Pedro Passos Coelho 001

E se o tempo das vésperas acabasse e Passos Coelho voltasse?

Portugal precisa de decidir se quer continuar a gerir a decadência a prestações ou se ainda tem coragem para enfrentar o futuro. Há perguntas que incomodam porque obrigam a olhar para aquilo que muitos preferem não discutir. Esta é uma delas: e se Pedro Passos Coelho voltasse?

Não falo de um regresso anunciado, nem de uma candidatura que ninguém confirmou. Falo de uma hipótese política que merece ser colocada, sobretudo quando Portugal parece viver num permanente estado de expectativa: espera por melhores salários, por médicos, por casas a preços comportáveis, por uma justiça que funcione e por um Estado que deixe de complicar a vida a quem trabalha, investe e paga impostos.

Vivemos de anúncios, promessas e medidas apresentadas como históricas, mas que tantas vezes ficam aquém das necessidades reais dos portugueses. A cada novo ciclo político, renova-se a esperança de que desta vez será diferente. Depois, a realidade encarrega-se de demonstrar que governar não é anunciar e que a popularidade de hoje pode ser a desilusão de amanhã.

Portugal parece ter-se especializado em preparar o futuro sem nunca chegar verdadeiramente a construí-lo. E se estivesse na altura de acabar com as vésperas?

O incómodo de Passos Coelho

Pedro Passos Coelho continua a ser uma figura que divide opiniões. Para uns, representa a memória de uma austeridade demasiado dura. Para outros, simboliza uma liderança que, perante uma crise financeira gravíssima, aceitou tomar decisões que outros dificilmente quereriam assumir.

O seu Governo ficou associado a sacrifícios reais, a dificuldades sociais profundas e a medidas que marcaram uma geração. Não vale a pena esconder essa realidade, nem reescrever a História para servir conveniências políticas.

Mas também não vale a pena fingir que os problemas que hoje enfrentamos nasceram ontem ou que desapareceram com a saída de cena de quem os enfrentou num dos períodos mais difíceis da democracia portuguesa.

A questão não é saber se Passos Coelho teve sempre razão. Não teve, como nenhum governante terá. A questão é perceber por que razão a possibilidade do seu regresso continua a provocar debate, mesmo depois de tantos anos fora da liderança partidária.

Talvez porque, num tempo em que a política parece demasiadas vezes reduzida à gestão das sondagens, dos equilíbrios parlamentares e da próxima eleição, há quem sinta falta de uma discussão frontal sobre escolhas, responsabilidades e consequências.

Passos Coelho representa, para os seus apoiantes, uma determinada ideia de exigência política. Para os seus críticos, representa o risco de repetir erros e sacrifícios que não querem voltar a viver. É precisamente entre estas duas leituras que importa discutir o seu legado, sem idolatrias nem condenações automáticas.

Governar não é distribuir esperança

Um dos maiores problemas da política contemporânea é a facilidade com que se promete aquilo que o País gostaria de ouvir e a dificuldade com que se explica aquilo que o País precisa de saber.

É fácil anunciar mais apoios. É fácil prometer melhores serviços públicos. É fácil garantir que ninguém ficará para trás. Difícil é explicar como se financiam essas promessas, como se aumenta a produtividade, como se reformam estruturas ineficientes e como se garante que o dinheiro dos contribuintes produz resultados.

Portugal não pode continuar a confundir despesa com progresso, anúncio com execução ou estabilidade política com ausência de problemas.

Temos uma população envelhecida, dificuldades de acesso à habitação, serviços públicos sob pressão, salários que continuam a ser insuficientes para muitos trabalhadores e jovens que olham para o estrangeiro como uma oportunidade que não encontram no próprio País.

Perante este cenário, a pergunta não pode ser apenas quanto mais o Estado pode gastar. Tem de ser também como pode funcionar melhor, criar condições para o crescimento económico e assegurar que o esforço dos portugueses se traduz em resultados concretos.

Um País que não enfrenta os seus problemas estruturais acaba por transformar cada dificuldade numa emergência e cada emergência numa nova promessa.

É este ciclo que precisa de ser quebrado.

O que teria Passos Coelho para dizer ao País?

Se Pedro Passos Coelho regressasse à primeira linha política, não lhe bastaria recordar o período em que governou, invocar as dificuldades que encontrou ou apresentar-se como alternativa aos protagonistas atuais. Teria de responder a perguntas concretas.

Que reformas faria para tornar o Estado mais eficiente? Como aumentaria os salários sem comprometer a competitividade das empresas? Como enfrentaria a crise da habitação? Que soluções apresentaria para a saúde e para a educação? Como conciliaria a responsabilidade financeira com a proteção dos cidadãos mais vulneráveis? E, sobretudo, que garantias daria de que aprendeu com os erros e limitações da sua própria governação?

