Foi em Rio Maior, casa emprestada do Casa Pia, e debaixo de uma chuvada que parecia prenunciar o fim da linha, que o Benfica de José Mourinho viu o sonho do título nacional esfumar-se de vez e certamente, também, a possibilidade de chegar ao segundo lugar e à qualificação para a Liga dos Campeões. Com o empate 1-1 frente ao Casa Pia, nesta segunda-feira, os encarnados perderam bem mais do que dois pontos, tendo confirmado uma temporada sem chama nem glória, marcada por talento desperdiçado, onde a garra e a eficácia ficaram pelo caminho, fechada com um jogo em que a defesa, mais uma vez, se encarregou de oferecer o presente ao adversário.
A imagem do jogo ficará para sempre associada a António Silva. Não por um corte salvador, mas por um desvio infeliz que, em vez de afastar o perigo, serviu de assistência para Rafael Brito empatar o jogo depois de tamanho esforço para o Benfica se adiantar no marcador com um golo de Richard Rios. O empate conseguido pelo Casa Pia acabou assim por ser o golo que “gelou” as aspirações benfiquistas e devolveu a alma a uma equipa modesta, orientada por Álvaro Pacheco, que luta pela manutenção entre os grandes, continuando a provar, curiosamente, que é a “pedra no sapato” preferida desses mesmo ditos “grandes”.





A obrigação de vencer e a posse de bola estéril
Depois do empate consentido pelo FC Porto no jogo de sábado frente ao Famalicão, e perante a vitória do Sporting na recepção dos leões ao Santa Clara, o Benfica entrou no relvado de Rio Maior com a obrigação moral de vencer para manter acesa a chama do título. José Mourinho, que continua sem saber o que é perder no campeonato (é o único invicto), apostou numa equipa ofensiva, com Richard Rios e Rafa Silva a darem a profundidade necessária, e se Rafa voltou a ser igual a si mesmo, sem mostrar ainda o porquê do esforço dos encarnados na sua contratação, Rios até esteve uns furos acima do normal, acabando por ser dele o golo que colocou o Benfica na frente do marcador já na etapa complementar.
O domínio do Benfica, ainda que pouco expressivo no marcador, foi de facto esmagador. 78% de posse de bola, 18 remates e 12 cantos, números que pareciam indicadores de uma vitória fácil. Só que o relvado molhado de Rio Maior mostrou a verdade: o Benfica tocou, tocou, e raramente magoou, para além que dos 18 remates apenas três foram enquadrados com a baliza de Patrick Sequeira. A primeira parte foi um exercício de fútil contra a muralha organizada dos Gansos, e tirando um ou outro susto de Schjelderup, Patrick Sequeira teve mais trabalho com a chuva do que propriamente com a bola.




Do outro lado, Álvaro Pacheco montou a sua equipa à imagem do que tem feito desde que chegou: bloco baixo, linhas comprimidas e uma fé inabalável no contra-ataque, a procurar servir o incansável Cassiano lá da frente. O Casa Pia sabia que tinha sobrevivido à tempestade na primeira parte e que, mais cedo ou mais tarde, a ansiedade benfiquista ia abrir espaços.
A entrada de Prestianni e a alegria que durou pouco
Depois de uma primeira parte concluída sem golos, José Mourinho percebeu que a criatividade da sua equipa estava em baixo. Ao minuto 57 lançou Gianluca Prestianni para o lugar de Lukebakio e a jogada resultou. Aos 68 minutos, o miúdo argentino pegou na bola na direita, tabelou e cruzou para o segundo poste. Andreas Schjelderup, que foi dos melhores em campo, acreditou, ganhou de cabeça e colocou a bola ao segundo poste para Richard Ríos desviar para o fundo das redes.
Era o 0-1, o golo que, em teoria, deveria acalmar as hostes encarnadas. Mas o problema do Benfica de Mourinho tem sido psicológico. Em vez de gerir o jogo com a experiência de quem tem jogadores como Otamendi, a equipa recuou, perdeu a intensidade e ofereceu o empate em “prato limpo”.



“Assistência” involuntária de António Silva
Chegámos aos 78 minutos. Um lance que parecia inofensivo transformou-se num pesadelo. Clau Mendes cruzou rasteiro da esquerda. A defesa do Benfica teve duas ou três oportunidades para afastar o perigo, mas a bola sobrou na pequena área. António Silva, num gesto desesperado, tentou cortar, mas o que fez foi um passe perfeito para Rafael Brito que vinha em corrida a acompanhar o lance. O médio, formado no Benfica, não teve contemplações: rematou colocado junto ao poste, Trubin nada podia fazer, e estava reposta a igualdade (1-1).
O lance é paradigmático do momento defensivo do Benfica. É permissivo. É mole. No final do jogo, José Mourinho, visivelmente frustrado, foi cirúrgico na crítica, ainda que sem apontar o dedo diretamente ao jogador. O técnico referiu-se a um “corte que parecia uma assistência”, uma descrição que se encaixa na perfeição na noite infeliz do jovem central português.



A conta final no lugar mais baixo do pódio
Com este empate, o Benfica estagnou nos 66 pontos. A três jornadas do fim? Não exatamente, mas o cenário é negro. O Sporting tem 68 pontos, mas menos um jogo, o famigerado embate com o Tondela, o que significa que, mesmo que o Benfica ganhe o dérbi em Alvalade, já não depende de si para alcançar o segundo lugar. Perdeu o comboio da possível qualificação direta para a tão desejada quanto milionária Champions League e a época, que prometia tanto com a chegada de Mourinho depois alguns soluços ainda no tempo de Bruno Lage, transformou-se num mar de empates (já são nove) e numa luta inglória para segurar a prata cada vez mais distante, agora com o bronze a surgir como um mísero prémio de consolação.
Já o Casa Pia… o Casa Pia é caso sério. Depois de ter sido a única equipa a vencer o FC Porto no campeonato (2-1 em Janeiro), eis que volta a travar um candidato ao título. Álvaro Pacheco está a construir uma equipa difícil, que luta pela manutenção mas que já vendeu caro cada ponto que conquistou. Para os Gansos, o ponto deste jogo da 28ª jornada soube a ouro. Para o Benfica, soube a despedida… a fim da linha de uma temporada perdida.

Ficha de Jogo
- Jogo: Casa Pia 1-1 Benfica
- Data: 6 de abril de 2026
- Local: Estádio Municipal de Rio Maior (Rio Maior)
- Árbitro: Hélder Carvalho
- Assistência: 6.113 espectadores
- Golos:
- Casa Pia AC (Treinador: Álvaro Pacheco): Patrick Sequeira; André Geraldes, David Sousa, João Goulart; Gaizka Larrazabal, Iyad Mohamed, Rafael Brito (João Marques, 87′), Pedro Rosas (Abdu Conté, 87′); Jérémy Livolant (Kelian Nsona, 90+2′), Cassiano (Clau Mendes, 69′), Tiago Morais (Korede Osundina, 46′).
- Suplentes não utilizados: Ivan Mandić, Kevin Prieto, Kaique Rocha, Abdu Dafe.
- Benfica (Treinador: José Mourinho): Anatoliy Trubin; Alexander Bah (Anísio Cabral, 81′), Nicolás Otamendi, António Silva, Samuel Dahl; Enzo Barrenechea (Franjo Ivanovic, 81′), Richard Ríos; Dodi Lukebakio (Gianluca Prestianni, 57′), Rafa Silva (Georgiy Sudakov, 70′), Andreas Schjelderup; Vangelis Pavlidis.
- Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Daniel Banjaqui, Gonçalo Oliveira, Sidny Cabral, Manu Silva.









