Os tempos em que a expressão “bué” deixava os mais velhos completamente perdidos já lá vão. Agora, quem usava essa palavra cresceu e tornou-se pai ou mãe – e depara-se com um novo universo linguístico que parece saído de outro planeta. Expressões como “cringe”, “farmar aura”, “NPC” ou “delulu” fazem parte do dia a dia de milhares de adolescentes, mas para muitos adultos continuam a ser um autêntico mistério
Foi precisamente para tentar reduzir essa distância que a SaveFamily criou o primeiro Dicionário para Pais. Trata-se de um guia prático, desenvolvido por peritos, que reúne e explica as expressões mais usadas pelas crianças e jovens – e que mudam a uma velocidade impressionante. A ideia não é transformar os pais em adolescentes linguísticos, mas sim dar-lhes ferramentas para perceberem o que os filhos estão realmente a dizer quando falam em “ghostear”, “shippear” ou “estar no prime”.
O dicionário vai além da simples tradução literal. Cada termo é contextualizado e acompanhado de sinónimos numa linguagem mais tradicional, para que os pais possam interpretar as conversas com maior clareza. Inclui até expressões que vêm de outros países, o que mostra como a linguagem digital ultrapassou fronteiras e se tornou num fenómeno global entre os mais novos.
Jorge Álvarez, CEO da SaveFamily, explica que “as gerações sempre tiveram a sua própria forma de falar, mas a diferença é que hoje as mudanças são muito mais rápidas”. E tem razão: as redes sociais, os vídeojogos e a cultura dos memes fazem com que palavras e expressões surjam e desapareçam em poucos meses – algo que antes demorava anos a acontecer. Isto significa que até irmãos com poucos anos de diferença podem usar códigos linguísticos completamente distintos.
Mas os especialistas fazem questão de sublinhar: compreender estas palavras não significa adotá-las. O objetivo é outro – é conseguir captar o que está por trás delas, interpretar melhor o dia a dia dos filhos e, quem sabe, evitar mal-entendidos que muitas vezes transformam uma simples pergunta num momento de frustração mútua. “Não queremos que os pais comecem a dizer ‘bro’ em casa. Queremos que a linguagem não seja uma barreira para comunicar com os filhos”, reforça Jorge Álvarez.
A iniciativa chega numa altura oportuna – as férias de verão trazem mais tempo partilhado, mais viagens e conversas informais, e é exatamente aí que estas expressões surgem com maior frequência. Num contexto em que os adolescentes parecem falar uma língua própria, que muda ao ritmo das tendências online, este dicionário surge como uma ferramenta simples mas útil para aproximar gerações. Porque, no fundo, perceber o que eles dizem pode ser o primeiro passo para perceber melhor quem eles são.









