Após duas horas de discussão da eliminatória dos quartos-de-final da Taça de Portugal, literalmente marcada por sangue, suor e lágrimas, o Sporting conseguiu ultrapassar a formação do AFS, com um triunfo por 3-2 alcançado apenas no final de um prolongamento a que as duas equipas foram obrigadas após o empate a dois golos registado no final do tempo regulamentar. Numa noite em Alvalade, o coração leonino acabou por aquecer, após uma angústia prolongada que quase se transformou em pesadelo.
O Sporting garantiu o bilhete para as meias-finais da Taça de Portugal, onde defrontará o FC Porto, mas o caminho foi tudo menos régio. Foi um labirinto de emoções, um teste de nervos de aço que só foi superado aos 117 minutos, pela frieza de Geny Catamo. O 3-2 final, após prolongamento, esconde uma narrativa de quase queda, de resiliência do AFS e, sobretudo, de um momento de puro horror que calou o estádio quando o ponta-de-lança francês Antoine Baroan, de 25 anos, jogador contratado no mercado de inverno ao Rapid de Bucareste que o AFS que estreou neste jogo e que sofreu uma gravíssima lesão, acabando por sair das quatro linhas de maca com uma fratura exposta na perna esquerda.









Luís Guilherme estreou-se
a marcar pelos leões
Os 21.474 espectadores – uma das mais baixas assistências da época em Alvalade – que enfrentaram o frio esperavam um caminho mais linear no percurso do Sporting ao longo deste jogo. E, durante uma hora, assim parecia. Com Ricardo Mangas e o jovem Luís Guilherme a incendiarem as alas, o domínio leonino materializou-se primeiro no golo do brasileiro, aos 30 minutos, fruto de uma construção trabalhada que terminou com o golo de estreia do jogador contratado ao West Ham agora com a camisola verde e branca. Depois, aos 50 minutos, a presença de Luis Suárez na pequena-área levou a que Paulo Vítor, na tentativa de defender, enviasse a bola para dentro da baliza do AFS, num autogolo que colocava os leões a vencer por 2-0 e deixava a ideia generalizada de que a eliminatória estava no bom caminho para o Sporting.
Só que os homens do AFS continuaram a acreditar e a Taça de Portugal provou que pode mesmo ser uma competição caprichosa com voltas menos esperadas. A permitir essas mesmas voltas acabou por estar o VAR que, por duas vezes, encontrou grandes penalidades que permitiram ao AFS surpreender e repor a igualdade. Primeiro, aos 62 minutos, um braço de Morten Hjulmand ditou a primeira penalidade, com Pedro Lima a corresponder, da marca de penálti, para reacender as esperanças do AFS.










O plano da formação da Vila das Aves, que começara por ser de contenção, ganhava um novo fôlego. No Sporting houve tempo para um enorme aplauso a Nuno Santos, o “reforço” que regressou à equipa leonina ao minuto 77′, na qual já não jogava desde Outubro de 2024 quando contraiu uma grave lesão, um regresso que trouxe um aplauso caloroso mas não conseguiu travar a nova maré avense.
Nos descontos do tempo regulamentar, veio o segundo acto de uma reviravolta que surpreendeu a formação do Sporting. Depois de um novo penálti assinalado pelo VAR a favor do AFS, novo golo, desta vez por Néné. O Sporting, que tinha o pássaro na mão, via-o voar de forma cruel, ficando na eminência de ter que jogar mais 30 minutos de um prolongamento quando tem pela frente na próxima segunda-feira o clássico com o FC Porto referente à 21.ª jornada do campeonato da I Liga.











Antoine Baroan entrou no AFS
para o pior jogo que poderia ter
Foi nesta altura que Alvalade viveu um dos momentos mais sombrios desta partida: nos instantes seguintes ao empate, um choque fortuito entre Luis Suárez e Antoine Baroan paralisou o jogo dentro e fora das quatro linhas.
A reação dos jogadores do AFS, muitos deles de mãos na cabeça, o silêncio pesado entre todos, a própria reação do colombiano do Sporting pelas consequências para o seu companheiro de profissão do lance em que ambos se envolveram, tudo indicava a gravidade. A confirmação veio depois: fratura exposta na perna esquerda do jogador do AFS, na sua estreia pela equipa. A imagem da maca a sair das quatro linhas foi um balde de água gelada, um lembrete brutal da crueza que por vezes habita este desporto.









O prolongamento chegou com o peso da lesão horrível de Baroan e com o Sporting psicologicamente abalado por ter deixado escapar uma vitória já saboreada. O AFS, por seu turno, reduzido a dez até à entrada de Jaume Grau – será correto dizer que fico mesmo reduzido a nove já que Pedro Lima jogaria a partir dali agarrado a uma perna que só dificilmente conseguia mover, mostrou uma garra imensa.
O Sporting vacilou: Suárez viu um golo anulado por fora-de-jogo, Bertelli defendeu o que parecia indefensável, a trave afastou um remate de João Simões e nada desfazia o empate a dois golos, um resultado que parecia o prelúdio para uma possível derrota por penáltis.









Golo de Gany Catamo desatou
o nó górdio desta eliminatória
Até que, a três minutos do fim do prolongamento, entrou em cena Geny Catamo, ele que foi chamado ao jogo por Rui Borges a partir do banco de suplentes. Recebeu a bola pelo lado direito, invadiu a área com determinação e, num remate seco e colocado ao primeiro poste, acabou com o suplício dos leões.
O Sporting conseguia assim o golo da libertação, ainda mais importante porque validou a passagem dos leões às meias-finais da Taça de Portugal, ainda que não tenha apagado o sabor agridoce da noite.







O Sporting avança nesta competição, sim, em Alvalade não houve “tomba-gigantes” e os leões terão pela frente um clássico a duas mãos com o FC Porto. Mas deixou as pouco preenchidas bancadas de Alvalade geladas com lições caras: a de que nada está garantido até ao apito final, e a de que, por vezes, a vitória tem um preço que transcende o resultado. A passagem foi conquistada a sangue, suor, lágrimas e ao som estridente do apito do VAR. Uma noite para ganhar por parte do grupo de trabalho verde e branco às ordens de Rui Borges, mas definitivamente não para celebrar.









