no primeiro jogo em Alvalade.

Todos estes — e outros — momentos foram curtos para muitos perceberem quem realmente era José Maria Ricciardi: alguém tão genuíno quanto a generalidade dos adeptos anónimos que vivem o Sporting com intensidade.

Sei que, em muitas ocasiões, ajudou o Sporting sem nunca questionar a finalidade. Nunca saberemos se o Clube perdeu um grande presidente — frontal, direto e combativo, como sempre demonstrou ser enquanto cidadão.

Foi uma dessas personalidades que nem sempre são compreendidas, talvez por não terem tido a oportunidade de criar maior proximidade com o comum dos sócios e adeptos.

Com ele, o Sporting esteve sempre em primeiro lugar.

Zeferino Boal define-se, ele próprio, como um cidadão, angolano e português, livre pensador e de ação cívica. Com carreira militar na FAP e formação na área da gestão, desempenhou funções públicas, políticas, desportivas e privadas de que se orgulha de terem sido marcadas sempre pela dedicação e responsabilidade.

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