O passado pode conferir experiência, mas não concede um mandato antecipado. A experiência só tem valor quando é transformada em capacidade para responder a novos problemas.

Um eventual regresso teria de ser mais do que uma reação às insuficiências do presente. Teria de constituir um projeto para o futuro, com propostas, equipa, prioridades e coragem para explicar os custos das decisões. Não bastaria regressar. Seria necessário demonstrar para quê.

E os que estão hoje no poder?

A possibilidade de um regresso também coloca uma questão incómoda aos protagonistas atuais: estarão a conseguir oferecer aos portugueses uma visão mobilizadora para o País?

A resposta não pode depender exclusivamente de indicadores escolhidos para valorizar a ação governativa, nem de comparações convenientes com governos anteriores. Tem de ser encontrada na vida quotidiana das pessoas.

Na facilidade — ou dificuldade — de conseguir uma consulta. Na possibilidade de comprar ou arrendar uma casa. No rendimento disponível ao fim do mês. Na capacidade de uma empresa crescer. Na perspetiva de um jovem construir a sua vida em Portugal. É aí que a política é verdadeiramente julgada.

Nenhum Governo pode ser responsabilizado isoladamente por todos os problemas nacionais, muitos dos quais resultam de décadas de decisões, omissões e reformas adiadas. Mas nenhum Governo pode reclamar o mérito dos resultados positivos e atribuir sempre a terceiros a responsabilidade pelos problemas que persistem. A responsabilidade política não pode funcionar apenas quando convém.

Se o presente não consegue oferecer respostas convincentes, é natural que o passado volte a ser convocado para o debate. Não porque o passado seja necessariamente melhor, mas porque a insatisfação com o presente abre espaço a alternativas.

Portugal precisa de líderes, não de salvadores

Seria um erro transformar Pedro Passos Coelho numa espécie de solução providencial. Portugal não precisa de um salvador, nem de uma figura que concentre em si todas as esperanças e dispense o debate sobre propostas e resultados. Precisa de instituições sólidas, partidos capazes de se renovar, dirigentes preparados e cidadãos exigentes. Mas também precisa de lideranças que não confundam prudência com imobilismo, diálogo com adiamento permanente ou responsabilidade com a arte de evitar decisões difíceis.

A política exige capacidade de negociação, mas exige igualmente direção. Exige sensibilidade social, mas também rigor. Exige ambição, mas não pode viver de ilusões. O problema não é a existência de divergências sobre o caminho a seguir. O problema começa quando se deixa de discutir seriamente o destino que queremos alcançar.

É por isso que o eventual regresso de Passos Coelho, se alguma vez se concretizar, deverá ser avaliado pelas respostas que apresentar e não apenas pelas memórias que desperta. O mesmo critério deve aplicar-se a todos os que pretendam governar.

O fim das vésperas

Talvez a verdadeira questão não seja se Pedro Passos Coelho volta. Talvez seja perceber por que razão tantos portugueses continuam à espera de uma mudança que tarda em chegar. Há quanto tempo ouvimos falar da reforma do Estado? Quantas vezes se prometeu resolver os problemas da habitação? Quantas estratégias foram anunciadas para valorizar os salários, modernizar a economia e melhorar os serviços públicos?

Portugal não sofre de falta de diagnósticos. Sofre, demasiadas vezes, da incapacidade de os transformar em decisões consistentes, execução e resultados.

O País não precisa de viver permanentemente entre a promessa e a desilusão. Precisa de saber para onde vai, que sacrifícios são necessários, que prioridades são inegociáveis e que resultados pode legitimamente exigir aos seus governantes.

Pedro Passos Coelho poderá regressar ou não. Essa decisão pertence-lhe. Mas a hipótese do seu regresso coloca o sistema político perante uma interrogação que não deve ser ignorada: haverá espaço para uma liderança que volte a colocar as reformas, a responsabilidade e a exigência no centro do debate nacional? Se houver, essa liderança terá de provar que sabe olhar para o futuro sem ficar prisioneira do passado. Se não houver, continuaremos provavelmente a assistir ao mesmo espetáculo: governos a gerir o imediato, partidos a preparar a próxima eleição e cidadãos a adiar projetos de vida à espera de melhores condições.

O drama português não é a falta de políticos que prometam um futuro melhor. É a dificuldade em encontrar quem transforme essas promessas num caminho credível, sustentado e duradouro. E talvez seja por isso que a pergunta continua a fazer sentido.

E se o tempo das vésperas acabasse e Passos Coelho voltasse? Mais do que esperar por um nome, importa exigir uma resposta. Porque Portugal não pode continuar eternamente à espera de si próprio.

Zeferino Boal define-se, ele próprio, como um cidadão, angolano e português, livre pensador e de ação cívica. Com carreira militar na FAP e formação na área da gestão, desempenhou funções públicas, políticas, desportivas e privadas de que se orgulha de terem sido marcadas sempre pela dedicação e responsabilidade.

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