Quando o relógio marcava 18h00 deste domingo no Estádio José Gomes, na Reboleira, poucos duvidavam do que estava por vir. O FC Porto, um coração mecânico a duas vitórias de abraçar o 31º título nacional, encarava a visita ao aflito Estrela da Amadora como mais uma formalidade no caminho para a glória. O cenário era previsível: os comandados de Francesco Farioli dominariam a posse, amordaçariam o adversário e levariam para casa mais três pontos preciosos.
No final foi quase isso que aconteceu, mas não poderemos ignorar que o Estrela motrou uma enorme coragem nos vinte minutos finais, num segundo tempo em que a sorte esteve longe de proteger os audazes. Em termos de jogo global, o futebol, esse velho feiticeiro da imprevisibilidade, acabou por permitir 90 minutos que foram, ao mesmo tempo, um açoite de eficácia de que quem venceu, perante uma formação derrotada que caiu de pé e soltando um enorme suspiro de coragem.












Se a primeira parte confirmou o favoritismo arrasador dos dragões, a segunda metade do encontro transformou-se num pesadelo para os nervos dos adeptos portistas, num verdadeiro filme de suspense na Reboleira. O Estrela da Amadora, qual animal acuado, ferido e orgulhoso, mordeu com uma violência inesperada, marcou através de Jovane Cabral, e tivesse este jogador um pouco mais de pilhas e teria sido um caso bem mais sério para os pupilos de Francesco Farioli.
Gül voltou aos golos com a eficácia
que se revelou determinante
A primeira metade do jogo foi uma demonstração de força bruta do FC Porto. A perder de vista na tabela classificativa, a equipa de Farioli mostrou porque lidera o campeonato com autoridade. O primeiro aviso surgiu cedo, mas foi aos 15 minutos que o eixo do jogo se inclinou definitivamente. O central Kevin Jansson, numa abordagem demasiado imprudente sobre o dinâmico Oskar Pietuszewski dentro da área, ofereceu de bandeja uma grande penalidade para a turma visitante e a oportunidade que o FC Porto tanto procurava.









A partir da marca dos 11 metros, a frieza turca: Deniz Gül pegou na bola, inspirou fundo e, com o pé direito, colocou a redonda no lado esquerdo da baliza de David Grilo – este último atirado aos lobos na sua estreia na I Liga devido a uma lesão de última hora de Renan Ribeiro. Estava feito o primeiro golo do jogo, apontado aos 17 minutos, um banho de água fria nas parcas esperanças caseiras.
E se o primeiro golo nasceu de uma penalidade à luz das regras do futebol, o segundo foi fruto de pura arte coletiva. Em transição rápida, o ataque portista desmontou a defensiva do Estrela como navalha a cortar seda. A bola sobrou para Deniz Gül que novamente não tremeu. Aos 37 minutos, o turco bisava, ainda antes do intervalo, e parecia sentenciar o jogo. Com 2-0 no marcador e a controlar as operações, o FC Porto entrou nos balneários com a sensação de dever cumprido, talvez demasiado confortável na própria eficácia.















“Entrámos com Medo”…
A revolta de Jovane Cabral
A frase é do próprio Jovane Cabral após o apito final: “Entrámos um pouco com medo do FC Porto”. Se na primeira parte esse medo paralisou a equipa da Reboleira, na segunda foi substituído pela fúria de quem não tem nada a perder. João Nuno, técnico do Estrela, lançou Jovane Cabral ao intervalo, uma jogada de risco calculado. O ex-Sporting entrou em campo com a missão de dar alma a um ataque que até ali era apenas um observador do talento adversário.
E que diferença fez! O Estrela da Amadora regressou do descanso irreconhecível. Apoiado no ímpeto de Jovane, o tricolor passou a rasgar a meio-campo portista com uma facilidade desconcertante. O que se viu foi um verdadeiro bombardeio à fortaleza de Diogo Costa.









