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Estudantes tomaram Lisboa: “O futuro não está à venda”

Foi uma terça-feira de vozes altas, cartazes empunhados e passos firmes os que ecoaram pelo coração de Lisboa. Milhares de estudantes do ensino superior de todo o país responderam esta terça-feira à convocatória para a Manifestação Nacional do Estudante, transformando as ruas da capital num palco vibrante de reivindicação e esperança. Num percurso que ligou a tradicional Praça do Rossio à sede do poder político, em São Bento, a juventude portuguesa fez questão de marcar o Dia Nacional do Estudante com uma exigência clara: o ensino não pode ser um privilégio.

A concentração teve início pelas 14:30, no Rossio, local de partida escolhido para esta marcha que rapidamente se espalhou por artérias históricas da cidade, passando por sítios emblemáticos como os Armazéns do Chiado e o Largo de Camões, antes de seguir em direção ao Parlamento. O que se viu foi um rio humano composto por mais de 50 estruturas do Movimento Associativo Estudantil (MAE), incluindo associações de estudantes, tunas, grupos académicos e comissões de residentes, numa demonstração de união que atravessou fronteiras regionais e institucionais. Para que se tenha uma ideia, e para quem conhece as artérias da capital, quando o Largo de Camões estava já lotado, o cortejo dos estudantes ainda subia a Rua do Carmo logo depois do Rossio.

“Queremos um ensino superior para todos, mas há cada vez menos estudantes a entrar, sendo os mais pobres os mais afetados”, declarou à Lusa o porta-voz da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sintetizando o sentimento geral de quem ocupou as ruas. Os slogans ouviam-se em uníssono: “Não recuamos, gratuitidade já!” era o mote que dava o tom, num apelo direto ao fim das propinas, à criação de mais residências públicas e à revisão do sistema de bolsas de ação social.

A indignação dos estudantes ganha contornos específicos num contexto em que o ministro da Educação, Fernando Alexandre, veio defender publicamente que a redução das propinas seria uma medida “regressiva”, sugerindo mesmo que estas deveriam ser atualizadas de acordo com a taxa de inflação. Uma posição que colide frontalmente com as necessidades de quem, como Vasco Josué, um dos manifestantes ouvidos pela RTP, admite que, depois de pagas as despesas com bolsa, lhe sobram apenas 20 euros para alimentação.

Para além da questão financeira, a falta de alojamento acessível emergiu como um dos pontos mais críticos das reivindicações. Os estudantes exigem o cumprimento do Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior (PNAES) e contestam o novo modelo de atribuição de bolsas, que consideram insuficiente para cobrir os custos reais de estudar. No último ano letivo, foram atribuídas mais de 84 mil bolsas, mas mais de 70% dos bolseiros receberam o valor mínimo — um dado que ilustra bem a insuficiência do atual sistema.

A escolha do percurso não foi inocente. Terminar junto à Assembleia da República, em São Bento, teve um simbolismo claro: é ali que as decisões são tomadas e é ali que os estudantes querem que a sua voz ecoe. Num ano em que o governo já tinha visto chumbar no Parlamento uma proposta para aumentar o valor das propinas, fruto dos votos contra de partidos como PCP, Chega, PS, PAN, Livre e BE, a mensagem que hoje ficou nas ruas é a de que a luta está longe de terminar.

Enquanto o sol da tarde iluminava os cartazes e as vozes se faziam ouvir até à noite, ficou a certeza de que este 24 de março de 2026 ficará registado como um dos dias em que os estudantes portugueses mostraram que, apesar das adversidades, o futuro ainda não está à venda.

fotos: Diogo Faria Reis / LusoNotícias

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