Há debates que uma democracia deve ter. E há decisões que uma democracia deve ter a coragem de não tomar. A discussão sobre a tauromaquia é, seguramente, uma delas.
Podemos gostar ou não de touradas. Podemos apreciar ou rejeitar a presença do homem diante do touro. Podemos defender alterações às regras, discutir o bem-estar animal e exigir que as atividades tauromáquicas cumpram escrupulosamente a legislação.
Tudo isso é legítimo. O que não é legítimo numa sociedade plural é transformar uma determinada visão ideológica numa cruzada política destinada a eliminar uma manifestação cultural porque alguns decidiram que ela já não deve existir.
A política não pode ser dona da cultura. E muito menos pode decidir, por decreto, aquilo que os cidadãos podem ou não podem apreciar, desde que essa atividade decorra dentro da lei.
Uma arte que incomoda porque continua viva
A tauromaquia é uma arte controversa. E talvez seja precisamente por isso que incomode tanto aqueles que pretendem eliminá-la. Mas é uma arte.
É uma manifestação cultural construída ao longo de gerações, com linguagem própria, técnica, estética, ritual, disciplina e uma relação singular entre o homem e o touro. É arte quando o toureiro a pé domina o espaço, o tempo e o movimento. É arte quando o cavaleiro estabelece, através da equitação, uma relação extraordinária entre cavalo e touro. E é também arte quando um grupo de forcados entra na arena e um homem, sem qualquer arma, enfrenta de frente a força e a imprevisibilidade do touro.
A forcagem portuguesa é, aliás, uma das expressões mais extraordinárias da tauromaquia. Ali não existe apenas coragem individual. Existe companheirismo, disciplina, solidariedade, confiança e espírito de grupo. O primeiro forcado dá a cara. Os restantes dão o corpo. E todos sabem que a coragem de um só homem depende da solidariedade dos outros. Reduzir tudo isto à palavra “violência” é intelectualmente cómodo, mas culturalmente pobre.
A liberdade não pode ser seletiva
Existe uma questão que deveria estar no centro deste debate: Quem tem o direito de decidir aquilo que é culturalmente aceitável? Hoje é a tauromaquia. Amanhã poderá ser outra manifestação que alguém considere ultrapassada, inconveniente ou incompatível com determinada visão ideológica.
A democracia não existe para proteger apenas as manifestações culturais que estão na moda ou que são consensuais. Existe precisamente para garantir a convivência entre diferentes formas de pensar, sentir e viver. Uma sociedade livre não pode funcionar segundo o princípio de que “se eu não gosto, ninguém deve poder fazer”.
Essa lógica é profundamente perigosa. Porque a liberdade cultural não consiste apenas em podermos defender aquilo de que gostamos. Consiste também em aceitarmos que outros defendam aquilo de que nós não gostamos. Não se apaga a memória de um povo por decreto
Portugal tem uma enorme diversidade cultural. Tem festas, romarias, procissões, música, gastronomia, artesanato, tradições populares e manifestações que são transmitidas de pais para filhos. A tauromaquia integra essa memória. Em muitas localidades, a praça de touros não é apenas um edifício. É um espaço de encontro, de tradição e de memória coletiva.
Existem famílias ligadas à criação do touro bravo há gerações. Existem campinos, ganadeiros, cavaleiros, toureiros, bandarilheiros, forcados e muitos outros profissionais cuja vida está associada a este universo. Há localidades onde a tauromaquia está profundamente ligada às festas e à economia local. Pretender que tudo isto desapareça através de uma decisão política é muito mais do que proibir um espetáculo. É interferir na identidade cultural de comunidades inteiras.
E o público?
Há ainda uma realidade que os discursos mais radicais tendem a ignorar: as pessoas continuam a ir às praças. As praças continuam a receber público. Continuam a existir jovens interessados. Continuam a surgir novos aficionados. E a tauromaquia continua a despertar a curiosidade de muitos estrangeiros que visitam Portugal e procuram conhecer manifestações culturais que fazem parte da nossa identidade.
Esta realidade deveria obrigar os seus críticos a uma reflexão. Se uma tradição desaparecesse naturalmente, sem público, sem praticantes e sem capacidade de renovação, a questão seria outra. Mas não é isso que acontece. Apesar da enorme pressão política, mediática e ideológica, a tauromaquia continua viva. E aquilo que está vivo numa sociedade não deve ser eliminado simplesmente porque determinados setores políticos decidiram que não gostam.
O argumento turístico também não pode ser ignorado
Portugal procura afirmar-se como destino turístico através da sua identidade. Vendemos ao mundo a nossa história, os nossos monumentos, a gastronomia, o fado, as tradições populares, as aldeias históricas, os cavalos, os campinos e tantas outras manifestações culturais. Mas depois há quem queira esconder ou eliminar uma parte dessa identidade porque considera que não corresponde à sua visão do país. Não parece coerente.
