Lula venceu as eleições presidenciais no Brasil por 1,8 pontos percentuais e terá agora de governar um país fraturado. Flávio Bolsonaro ainda afirmou a intenção de impugnar as eleições, mas o seu próprio tapete veio já reconhecer os resultado eleitorais “puxando o tapete” ao candidato derrotado. Certo é que Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente do Brasil tendo o resultado oficial do Tribunal Superior Eleitoral confirmado uma vitória magra sobre Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro: 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador. Lula somou cerca de 64,2 milhões de votos; Flávio, perto de 59,8 milhões — uma diferença de mais de quatro milhões de votos.
Flávio Bolsonaro não reconheceu a derrota de imediato. Anunciou que pretendia contestar o resultado na Justiça Eleitoral, alegando irregularidades relacionadas com a prorrogação do horário de votação determinado pelo Supremo Tribunal Federal a pedido da campanha de Lula. Pouco depois, porém, o próprio Partido Liberal (PL) veio a público reconhecer o resultado proclamado pelo TSE, contradizendo o candidato derrotado. A contestação ficou, assim, sem o suporte da estrutura partidária que o apresentou a votos.

A reviravolta entre os dois turnos tem uma explicação clara. Flávio Bolsonaro tinha vencido a primeira volta com 47,03% contra 45,16% de Lula, uma vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos, mas nas três semanas seguintes Lula acrescentou mais de dez milhões de votos ao seu total, enquanto o adversário ganhou apenas 3,6 milhões. Parte disso veio da mobilização nas ruas e, sobretudo, nas redes sociais, onde a campanha de Lula conseguiu disputar um terreno que na primeira volta tinha sido dominado pela direita.
A abstenção também caiu, de 21,08% para cerca de 19,2%, trazendo quase três milhões de eleitores adicionais às urnas. Lula recuperou ainda estados-chave como Minas Gerais, onde inverteu uma desvantagem de quase 590 mil votos numa vitória por cerca de 99 mil.
Agora começa a parte difícil. Lula vai governar com um Congresso claramente inclinado à direita: os partidos conservadores controlam 303 dos 513 lugares na Câmara dos Deputados e quase dois terços do Senado. Isso significa que cada proposta do novo governo vai exigir negociação permanente e concessões que podem desagradar à base mais à esquerda. E há a questão de fundo que nenhum resultado eleitoral resolve: metade do país votou contra ele.
Em resumo, o Brasil sai destas eleições tão fraturado como entrou, e Lula vai precisar de mais do que discursos de reconciliação para conseguir governar com um parlamento que não é seu aliado.

Em Portugal, um país onde reside uma grande comunidade brasileira, houve um detalhe que não passou despercebido: entre os brasileiros inscritos para votar em território português, Lula teve vantagem confortável em Lisboa e no Porto. A comunidade brasileira em Portugal, pelo menos a que votou, alinhou-se maioritariamente com a continuidade.









