Lisboa - Cidade

Portugal precisa de descobrir o liberal em cada português

Há uma ideia que merece ser discutida em Portugal: muitos portugueses são liberais sem saberem que o são.

Não porque tenham estudado Hayek, Mises, Locke ou outros pensadores liberais. Não porque conheçam a história do liberalismo ou dominem os seus fundamentos económicos e políticos. Mas porque, quando questionados sobre a sua própria vida, muitos defendem espontaneamente coisas profundamente ligadas ao pensamento liberal: querem decidir por si, escolher onde trabalham, onde estudam e onde colocam os seus filhos, ter uma casa, criar uma empresa, deixar aos filhos aquilo que construíram, ser recompensados pelo seu trabalho e não depender permanentemente da autorização do Estado para fazer aquilo que sabem fazer.

O problema é que as lideranças políticas e intelectuais nunca explicaram verdadeiramente aos portugueses o que é o liberalismo.

Durante décadas, liberalismo foi muitas vezes apresentado como sinónimo de egoísmo económico, de ausência do Estado, de defesa dos mais ricos ou de uma sociedade em que cada um estaria entregue a si próprio. Essa caricatura acabou por criar um paradoxo: pessoas que defendem a liberdade de escolher, a iniciativa privada, a propriedade e a responsabilidade individual acabam muitas vezes por rejeitar a palavra “liberal” porque associam o conceito a uma realidade que pouco tem a ver com aquilo que efectivamentedefendem.

O liberalismo não significa ausência de Estado. Significa um Estado com limites, competente, previsível e ao serviço dos cidadãos. A própria Iniciativa Liberal afirma actualmente que o Estado deve existir para servir os cidadãos e defende simultaneamente segurança, justiça, educação, saúde e uma rede de protecção social.

É precisamente aqui que está uma das grandes batalhas políticas do nosso tempo: explicar que liberdade e responsabilidade não são conceitos opostos à solidariedade e ao bem-estar social.

Pelo contrário.

Uma sociedade verdadeiramente livre precisa de instituições fortes, justiça independente, serviços públicos eficazes, segurança, educação de qualidade e oportunidades para que cada pessoa possa construir o seu próprio projecto de vida.

Portugal, depois de décadas de crescimento económico insuficiente, de burocracia, de excesso de centralização e de um Estado que frequentemente condiciona mais do que facilita, precisa de discutir seriamente um novo modelo de desenvolvimento.

E essa discussão não deve limitar-se a Portugal.

Os países de língua portuguesa, com realidades muito diferentes entre si, enfrentam igualmente o desafio de criar instituições mais fortes, economias mais abertas, maior previsibilidade jurídica, melhor educação, mais empreendedorismo e condições para que as novas gerações não tenham de emigrar para encontrar oportunidades.

O liberalismo pode ser uma resposta para esse desafio.

Mas, para isso, tem de ser explicado.

E aqui surge uma responsabilidade particular para a Iniciativa Liberal.

A IL conseguiu colocar no debate político temas que durante anos pareciam impossíveis: redução da carga fiscal, crescimento económico, reforma do Estado, liberdade económica e maior concorrência. O próprio partido reconhece que algumas dessas ideias passaram progressivamente a fazer parte do discurso de outros partidos.

O problema começa quando, por razões tácticas, um partido liberal começa a aproximar-se de discursos que pertencem a outras famílias ideológicas.

Uma coisa é fazer política; outra é perder a identidade para fazer política.

A estratégia pode exigir compromissos. A governação exige compromissos. O Parlamento exige compromissos. Mas compromisso não pode significar confusão ideológica.

É precisamente neste ponto que 2026 pode constituir uma oportunidade.

Num ambiente político em que o Governo parece, em diferentes momentos, aproximar-se de posições mais à direita, nomeadamente em matérias onde o discurso do Chega ganha espaço, e noutras situações adoptar soluções que tradicionalmente pertencem ao campo socialista, abre-se espaço para uma força política que diga claramente:

não somos a direita do Chega, não somos a esquerda do PS e não queremos ser uma versão liberal de nenhum outro partido. Somos liberais.

Essa clareza pode ser a maior vantagem estratégica da Iniciativa Liberal.

Portugal não precisa de mais um partido a disputar o mesmo espaço eleitoral através de slogans conjunturais. Precisa de uma força política capaz de apresentar uma visão para o país a dez, vinte e trinta anos.

Uma visão em que o crescimento económico não seja um fim em si mesmo, mas o instrumento que permite aumentar salários, melhorar serviços, financiar o Estado social e criar oportunidades.

Uma visão em que o Estado não seja inimigo do cidadão, mas também não seja o dono da sua vida.

Uma visão em que quem trabalha seja valorizado, quem empreende seja respeitado, quem investe tenha previsibilidade e quem precisa de ajuda encontre uma sociedade capaz de o proteger.

Uma visão em que liberdade signifique também responsabilidade.

E responsabilidade signifique também consequência.

É aqui que o liberalismo pode ganhar uma nova geração de portugueses.

Não através de uma comunicação excessivamente académica, nem através da repetição permanente de conceitos que só os militantes compreendem.

Mas explicando, com linguagem simples, uma pergunta fundamental:

“Como seria a sua vida se tivesse mais liberdade para decidir?”

Essa pergunta pode ser mais poderosa do que dezenas de debates ideológicos.

Porque o liberalismo não deve ser vendido aos portugueses como uma teoria económica.

Deve ser explicado como uma forma de organizar a sociedade para devolver às pessoas maior capacidade de decisão sobre as suas próprias vidas.

Portugal precisa de crescer. Precisa de criar riqueza. Precisa de pagar melhores salários. Precisa de recuperar talento. Precisa de atrair investimento. Precisa de reformar o Estado. Precisa de reduzir a burocracia. Precisa de melhorar a justiça, a saúde e a educação.

Mas, acima de tudo, precisa de recuperar uma ideia que durante demasiado tempo ficou escondida atrás da política partidária:

Um país é mais forte quando confia mais nas pessoas.

Essa pode ser a grande oportunidade da Iniciativa Liberal em 2026.

Mas para a aproveitar não basta ter boas propostas.

É necessária estratégia, coerência, liderança e, sobretudo, comunicação.

Se conseguir explicar aos portugueses que muitas das liberdades que já valorizam fazem parte de uma mesma visão política, talvez descubra algo extraordinariamente importante:

o liberalismo pode não ser uma ideia estrangeira que Portugal precisa de importar. Pode ser uma ideia que muitos portugueses já vivem — mas ainda não aprenderam a chamar-lhe liberalismo.

Zeferino Boal define-se, ele próprio, como um cidadão, angolano e português, livre pensador e de ação cívica. Com carreira militar na FAP e formação na área da gestão, desempenhou funções públicas, políticas, desportivas e privadas de que se orgulha de terem sido marcadas sempre pela dedicação e responsabilidade.

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