Jorge Jesus não podia esquecer quem lhe abriu a porta.
Há momentos no futebol em que as decisões ultrapassam o resultado de um jogo. Há gestos que, pela dimensão dos protagonistas, exigem bom senso, memória e, sobretudo, respeito. Cristiano Ronaldo não é apenas mais um jogador da Seleção Nacional, é uma das maiores figuras da história do futebol português e uma personalidade cuja dimensão ultrapassou há muito as quatro linhas. O próprio Jorge Jesus, quando assumiu o comando do Al-Nassr, reconheceu publicamente que, sem o convite de Cristiano Ronaldo, provavelmente não teria regressado à Arábia Saudita. Mais do que isso: Jesus assumiu como missão ajudar Ronaldo a conquistar o título saudita que lhe faltava. E conseguiram-no juntos!
Não se trata, portanto, de defender que Cristiano Ronaldo deve jogar sempre. Não é disso que se trata. Um treinador tem o direito — e o dever — de tomar decisões. Cristiano Ronaldo, pela sua carreira, também sabe que nenhum jogador pode estar acima da equipa. Mas há uma diferença enorme entre exercer autoridade e esquecer a dimensão humana e simbólica de quem está à nossa frente.
Jorge Jesus conhecia Cristiano Ronaldo antes de chegar à Seleção. Conhecia a sua personalidade, a sua dimensão competitiva e, sobretudo, conhecia a relação que ambos haviam construído no Al-Nassr. Foi Ronaldo quem lhe abriu aquela porta, foi com Ronaldo que Jesus conquistou o campeonato saudita e foi o próprio treinador que, antes de assumir a Seleção, descreveu Cristiano como um símbolo do futebol português e de Portugal. Por isso, o que aconteceu agora deixa uma enorme sensação de desconforto.
Cristiano Ronaldo foi convocado. Foi titular frente ao País de Gales, frente à Noruega ficou no banco, aqueceu durante o jogo e acabou por não entrar. Posteriormente, o próprio Jorge Jesus explicou que tinha pensado utilizá-lo durante cerca de meia hora, mas que a evolução do encontro o levou a tomar outra decisão. A questão não é Cristiano Ronaldo ter ficado no banco. A questão é a forma.





fotos: Maciej Rogowski / LusoNotícias
Um jogador com 41 anos, 233 internacionalizações e 146 golos por Portugal, capitão e maior goleador da história da Seleção, não pode ser tratado simplesmente como se fosse um jovem acabado de chegar à equipa nacional. Pode não jogar, pode jogar cinco minutos, pode ser substituído, pode até, um dia, deixar de ser convocado. Tudo isso faz parte do futebol, mas a forma como se gere uma figura desta dimensão também diz muito sobre quem decide.
Cristiano Ronaldo construiu, ao longo de mais de duas décadas, uma relação absolutamente extraordinária com Portugal. Levou o nome do País aos quatro cantos do mundo, tornou-se uma referência global e, goste-se mais ou menos do seu estilo, da sua personalidade ou das suas escolhas, é impossível separar Cristiano Ronaldo da história contemporânea de Portugal.
Portugal está, naturalmente, acima de qualquer jogador, mas isso não significa que Portugal deva esquecer quem tanto deu à sua Seleção. E aqui está o ponto essencial: respeitar Cristiano Ronaldo não é colocá-lo acima de Portugal. É respeitar Portugal e a história que ele próprio ajudou a construir.
Há ainda uma ironia particularmente dolorosa em tudo isto. Jorge Jesus chegou à Seleção depois de uma passagem pelo Al-Nassr em que Cristiano Ronaldo teve um papel determinante na sua chegada. O treinador cumpriu a promessa de conquistar o campeonato saudita e saiu depois de uma época de sucesso. Poucos meses depois, os dois reencontraram-se ao serviço de Portugal. Era uma história que podia ter terminado de outra maneira, com respeito mútuo, com memória, com a consciência de que, no futebol, as pessoas passam, os treinadores passam, os jogadores passam, mas a história fica.
Jorge Jesus tem todo o direito de afirmar a sua autoridade, mas autoridade não se confunde com falta de sensibilidade e independência não significa ingratidão.
Cristiano Ronaldo também não está acima da crítica, nunca esteve e nunca estará, mas há uma diferença entre criticá-lo, exigir-lhe rendimento ou decidir que deve começar um jogo no banco — e fazê-lo sentir que a sua presença pode ser gerida como a de qualquer jogador anónimo.
Cristiano Ronaldo não é um miúdo que está a aquecer junto à linha à espera de entrar e, depois, simplesmente não entra. Não pela idade, não pelo estatuto, mas por aquilo que representa.
Quando se tem diante de nós o capitão que durante mais de duas décadas vestiu a camisola de Portugal, o jogador que ajudou a Seleção a conquistar o Europeu e a Liga das Nações, o maior goleador da história nacional e uma das maiores figuras portuguesas de sempre, há uma responsabilidade adicional na forma de comunicar, gerir e respeitar. Jorge Jesus sabe disso e talvez por isso este episódio seja ainda mais difícil de compreender.
O futebol também é feito de memória, e a memória não pode funcionar apenas quando nos é conveniente. Cristiano Ronaldo ajudou Jorge Jesus quando este precisava de uma oportunidade. Jesus ajudou Ronaldo a conquistar um título que lhe faltava. Agora, quando ambos estão numa fase diferente das suas carreiras, seria desejável que prevalecesse aquilo que os uniu: respeito.
Porque no fim de tudo, ninguém está acima de Portugal. Mas também ninguém deveria ter o direito de diminuir quem tanto fez pelo País.
Cristiano Ronaldo merece respeito. Portugal merece respeito. E a história merece memória.

Zeferino Boal define-se, ele próprio, como um cidadão, angolano e português, livre pensador e de ação cívica. Com carreira militar na FAP e formação na área da gestão, desempenhou funções públicas, políticas, desportivas e privadas de que se orgulha de terem sido marcadas sempre pela dedicação e responsabilidade.









