SLB 2-0 Nacional 0931

Benfica acalma crise com vitória sobre o Nacional

O inevitável suspiro de alívio ecoou pelo Estádio da Luz ao final da tarde deste domingo. O Benfica venceu o Nacional por 2-0, mas o resultado, embora confortável, foi quase uma anedota perto do que se passou nos primeiros 15 minutos. Foi um regresso às vitórias, sim, mas, mais do que isso, foi a reafirmação de que, apesar dos soluços, esta equipa de José Mourinho ainda tem unhas para se agarrar à esperança de chegar à Liga dos Campeões.

Depois do empate amargo em Rio Maior diante do Casa Pia — um resultado que cheirou a derrota moral e que quase colocou os encarnados na prateleira dos “arrumados” na luta pelo topo da classificação —, o discurso na Luz era de superstição e nervos à flor da pele. A crise estava instalada, ou pelo menos isso diziam as capas dos jornais durante a semana. José Mourinho sentiu o crivo do tempo a apertar e sabia que não bastava vencer; era preciso uma exibição de autoridade para recolocar o grupo nos eixos a apenas uma semana do dérbi em Alvalade. E a resposta não podia ter sido mais cirúrgica.

O técnico, num gesto que soou a aviso, mexeu no onze. Bah, Enzo e Lukebakio deram lugar a Dedic, Barreiro e Prestianni, deixando claro José Mourinho que pretendia frescura nas alas, e foi exatamente por ali que o jogo se resolveu e bem cedo no final de tarde de futebol no Estádio da Luz. Do outro lado, Tiago Margarido montou o Nacional num 4-3-3 tradicional, apostando na solidez defensiva e na velocidade de Witi para os contra-ataques. A teoria era bonita, mas a prática, essa, foi um desastre para os madeirenses .

“Duas estocadas” em 15 minutos: A magia de Prestianni

Se há jogos que terminam aos 15 minutos, este foi um deles. O Benfica entrou com a ferocidade de quem estava há meses sem comer e a pressão alta asfixiou o Nacional que, no seu meio-campo defensivo, mal conseguia respirar.

Logo aos 3 minutos, o argentino Gianluca Prestianni — uma das grandes apostas de Mourinho para este eixo ofensivo — fugiu pela direita como se não houvesse amanhã. O cruzamento rasteiro e venenoso encontrou Andreas Schjelderup no segundo poste e o norueguês, com a calma de um veterano, atirou de pé esquerdo sem hipóteses para Kaique. Era o 1-0 e a Luz explodia.

O golo precoce podia levar à gestão, mas o Benfica recusou-se a abrandar e aos 14 minutos a mesma dupla voltou a atacar. Dedic tabelou, Prestianni recebeu nas costas da defesa e, ao invés de finalizar, puxou o defesa para si e serviu Rafa Silva na cara do golo. O internacional português não perdoou e faturou para o 2-0.

Prestianni, com duas assistências em dois golos, foi um furacão, e a defesa do Nacional, em particular Zé Vítor e José Gomes, parecia finas canas de canavial de tão facilmente que eram varridas pelo ímpeto argentino.

A noite inglória de Pavlidis e o “estrago” de Kaique

Podia ter sido uma goleada histórica. Mas se o ataque do Benfica brilhou na criação, pecou na finalização. O grande vilão da noite chamou-se Vangelis Pavlidis. O grego, em jejum de golos, teve a oportunidade de ouro aos 58 minutos. Schjelderup sofreu penálti e Pavlidis, como tem sido normal esta época nos castigos máximos, pegou na bola, colocou-a na marca… e atirou de forma denunciada e sem força. Kaique, o guarda-redes brasileiro do Nacional, voou para defender e, a dois tempos, negou o terceiro golo e seguro a bola, mantendo os seus companheiros com um fio de esperança de que era possível fazer algo mais nesta visita ao Estádio da Luz.

Dez minutos depois, o Nacional até meteu a bola na baliza à guarda de Trubin, com Chucho Ramírez a finalizar na sequência de um pontapé de baliza longo, mas o árbitro Fábio Veríssimo (bem assistido pelo VAR) assinalou falta de Zé Vítor sobre Pavlidis no início da jogada. O golo anulado foi o último suspiro dos visitantes.

