Quando o relógio marcava 90+6 minutos e o empate parecia uma inevitabilidade penalizadora para as ambições do Benfica, eis que apareceu Franjo Ivanovic para desatar o nó. O avançado croata, saltando do banco, recebeu um cruzamento perfeito de Prestianni e, com um remate colocado, selou uma reviravolta tão dramática quanto sofrida (1-2), num jogo que teima em não sair da retina de quem o viu na Serra da Freita. Foi a lei do antigo jogo, numa noite em que a equipa orientada à distância por José Mourinho — a cumprir castigo — parecia caminhar para mais um desaire, mas encontrou nos suplentes a redenção que os titulares não conseguiam alcançar.
O agora ‘Pratical One’, como já o chamámos aqui no passado, viu o jogo de longe, ou melhor, de algum lado que não o banco de suplentes, depois de o Conselho de Disciplina lhe ter negado o efeito suspensivo do recurso à expulsão no clássico. Ora, sem o técnico no comando direto das operações, a equipa sentiu a ausência. O onze apresentado por Mourinho à distância, com quatro alterações face ao jogo com o FC Porto — incluindo a estreia a titular de Lukebakio na I Liga e as entradas de Bah, António Silva e Leandro Barreiro —, revelou-se um corpo sem alma na primeira parte. A equipa sentiu dificuldades em interpretar o que o jogo pedia.
O Arouca, bem oleado por Vasco Seabra, entrou a mil. Aos 5 minutos, a bomba rebentou: António Silva cortou com o braço dentro da área e, após revisão do VAR, houve mesmo espaço para a marcação de um castigo máximo. Chamado a bater, Barbero converteu o penálti e colocou o Arouca na frente do marcador, num jogo em que a vantagem caseira era justa. O Arouca explorava como queria o espaço entre as linhas do meio-campo benfiquista, com Ríos e Barreiro a cair constantemente no engodo de perseguir adversários, deixando um homem livre para receber e rodar.





Rafa e Pavlidis: dois vultos apagados
Enquanto Schjelderup ia sacudindo a nódoa negra que se abateu sobre a equipa — sendo, de longe, o elemento mais lúcido e perigoso do ataque encarnado —, dois dos homens mais experientes do setor ofensivo voltaram a passar ao lado do jogo, por vezes atrapalhando mais do que construindo. Rafa, tentando movimentos de rutura, esteve sempre um segundo atrasado. Aos 45+4 minutos, num dos seus raros rasgos, Bah lançou-o na profundidade, mas o avançado, já sem ângulo, permitiu a defesa de Arruabarrena e atirou à malha lateral. Foi o retrato de uma noite cinzenta para o camisola 27.
Do outro lado, Vangelis Pavlidis, o goleador que já deixou jogos grandes na história do clube, andou arredado do espetáculo. Isolado, sem ligação ao meio-campo e com pouca capacidade para segurar jogo de costas para a baliza, o grego pouco ou nada produziu. Uma tentativa de remate aos 57 minutos, após contra-ataque, saiu ao lado, confirmando que a sua noite era para esquecer.




A reviravolta e a noite dos suplentes
Ao intervalo, a toada mudou ligeiramente. Aos 50 minutos, Lukebakio obrigou Arruabarrena a grande defesa e, no canto subsequente, Schjelderup colocou a bola na cabeça de Richard Ríos. O colombiano, sem precisar de saltar, cabeceou para o empate. O jogo rejuvenesceu, mas a verdade é que o Benfica não conseguia assumir o controlo absoluto. Pior: o Arouca continuava a criar mais perigo, com Nandín a assustar Trubin por duas vezes nos minutos 81 e 84.
Foi então que o banco falou mais alto. Mourinho, que já tinha apostado entretanto em Anísio, lançou Ivanovic e Prestianni, e foi esta dupla quem decidiu o jogo. Quando os seis minutos de descontos já iam longos, Leandro Barreiro aguentou a carga no meio-campo e serviu Prestianni na esquerda. O argentino cruzou açucarado ao segundo poste e Ivanovic, com a frieza de quem aparece no sítio certo, rematou de primeira, cruzado, fazendo a bola bater no poste contrário antes de sobrar para dentro da baliza e beijar a rede. Era o golo da vitória, num misto de explosão de alegria para os encarnados e de injustiça para os números do jogo.



No meio da confusão final, com direito a troca de agressões entre Dedic e Trezza em pleno relvado, com expulsão para ambos, ficou a certeza de que o Benfica de Mourinho, mesmo ausente, tem pulso para aguentar a pressão. Desta vez, a qualidade individual saiu do banco. E foi ela, personificada em Ivanovic e Prestianni, que valeu dois pontos de ouro na luta pelos lugares cimeiros. O Arouca de Vasco Seabra ainda sonhou com a conquista de pontos a um dos grandes do campeonato português, esteve perto disso e até o justificou, mas no final ganharam aqueles que apostaram nas ‘odds’ naturalmente mais baixas.









