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Entre a memória e a demagogia: um debate que empobrece a História

O recente debate entre André Ventura e Pacheco Pereira sobre as independências e a existência de presos políticos antes e depois do 25 de Abril revelou-se, infelizmente, mais um exercício de retórica inflamada do que um verdadeiro contributo para o esclarecimento histórico.

Num tema tão sensível e estruturante da identidade coletiva portuguesa — o fim do regime do Estado Novo e o processo de descolonização — seria exigível maior rigor, sentido de responsabilidade e respeito pela complexidade dos factos. No entanto, o que se assistiu foi a um confronto marcado por simplificações abusivas e por uma utilização instrumental da História ao serviço de agendas ideológicas distintas.

Por um lado, André Ventura procurou relativizar a existência de presos políticos no período anterior à Revolução de 25 de Abril de 1974, recorrendo a argumentos que tendem a diluir a natureza repressiva do regime. Esta abordagem, além de historicamente discutível, ignora um vasto consenso académico sobre a existência de perseguição política sistemática durante o Estado Novo, documentada por múltiplas fontes e testemunhos.

Por outro lado, Pacheco Pereira, embora partindo de uma base factual mais consistente quanto à repressão pré-25 de Abril, acabou por cair numa lógica igualmente redutora ao estabelecer paralelismos pouco rigorosos ou ao desvalorizar nuances importantes do período pós-revolucionário. A questão dos chamados “presos políticos” após o 25 de Abril — num contexto de grande instabilidade, com excessos revolucionários e processos judiciais discutíveis — merece uma análise séria, sem tabus, mas também sem equivalências simplistas.

A verdade histórica raramente se compadece com discursos binários. Houve, sem dúvida, repressão política institucionalizada antes de 1974. Mas também é verdade que o período revolucionário e os anos imediatamente seguintes não estiveram isentos de arbitrariedades, perseguições e detenções cuja natureza política continua a suscitar debate. Ignorar qualquer uma destas dimensões é empobrecer a compreensão da nossa História.

O que torna este debate particularmente preocupante é o recurso à demagogia por ambas as partes. Quando a História é transformada em arma de arremesso, perde-se a oportunidade de promover uma reflexão informada e plural. Em vez de se procurar a verdade — ainda que incómoda — opta-se por reforçar narrativas convenientes, alimentando clivagens e simplificando realidades complexas.

Num tempo em que o espaço público está cada vez mais permeável à polarização, seria desejável que figuras com visibilidade e influência assumissem um papel pedagógico, contribuindo para elevar o nível do debate. Isso implica reconhecer factos, admitir ambiguidades e recusar leituras maniqueístas.

Portugal não precisa de disputas estéreis sobre quem detém a “verdade histórica”. Precisa, isso sim, de maturidade democrática para olhar o seu passado com rigor, sentido crítico e respeito pela memória coletiva. Só assim será possível honrar verdadeiramente os valores da tolerância e da democracia e consolidar uma cultura política mais exigente e esclarecida.

foto: © CNN Portugal

Zeferino Boal define-se, ele próprio, como um cidadão, angolano e português, livre pensador e de ação cívica. Com carreira militar na FAP e formação na área da gestão, desempenhou funções públicas, políticas, desportivas e privadas de que se orgulha de terem sido marcadas sempre pela dedicação e responsabilidade.

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