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No 25 de Abril, Mourinho resolveu a revolução a partir do banco

Havia qualquer coisa de simbólico nesta tarde de 25 de abril no Estádio da Luz. O sol banhava a relva, 56.591 adeptos tinham feito a escolha — difícil para uns, menos para outros — entre o desfile da Avenida da Liberdade e um fim de tarde de futebol na “catedral” das águias, e durante 85 minutos esperou-se por uma revolução prometida que tardava em não aconteceu.

O Benfica entrara em campo com o favoritismo colado à pele, como manda a liturgia dos jogos grandes contra adversários teóricamente acessíveis . E, de facto, a tropa de José Mourinho disparou a primeira granada mal o árbitro deu o sinal, mas foi preciso aparecer Ivanovic já perto do fim, comandando os chaimites do Benfica ao jeito de um improvisado Salgueiro Maia para festejar a liberdade de uma revolução pífia que, a bem da verdade, pouco ou nenhum resultado prático irá trazer para o Benfica na presente época. Os encarnados golearam e venceram por 4-1, mas de pouco valerá se os rivais de Alvalade não escorregarem nesta fase final do campeonato.

O soldado Barreiro e o poste ingrato

Aos dois minutos, aconteceu o improvável: António Silva, ele próprio, transformou-se num falso lateral ofensivo. Galgou o corredor direito como se fosse um extremo de profissão, levou a bola até à linha de fundo e, num gesto de lucidez raro para quem raramente ali aparece, tirou do caminho o defesa e soltou para o meio da área. Leandro Barreiro, o “soldado” de Bruno Lage que foi promovido a capitão de abril por Mourinho, apareceu no sítio certo e encostou para o 1-0. A Luz explodiu com aquilo que parecia o princípio de uma tarde tranquila. Puro engano.

O Moreirense, esse, não tinha viajado para o Estádio da Luz, no dia em que as papoilas saltitantes davam o lugar aos cravos da mesma cor, para fazer de figurante. Nos oito minutos seguintes, teve dois pontapés de canto consecutivos que fizeram tremer o ecrã do estádio. Trubin defendeu como um homem possesso no primeiro — três defesas em dois minutos, algumas de alto grau de dificuldade — e Barreiro teve de se esticar para afastar o perigo no segundo. O aviso estava dado: os cónegos não se haviam deslocado à capital apenas para cumprir calendário.

Pouco depois, António Silva voltou a subir às nuvens. Cabeceou um canto com violência, a bola beijou o poste direito e ressaltou para as mãos agradecidas de André Ferreira. Por duas vezes, o 2-0 pairou no ar, mas também por duas vezes o destino lhe fez uma vénia e seguiu para outro lado.

O escorregão de Dahl e a frieza de Travassos

E foi então, quando o Benfica mais pressionava, que aconteceu o que ninguém esperava. Aos 26 minutos, o guarda-redes do Moreirense chutou um “balão” para o meio-campo encarnado. Lançou a flecha, Samuel Dahl e Diogo Travassos disputaram a bola como dois gladiadores no Coliseu, e o sueco, que até ali vinha sendo fiável, escorregou. Falhou a bola, isolou sem querer o jogador que pertence aos quadros do Sporting, e este não tremeu.

Travassos agradeceu o present. revelou uma enorme frieza e, em frente a Trubin, assumiu o papel de um pistoleiro profissional e atirou para o segundo poste, assinando o 1-1. O silêncio instalou-se na Luz e a ideia incómoda começou a germinar: “Mais um daqueles jogos?”

Richard Ríos, o relâmpago

A resposta do Benfica foi imediata. Três minutos volvidos, o relógio marcava 28 quando Richard Ríos recebeu um passe de Barreiro na entrada da área. O colombiano não pensou duas vezes: preparou o remate como quem afia uma faca e atirou um míssel ao centro da baliza. André Ferreira ainda tocou na bola com a ponta dos dedos, mas a menina do jogo entrou, caprichosamente, como se fizesse questão de contrariar a lei da física. O Benfica voltava a estar na frente do marcador com este a apontar o resultado tangencial de 2-1.

A primeira parte fechava-se com um aviso: este jogo estava longe de estar resolvido. E a história recente do Benfica na Luz contra equipas de menor nomeada ensinava que o empate é um hóspede que aparece sempre quando menos se espera.

O impasse e a tripla ousadia

A segunda metade foi, para usar uma palavra suave, monótona. O Benfica abeirava-se da baliza contrária, o Moreirense defendia-se, e o jogo entrava numa espécie de impasse político: muitas conversas, poucas ações concretas e raras as ocasiões de golo. A única nota de relevo até aos 74 minutos foi um cabeceamento de Dedic à barra, num susto que acordou os mais distraídos.

José Mourinho, sentado no banco como um general a observar a batalha do alto da colina, não gostava do que via. A equipa tinha bola, tinha posse, mas faltava-lhe aquela faísca, a violência criativa que desbloqueia jogos emperrados. A paciência do “Special One” tem limites conhecidos.

