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Narana Coissoró…

Um homem que a política partidária quis afastar — mas que a História não pode esquecer

Há personalidades que conhecemos através dos livros, dos jornais, dos discursos parlamentares ou das imagens que ficaram registadas na História. E há outras que temos o privilégio de conhecer de perto, de ouvir durante horas, de acompanhar na estrada, à mesa de um restaurante ou numa conversa aparentemente banal. Narana Coissoró foi uma destas pessoas — e a sua morte, aos 94 anos, obriga também a revisitar uma parte da história política portuguesa que muitos prefeririam manter no silêncio.

Tudo aquilo que hoje conheço da sua personalidade, da sua inteligência, das suas convicções, das suas fragilidades e, sobretudo, da sua extraordinária capacidade de compreender a política, resultou de uma circunstância que considero uma das maiores sortes da minha vida política: ter tido o privilégio de conviver de perto com ele.

Conheci-o verdadeiramente a partir de janeiro de 2002, quando, na sequência da demissão de António Guterres, foram convocadas eleições legislativas para 17 de março desse ano. Eu tinha acabado de ingressar no CDS-PP. Fui eleito, praticamente de imediato, para a Mesa do Congresso e, numa demonstração de confiança que hoje, olhando para trás, considero quase surpreendente, foi-me atribuída a responsabilidade de coordenar a campanha eleitoral no distrito de Setúbal.

Tinha chegado há pouco mais de um mês a um partido histórico da democracia portuguesa e fui colocado perante uma realidade que rapidamente percebi ser muito diferente daquela que imaginava. As estruturas partidárias no distrito estavam profundamente debilitadas. Muitos dos militantes que constavam dos cadernos praticamente não existiam enquanto militantes ativos. Faltavam organização, meios, recursos humanos e, sobretudo, uma verdadeira estrutura de campanha.

Foi nesse contexto que Narana Coissoró foi indicado como cabeça de lista pelo distrito de Setúbal. E a história demonstrou que aquilo que alguns poderiam imaginar como uma candidatura destinada a afastá-lo acabou por produzir o resultado contrário: Narana foi eleito deputado pelo CDS-PP em Setúbal. O partido conquistou naquele distrito um único mandato e esse mandato foi precisamente o seu.

Hoje, olhando para aquele momento, continuo a considerar que aquela escolha foi uma espécie de presente envenenado. Para ele e para mim. Para Narana, porque a sua candidatura a Setúbal não era apenas uma candidatura eleitoral. Era também, na minha leitura, uma forma de o afastar progressivamente do centro da vida política partidária. Para mim, porque, recém-chegado ao partido, fui colocado ao lado de uma das personalidades mais controversas, inteligentes e incómodas do CDS-PP, assumindo simultaneamente funções de diretor de campanha, conselheiro, secretário e tudo aquilo que fosse necessário para fazer a campanha acontecer. E foi assim que começámos.

Durante quase um mês, percorremos praticamente todo o distrito de Setúbal. Foram milhares de quilómetros. Ao todo, terão sido cerca de 10.000 quilómetros percorridos entre deslocações, reuniões, iniciativas, contactos políticos e ações de campanha. Almoçámos juntos. Jantámos juntos. Viajámos juntos. Conversámos durante horas. E foi nessas viagens, muito mais do que nas reuniões formais, que comecei verdadeiramente a conhecer Narana Coissoró.

Aos 73 anos, tinha uma experiência política que eu não possuía e uma capacidade de leitura dos acontecimentos que muitas vezes me deixava surpreendido. Eu chegava com a energia de quem acabara de entrar na política partidária. Ele chegava com décadas de experiência. Eu queria perceber como funcionavam as coisas. Ele sabia como funcionavam. E, muitas vezes, sabia também aquilo que estava por trás daquilo que parecia estar a acontecer.

O pequeno-almoço que selou um pacto

Há uma conversa que nunca esqueci. Depois do Congresso de Lisboa, num período particularmente intenso da vida interna do CDS-PP, tomámos um pequeno-almoço. Olhei para o Professor Doutor Narana Coissoró e fiz-lhe uma pergunta muito simples:

— Professor, quer ser eleito?

A resposta foi imediata. Disse-me, em substância, que queria ser eleito e que queria ajustar contas politicamente com aqueles que, em seu entender, o queriam afastar e que gravitavam em torno de Paulo Portas. A frase foi dura, crua e absolutamente Narana.

