O título desta peça também poderia ser “O milagre dos Tubarões Azuis”, ou “Como Cabo Verde chegou aos 16 avos sem vencer um jogo” (mas também sem perder) no Mundial FIFA’2026. Certo é que Cabo Verde protagonizou uma das histórias mais improváveis deste Mundial ao garantir a passagem à fase a eliminar na sua estreia na competição, e fê-lo, há que o frisar, sem vencer (em perder) um único jogo. Três empates, três pontos, uma vaga nos 16 avos de final, e um guarda-redes de 40 anos que se tornou uma sensação global.
A campanha começou com um feito que poucos esperavam: Cabo Verde conseguiu segurar a Espanha, atual campeã europeia, num nulo no primeiro jogo. Na segunda jornada, os Tubarões Azuis repetiram a proeza ao empatar 2-2 com o Uruguai, mostrando que o resultado contra os espanhóis não tinha sido fruto do acaso. Já na altura, o selecionador Pedro Leitão Brito, conhecido como Bubista, dizia que a equipa estava ali para competir e não para passear.
Mas foi no terceiro jogo, frente à Arábia Saudita, que a história ganhou contornos de conto de fadas. Os cabo-verdianos precisavam de um ponto para assegurar o segundo lugar do Grupo H, e conseguiram-no com um empate a zero que ficará guardado na memória. Enquanto a Espanha vencia o Uruguai por 1-0, garantindo o primeiro lugar do grupo, Cabo Verde fazia as contas em campo: um nulo era suficiente para deixar uruguaios e sauditas para trás, ambos com dois pontos.
O jogo em Houston não foi propriamente um espetáculo ofensivo – o 0-0 final diz tudo – mas a organização defensiva dos cabo-verdianos foi soberba, anulando as tentativas sauditas que precisavam vencer para seguir em frente. E no centro de tudo estava Vozinha.


Josimar Évora Dias, mais conhecido como Vozinha, já era uma figura conhecida dos que acompanham a seleção cabo-verdiana. Aos 40 anos, guarda-redes do Chaves, na segunda divisão portuguesa, a sua história é feita de persistência: só se tornou profissional aos 25 anos e, durante muito tempo, foi preterido por outros guarda-redes por ser considerado baixo para a posição. A carreira levou-o a clubes em Angola, Moldávia, Chipre e Eslováquia, sempre com o sonho de chegar a um Mundial.
O jogo contra a Espanha já o tinha transformado numa celebridade – as sete defesas que fez frente à campeã europeia valeram-lhe o prémio de homem do jogo e uma onda de seguidores nas redes sociais. Quando a CazéTV incentivou os espetadores brasileiros a seguirem o guarda-redes, a sua conta no Instagram disparou de 50 mil para mais de 10 milhões de seguidores. No final da fase de grupos, esse número já ultrapassava os 16 milhões.
Contra a Arábia Saudita, Vozinha não precisou de fazer defesas espetaculares, mas a sua presença transmitiu calma a toda a equipa. O veterano guarda-redes, que chorou no final da partida, tal como tinha feito após o jogo com a Espanha, tornou-se o rosto de uma seleção que ninguém esperava ver na próxima fase.

Nos 16 avos de final, Cabo Verde vai defrontar a Argentina, campeã em título, em Miami. O desafio é imenso, mas Bubista já disse que a equipa está pronta para mostrar ao mundo o que vale. “Representamos o nosso país e representamos África”, afirmou o treinador. “O nosso objetivo é mostrar ao mundo do que somos capazes”.
Seja qual for o desfecho, Cabo Verde já escreveu o seu nome na história dos Mundiais. Com três empates, dois golos marcados, dois sofridos e um guarda-redes que, aos 40 anos, se tornou a maior estrela da competição.