Primeiro, foi Abraham Marcus a atirar ao poste, num aviso que muitos interpretaram como um acaso, um lance em que Diogo Costa estava completamente batido. E ao contrário do que se poderia pensar, não era um acaso, mas antes o prenúncio de uma tempestade. O FC Porto, convencido de que o trabalho estava feito, assistiu, atónito, à sua defesa tremer.
Numa das jogadas mais insólitas da temporada, a bola acertou duas vezes no poste esquerdo da baliza de Diogo Costa, com o guarda-redes da Seleção Nacional completamente batido. O estádio gemeu, o Estrela da Amadora acreditou e o próprio João Nuno, no final, atiraria de forma assertiva: “Pela segunda parte merecíamos o empate, no mínimo”. Só que para a história do futebol fica o resultado final e esse, para infelicidade dos tricolores, foi vantajoso para o conjunto azul e branco.











O golo do renascimento por Jovane
e a dura sentença da resistência
A pressão havia de dar frutos. Aos 79 minutos, num lance de insistência, Jovane Cabral surgiu como um furacão na área. Após um cruzamento milimétrico de van Hooijdonk a partir de um pontapé livre batido do lado esquerdo do ataque tricolor, o cabo-verdiano cabeceou com autoridade, sem chances para Diogo Costa.
O Estádio José Gomes veio abaixo. Estrela 1, FC Porto 2… estava reaberta a discussão de um jogo em que era agora evidente a falta de pilhas por parte dos jogadores de Farioli. O sonho da reviravolta por parte da equipa da casa, que parecia loucura ao intervalo, ganhava contornos de realidade .
















Jovane era, de longe, o melhor em campo, e a sua capacidade de fintar, segurar a bola e desequilibrar num pé para o outro deu aos tricolores a qualidade técnica que lhes faltava. No entanto, a crónica do jogo fica mais triste por um detalhe cruel: Jovane Cabral parece não ter já muito mais para dar. Como um relâmpago que ilumina todo o céu mas desaparece num instante, o seu corpo teima em não responder à exigência física total de uma metade do jogo.
Foi um vendaval enquanto esteve em campo, mas João Nuno sabe que o seu “xamã” é uma arma de duração limitada, feito de vidro e talento. Para infelicidade do Estrela da Amadora, não há fórmula para esticar esse relâmpago. E quando a sorte também não ajuda, pouco há a fazer.












Nos últimos minutos, com o FC Porto acuado e a perder tempo a cada lançamento de linha lateral, como ironizou o técnico João Nuno, o Estrela atacou com desespero. Bruno Langa atirou ao lado, os cruzamentos choviam na área, mas o relógio é o adversário mais cruel para quem precisa de golos.
O FC Porto acabou mesmo por vencer o jogo por 2-1, confirmou a liderança e fica agora à espera de uma escorregala do Sporting para poder gritar “campeão” já no próximo fim de semana. Já o Estrela da Amadora deixou perante os seus adeptos uma certeza (além da aflição na luta pela manutenção, onde ocupa o 15º lugar com 28 pontos): se conseguir transportar para os próximos três jogos a atitude, a raça e o futebol que exibiu durante 45 minutos contra o gigante, a permanência não é um sonho; é uma obrigação que se tornará realidade. O campeonato prossegue para ambos no próximo fim-de-semana!














Ficha de Jogo
- Evento: Estrela da Amadora vs. FC Porto
- Competição: 31ª Jornada da I Liga Portuguesa
- Data: 26 de abril de 2026 (Domingo)
- Local: Estádio José Gomes, Reboleira
- Árbitro: Hélder Carvalho
- VAR: Luís Ferreira
- Resultado: Estrela da Amadora 1-2 FC Porto
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Onze do Estrela da Amadora: David Grilo; Max Scholze (Paulo Moreira, 46′), Stefan Lekovic, Otávio, Bruno Langa; Eddy Doué (Jovane Cabral, 46′), Kevin Jansson (Jefferson Encada, 46′), Robinho; Abraham Marcus, Rodrigo Pinho (van Hooijdonk, 73′) e Ianis Stoica (Alisson Souza, 73′).
Onze do FC Porto: Diogo Costa; Alberto Costa (Martim Fernandes, 70´), Thiago Silva, Jan Bednarek, Jakub Kiwior (Fofana, 84′); Victor Froholdt, Pablo Rosario, Gabri Veiga (Rodrigo Mora, 70′); Pepê (William Gomes, 61′), Oskar Pietuszewski e Deniz Gül (Moffi, 61′).

