Naquele momento percebi que estávamos perante algo mais do que uma simples campanha eleitoral. Havia uma história interna. Havia ressentimentos acumulados. Havia uma luta pelo espaço político. E havia, sobretudo, uma personalidade que não estava disposta a desaparecer silenciosamente.

Foi ali que, entre nós, se estabeleceu uma espécie de pacto. Eu faria tudo o que estivesse ao meu alcance para que ele fosse eleito. Ele confiaria em mim. E aquilo que acontecesse na campanha ficaria entre nós.

A campanha impossível

A partir desse momento, começaram a acontecer coisas que, ainda hoje, considero difíceis de explicar apenas pela lógica de uma campanha eleitoral. Recebi telefonemas para cancelar iniciativas. Houve situações em que atividades previamente preparadas foram desmontadas. Houve propaganda que desapareceu ou foi retirada. Houve mentiras. Houve decisões tomadas dentro do próprio partido que, objetivamente, prejudicavam a candidatura do cabeça de lista. E tudo isto acontecia enquanto, oficialmente, Narana Coissoró era o candidato que o partido apresentava para conquistar um mandato em Setúbal.

Mas Narana não apenas foi eleito. Em 9 de abril de 2002, poucos dias depois de tomar posse a IX Legislatura, voltou a ocupar a Vice-Presidência da Assembleia da República. O Parlamento regista a sua eleição para a Mesa, ao lado de Leonor Beleza, Manuel Alegre e Lino de Carvalho.

Era uma resposta política extraordinariamente clara: o homem que alguns queriam empurrar para a margem regressava ao centro institucional da República. E fazia-o depois de mais de uma década a liderar a bancada parlamentar do CDS, entre 1978 e 1991 — treze anos de liderança parlamentar que fazem parte da história do partido e da própria consolidação democrática portuguesa.

Era uma contradição difícil de compreender.

Por um lado, havia quem aparentemente quisesse afastá-lo da política partidária. Por outro, quando era necessário dinheiro para o partido ou para campanhas eleitorais, essas mesmas pessoas sabiam perfeitamente a quem telefonar.

Narana tinha contactos. Tinha credibilidade. Tinha capacidade de mobilização. E tinha uma rede de relações construída ao longo de décadas. Quando era preciso, procuravam-no. Quando já não era preciso, criticavam-no. Essa foi uma das primeiras grandes lições que aprendi com ele sobre a política partidária.

Os jovens turcos

Narana conhecia profundamente a história do CDS. Tinha acompanhado a ascensão de muitos daqueles que, entretanto, se apresentavam como os novos donos do partido. Alguns eram jovens quando ele já tinha décadas de intervenção política. E havia uma tensão evidente entre uma geração que conhecia a história do partido e uma nova geração que queria conquistar rapidamente o seu espaço.

Narana trouxe para o partido jovens que ajudou a crescer. Alguns desses jovens acabariam, posteriormente, por se posicionar contra ele. Um deles, particularmente próximo de Narana e por ele próprio introduzido no partido, acabaria por lhe passar a perna. É uma das ironias mais cruéis da política: muitas vezes, aqueles que ajudamos a crescer são os primeiros a tentar ocupar o lugar que ajudámos a construir.

Não vou aqui antecipar nomes. Não porque os desconheça. Conheço-os. E existem documentos. Um dia, quando for oportuno e quando a documentação puder ser devidamente apresentada, muitos desses episódios poderão ser conhecidos. A História política não se faz apenas de discursos públicos. Também se faz dos documentos que ficaram guardados, das cartas, das mensagens, dos testemunhos e das pessoas que estiveram lá.

Dez mil quilómetros de aprendizagem

Para mim, aquela campanha foi uma verdadeira escola. Não uma escola de teoria política. Uma escola de política real. Aprendi muito mais dentro daquele automóvel, percorrendo Setúbal com Narana Coissoró, do que em muitas reuniões partidárias.

Aprendi a distinguir aquilo que se diz daquilo que realmente se pensa. Aprendi que uma coisa é a solidariedade partidária e outra, muito diferente, são os interesses internos. Aprendi que os partidos podem ser extraordinárias máquinas de mobilização democrática, mas também podem transformar-se em espaços de intriga, exclusão e sobrevivência pessoal. E aprendi uma coisa ainda mais importante: a política perde quando substitui a experiência e a personalidade por carreiras construídas exclusivamente dentro das estruturas juvenis partidárias.