O turista que chega a Portugal não procura apenas hotéis, praias e centros comerciais. Procura experiências. Procura autenticidade. Procura aquilo que distingue Portugal de outros destinos. E a tauromaquia é, goste-se ou não, uma dessas manifestações.
Defender a tauromaquia não significa recusar a evolução É importante deixar isto claro. Defender a tauromaquia não significa defender que tudo fique como está. Uma tradição não pode ser uma desculpa para ignorar a evolução da sociedade.
É perfeitamente legítimo discutir regras, segurança, condições de realização dos espetáculos, proteção dos animais e adaptação às exigências dos tempos modernos. Aliás, uma tradição que pretende sobreviver deve ter capacidade para se adaptar. Mas adaptar não é eliminar. Regular não é proibir. Debater não é destruir. E melhorar não significa necessariamente acabar. É aqui que deve estar a diferença entre uma posição democrática e uma posição meramente ideológica.
O problema não é a opinião. É o poder de proibir. Ninguém deve ser impedido de ser contra as touradas. Os movimentos de defesa dos animais têm todo o direito de manifestar a sua posição. Os partidos políticos têm o direito de apresentar propostas. Os cidadãos têm o direito de protestar. Mas os defensores da tauromaquia têm exatamente os mesmos direitos.
O problema começa quando uma corrente de opinião pretende utilizar o poder do Estado para impor a sua visão a todos os outros. Uma democracia não pode ser uma ditadura da maioria, nem uma ditadura de minorias organizadas. Tem de ser um espaço de liberdade. E a liberdade cultural não pode depender da aprovação de quem exerce temporariamente o poder político.
A tauromaquia não precisa de desculpas
A tauromaquia não precisa de pedir desculpa por existir. Pode explicar-se. Pode discutir-se. Pode modernizar-se. Pode defender-se. Mas não precisa de pedir licença para fazer parte da cultura portuguesa. Porque não estamos perante uma moda passageira.
Estamos perante uma tradição com raízes profundas, que atravessou gerações e que continua a mobilizar milhares de pessoas.
O touro bravo, o cavaleiro, o toureiro, o forcado, o campino e a praça fazem parte de uma realidade cultural que não pode ser apagada porque alguém decidiu que é politicamente conveniente fazê-lo.
Uma sociedade adulta sabe conviver com a diferença
Talvez o verdadeiro teste à nossa democracia não esteja em saber se conseguimos defender aquilo de que gostamos. Talvez esteja em saber se conseguimos respeitar aquilo de que não gostamos. É fácil defender a liberdade quando ela coincide com as nossas convicções. É muito mais difícil defendê-la quando diz respeito às convicções dos outros. É por isso que a questão da tauromaquia ultrapassa largamente a arena.
Hoje discutimos o direito à tauromaquia. Amanhã poderemos estar a discutir o direito a outra tradição cultural que alguém considere indesejável.
Se aceitarmos que a cultura pode ser eliminada por decreto sempre que uma corrente política considera determinada tradição moralmente inconveniente, estaremos a abrir uma porta que deveria preocupar todos os democratas.
A cultura não pertence aos governos. A cultura pertence às pessoas.
Contra a proibição, pelo direito à escolha
Não se exige que todos gostem de tauromaquia. Exige-se apenas que aqueles que gostam possam continuar a vivê-la dentro da lei. Não se pede que ninguém seja obrigado a entrar numa praça. Pede-se que ninguém seja impedido de entrar. Não se pretende impor uma tradição a quem a rejeita. Pretende-se impedir que quem a rejeita a imponha aos outros. Essa é a diferença fundamental.
A liberdade não é gostar todos da mesma coisa. É podermos escolher. E enquanto houver toureiros dispostos a enfrentar o touro, cavaleiros a entrar na arena, forcados a dar a cara, ganadeiros a preservar o touro bravo e público a encher as praças, a tauromaquia continuará a ser uma realidade cultural portuguesa. Pode ser discutida. Pode ser criticada. Pode ser aperfeiçoada. Mas não deve ser apagada por decreto.
Porque uma sociedade que respeita as suas raízes não precisa de destruir o passado para construir o futuro. E porque, numa democracia verdadeiramente livre, ninguém deve ter o poder de decidir que a cultura dos outros deixou de ter o direito de existir.

Zeferino Boal define-se, ele próprio, como um cidadão, angolano e português, livre pensador e de ação cívica. Com carreira militar na FAP e formação na área da gestão, desempenhou funções públicas, políticas, desportivas e privadas de que se orgulha de terem sido marcadas sempre pela dedicação e responsabilidade.