Aos 57 minutos, decidiu agitar a árvore. Lançou Dedic, Prestianni e Schjelderup e, em sentido contrário, tirou Alexander Bah, Rafa Silva e, mais importante, tirou Lukebakio. Ora acontece que o belga não gostou, mas não gostou mesmo nada, e enquanto se sentava no banco, foi atirando o fato de treino pelos ares ao mesmo tempo que agredia a poltrona onde se viria a sentar. Mourinho não gostou da atitude do belga e entraram ambos num bate-boca aceso captado pelas câmaras da Btv que já só filmaram o momento em que Mourinho virou as costas ao desagradado jogador.

Por ali ficava o momento do jogo, entre um futebolista insatisfeito e o treinador impassível, um duelo de egos que a vitória final haveria de tornar irrelevante. Curiosamente, Prestianni demorou a engrenar as melhores velocidades no jogo e a qualidade que o futebol do Benfica vinha a ter até ali com Lukebakio baixou consideravelmente.

Ivanovic, o “reserva” que resolveu

Assumindo que as três alterações de uma assentada pouco ou nada tinha trazido de novo ao Benfica, Mourinho voltou a mexer, agora com a entrada do jogador que viria a mudar o ritmo da partida. Tirou Pavlidis, um jogador que há muito é apenas mais um lá frente, esforçado mas inconsequente e dotado de um jogo completamente inglório, e fez entrar Ivanovic, o homem que fez a diferença e conseguiu oferecer um final de tarde de alegria aos adeptos do Benfica.

Assim, quando faltavam poucos minutos para o final e o resultado ainda estava em aberto, à passagem do minuto 89′, quando a Luz já se preparava para o sofrimento dos descontos, eis que Gianluca Prestianni — o tal que entrara para o lugar de Lukebakio e que agora já tinha alguém mais determinado a quem servir — recuperou uma bola num erro de construção do Moreirense e assistiu Franjo Ivanovic. O croata, tantas vezes relegado ao banco como se fosse uma peça sem importância, encarou Maracás, já cansado, tirou-o da frente e atirou cruzado, assinando o 3-1. Estava dada a machadada final no jogo.

O Benfica respirava de alívio, consciente de que a vitória já não iria mesmo fugir, e houve ainda tempo para mais um golo. Aos 90+1′, numa jogada de encher o olho, Prestianni lançou Dedic pela direita, o lateral cruzou rasteiro e Ivanovic, na pequena área, aparecendo no limite do fora-de-jogo, só teve de encostar para o 4-1. Estava feito o bis do croata, que saiu do banco e entrou na história da noite.

O árbitro deu mais quatro minutos, mas o jogo já tinha acabado. O Benfica vencera por 4-1 um encontro que, até aos 85, esteve particularmente equilibrado. Vasco Botelho da Costa, treinador do Moreirense, resumiu bem o sentimento: “Fica complicado dizer que tivemos 85 minutos muito bons, mas fica o resultado de 4-1. Somos muito penalizados por erros que cometemos.”

No final, o placard mentia (pelo desequilíbrio no resultado) ao espelho dos 90 minutos. Mas o futebol é isso mesmo: uma arte de sobrevivência onde os últimos cinco minutos pesam tanto como os primeiros 85, e onde um treinador chamado José Mourinho, com as mexidas a partir do banco e dois golos de um croata suplente, recordou a todos porque é que continua a ser o “Special One”.


FICHA DE JOGO

Benfica 4-1 Moreirense

31.ª Jornada da I Liga 2025/26
Data: 25 de abril de 2026
Local: Estádio da Luz, Lisboa
Árbitro: Iancu Vasilica
VAR: Manuel Oliveira
Público: 56.591 espectadores 

Benfica: Trubin; Alexander Bah (Dedic, 57′), António Silva, Otamendi, Samuel Dahl; Richard Ríos (Manu, 90+01′), Leandro Barreiro; Fredrik Aursnes, Rafa Silva (Schjelderup, 57′), Lukebakio (Prestianni, 57′); Pavlidis 
Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Barrenechea, Bruma e Sudakov 
Treinador: José Mourinho

Moreirense: André Ferreira; Fabiano, Maracás, Gilberto Batista, Diogo Travassos; Sjepanovic (Maranhão, 80′), Rodrigo, Landerson (Kiko, 67′), Assis (John, 46′), Kiko Bondoso (Cedric Teguia, 67′); Alan (Luís Semedo, 80′)
Suplentes não utilizados: Caio Secco, Kevin e Leandro 
Treinador: Vasco Botelho da Costa

Golos: Leandro Barreiro (2′), Diogo Travassos (26′), Richard Ríos (28′), Franjo Ivanovic (89′, 90+1′)
Cartão amarelo: Fredrik Aursnes (30′)
Resultado ao intervalo: 2-1

texto: Jorge Reis
fotos: Diogo Faria Reis e Luís Moreira Duarte

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