Foi precisamente isso que, a meu ver, aconteceu progressivamente no CDS-PP. Personalidades foram sendo substituídas. Experiência foi sendo desvalorizada. A memória do partido foi-se perdendo. E os chamados “jovens turcos”, muitos deles provenientes da Juventude Popular, foram conquistando espaço.

O problema não está em ser jovem. Nunca esteve. O problema está em acreditar que a juventude, por si só, substitui a experiência, a cultura política, a capacidade intelectual e a memória histórica. E é aqui que a história de Narana se torna politicamente incómoda. Porque os partidos que afastam as suas próprias personalidades acabam, muitas vezes, por perder aquilo que não conseguem fabricar: memória, autoridade, experiência e identidade.

Narana podia ser incómodo. Podia ser duro. Podia não agradar. Mas tinha uma coisa que nenhuma máquina partidária consegue produzir por decreto: dimensão política.

Foi deputado em oito legislaturas, liderou o Grupo Parlamentar do CDS durante 13 anos e exerceu a Vice-Presidência da Assembleia da República até 2005. Não estamos, portanto, a falar de uma figura menor de um partido. Estamos a falar de uma das personalidades que ajudaram a construir a presença parlamentar do CDS e uma parte importante da democracia portuguesa.

Narana para além da política

Mas reduzir Narana Coissoró à sua vida partidária seria cometer uma enorme injustiça. Narana era muito mais do que o político. Era um homem de cultura. Era um intelectual. Era um professor. Era alguém com uma enorme capacidade de argumentação e uma memória política extraordinária.

Tinha defeitos, naturalmente. Tinha feitio. Tinha posições fortes. Podia ser incómodo. Podia ser corrosivo. Podia ser politicamente inconveniente. Mas nunca foi uma pessoa indiferente. E talvez seja essa uma das características que mais faltam à política contemporânea: pessoas que tenham coragem de ser incómodas.

Durante cerca de uma década, continuámos a conversar. A relação construída naquele período não terminou com a campanha eleitoral. Pelo contrário. A campanha foi apenas o princípio.

Ao longo dos anos, fui ouvindo histórias, conhecendo episódios, percebendo relações e descobrindo uma parte da política portuguesa que raramente aparece nas fotografias oficiais. E, sobretudo, fui percebendo que aquele homem de 73 anos tinha muito para ensinar a alguém que acabava de entrar na política.

A honra de o ter conhecido

Hoje, olhando para trás, não tenho dúvidas de que foi uma honra ter conhecido Narana Coissoró daquela forma. Não o conheci apenas como deputado. Não o conheci apenas como professor. Não o conheci apenas como dirigente partidário. Conheci o homem.

Percorri com ele milhares de quilómetros. Partilhei refeições. Partilhei preocupações. Partilhei vitórias e derrotas. Ouvi histórias que provavelmente nunca serão contadas. E assisti, muitas vezes, àquilo que acontece nos bastidores da política enquanto, em público, todos fingem que nada está a acontecer.

Narana ensinou-me muito. Ensinou-me sobre política. Ensinou-me sobre pessoas. Ensinou-me sobre lealdade. E ensinou-me, sobretudo, que a política partidária pode ser um lugar extraordinário para servir o país, mas também pode revelar o pior das ambições humanas.

Não me arrependo de ter entrado naquele carro. Não me arrependo dos 10.000 quilómetros. Não me arrependo das horas de conversa. E não me arrependo do pacto que naquele pequeno-almoço fizemos. Porque, independentemente do resultado eleitoral e de tudo aquilo que aconteceu posteriormente, ganhei uma coisa que não aparece em nenhum boletim de voto: a oportunidade de conhecer verdadeiramente Narana Coissoró.

Uma memória que não pode desaparecer

Narana acabou por ser afastado da política partidária, como muitos daqueles que não se submetem facilmente às lógicas internas acabam por ser. Mas a tentativa de o empurrar para fora do espaço partidário não apagou a sua dimensão política. Pelo contrário: em 2002, Setúbal elegeu-o, e poucos dias depois a Assembleia da República voltou a escolhê-lo para a sua Vice-Presidência.

Mas uma coisa é ser afastado de uma estrutura partidária. Outra é ser apagado da História. E isso não deveria acontecer.

A vida de Narana Coissoró merece ser contada. Merece ser estudada. Merece ser discutida. E merece ser conhecida pelas novas gerações. Não apenas pelos cargos que ocupou, pelos discursos que proferiu ou pelos anos em que esteve no Parlamento. Mas pelo homem que foi. Pela inteligência que tinha. Pela cultura que transportava. Pela coragem de dizer o que pensava. Pelas contradições que também fizeram parte da sua personalidade. E pela marca que deixou na democracia portuguesa.

Eu tive o privilégio de conhecer uma parte dessa história. Uma parte que não está nos livros. Uma parte que vivi. E talvez seja precisamente por isso que, um dia, quando os documentos puderem falar e as memórias puderem ser confrontadas com os factos, seja importante contar aquilo que aconteceu. Não para ajustar contas. Mas para preservar a memória.

Porque a História de um partido e de uma democracia não é feita apenas pelos vencedores. É também feita por aqueles que, em determinado momento, foram incómodos demais para serem tolerados. Narana Coissoró foi, sem dúvida, um deles.

A política que não aparece nas fotografias

É por isso que hoje não consigo escrever sobre Narana apenas como quem presta homenagem a um homem que morreu. Escrevo também como testemunha de uma época.

Durante quase um mês, percorremos Setúbal praticamente os dois. Foram cerca de 10.000 quilómetros, muitas refeições, muitas reuniões e muitas horas de conversa. Eu era um recém-chegado ao CDS-PP; ele carregava décadas de história política. E foi nessa diferença de idades e de experiência que nasceu uma relação que me marcou profundamente.

Vi de perto o que significava ter um partido com estruturas frágeis, dirigentes em conflito e uma distância crescente entre a imagem pública e aquilo que se passava nos bastidores. Vi também a contradição de um partido poder querer afastar uma personalidade e, simultaneamente, recorrer a essa mesma personalidade quando precisava da sua influência, dos seus contactos ou da sua capacidade para encontrar financiamento. Narana conhecia essa realidade. Eu estava a começar a conhecê-la. E foi ele quem me ensinou a olhar para a política para além do palco.

Talvez seja essa a razão pela qual a sua memória me incomoda tanto — no melhor sentido da palavra. Porque obriga a fazer perguntas.

O que aconteceu às grandes personalidades do CDS? Porque é que um partido que teve homens e mulheres com cultura, experiência, coragem e pensamento político foi progressivamente substituindo essas referências por carreiras construídas dentro das juventudes partidárias? Porque é que a experiência passou a ser vista como um obstáculo e a lealdade interna tantas vezes se tornou mais importante do que a competência?

Narana Coissoró não tinha respostas para tudo. Mas tinha coragem para fazer perguntas. E, na política, essa pode ser uma das formas mais perigosas de independência.

Hoje, depois da sua morte, é fácil transformar Narana numa figura consensual, colocá-lo numa fotografia antiga e dizer que foi um histórico dirigente. Eu prefiro recordá-lo de outra maneira. Recordá-lo dentro de um carro, a atravessar o distrito de Setúbal. À mesa, a discutir política. Ao telefone, a resolver problemas. E, sobretudo, a dizer aquilo que muitos pensavam mas poucos tinham coragem de dizer.

Foi uma honra conhecê-lo. Foi uma honra caminhar politicamente ao seu lado. E foi também uma escola. Uma escola sobre a política portuguesa. Sobre o CDS. Sobre lealdades e traições. Sobre poder. E sobre uma verdade que os partidos deveriam nunca esquecer: podem afastar pessoas, podem tentar reescrever a sua história e podem substituir gerações. Mas não conseguem apagar aqueles que ajudaram a construir a sua própria história. Narana Coissoró pertence a essa história. E agora cabe também a quem o conheceu impedir que ela seja contada apenas pelos vencedores.

Zeferino Boal define-se, ele próprio, como um cidadão, angolano e português, livre pensador e de ação cívica. Com carreira militar na FAP e formação na área da gestão, desempenhou funções públicas, políticas, desportivas e privadas de que se orgulha de terem sido marcadas sempre pela dedicação e responsabilidade.

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