Margarido, o técnico dos insulares, ainda tentou reagir aos 60 minutos, lançando Filipe Soares e Pablo Ruan para dar mais miolo ao meio-campo, a sua equipa melhorou ligeiramente, passou a trocar a bola com mais critério, mas nunca assustou verdadeiramente Trubin e o resultado não voltaria a sofrer alterações.

O “miúdo” de Mourinho e o olho no dérbi

Com o resultado controlado, Mourinho começou a preparar a próxima batalha. Aos 77 minutos, fez uma revoada de substituições: tirou Pavlidis, Rafa e Prestianni, mas também Richard Rios, tocado, para lançar Ivanovic, Aursnes (de regresso de lesão) e Lukebakio, bem como Enzo na tal troca “forçada”. O objetivo era gerir o esforço físico e dar ritmo a quem vinha de trás.

Mas a noite ficou marcada por um momento especial. Nos descontos, aos 90+2 minutos, Gonçalo Moreira entrou para o lugar de Schjelderup. O jovem de 20 anos, formado no Seixal, estreou-se pela equipa principal ao serviço de José Mourinho, técnico que já tinha dito publicamente ter “um fraquinho” pelo miúdo e que, uma vez mais, cumpriu a tradição de lançar jovens da casa no relvado da Luz.

As bancadas benfiquistas levantaram-se para aplaudir o novo produto da sua “prata da casa”, numa tarde em que a crise ficou, pelo menos por uma semana, adiada no ninho da águia.

O Benfica acabou assim por cumprir o seu plano de jogo, que passava por decidir o jogo na primeira meia hora. Mourinho percebeu que o Nacional sofria nas transições laterais e atacou por ali com Prestianni e Dedic, uma estratégia que funcionou na perfeição. Na segunda parte, o foco foi claramente a gestão física, baixando as linhas e tentando ferir no contra-ataque, ainda que os encarnados o tenham feito claramente com menos sucesso.

Já do lado do Nacional, Margarido queria aguentar o primeiro impacto para explorar os espaços nas costas da defesa encarnada, com Witi e Ramírez. Contudo, a equipa entrou taticamente displicente e pagou caro os primeiros 15 minutos de pesadelo. A reação na segunda parte foi positiva, mas sem dúvida insuficiente e incapaz de permitir energias para correr atrás do prejuízo.

Resta ao Benfica apontar baterias para o jogo do próximo fim-de-semana, em Alvalade, onde irá defrontar o bicampeão Sporting, num jogo sem qualquer dúvida decisivo para as duas formações. Uma vitória do Sporting mantém os leões na corrida pelo título e afasta de vez o rival Benfica de corrida pelo segundo lugar e do consequente apuramento para a Liga dos Campeões. Contudo, um triunfo dos encarnados deixa tudo em aberto para essa discussão, colocando a pressão por inteiro nos ombros dos pupilos de Rui Borges. Daqui a uma semana tiraremos conclusões.


Ficha de Jogo

Competição: Liga Portugal Betclic – 29.ª Jornada
Data: 12 de abril de 2026
Local: Estádio da Luz, Lisboa
Árbitro: Fábio Veríssimo
Assistência: 56.594 espetadores 

Benfica: Trubin; Dedic, António Silva, Otamendi, Dahl; Barreiro, Richard Ríos (Barrenechea, 78′); Prestianni (Lukebakio, 77′), Rafa (Aursnes, 77′), Schjelderup (Gonçalo Moreira, 90+2′); Pavlidis (Ivanovic, 76′).
Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Bah, Sudakov, Anísio Cabral.
Treinador: José Mourinho.

Nacional: Kaique; Alan Núñez, Zé Vítor, Léo Santos, José Gomes (Lenny Vallier, 82′); Liziero, Matheus Dias (Filipe Soares, 60′), Labidi (Joel Silva, 82′); Daniel Júnior (João Aurélio, 90+1′), Witi (Pablo Ruan, 60′), Chucho Ramírez.
Suplentes não utilizados: Kevyn, Francisco Gonçalves, Martim Watts, Lucas João.
Treinador: Tiago Margarido.

Golos: Andreas Schjelderup (3′), Rafa Silva (14′).
Disciplina: Cartão amarelo para Dahl (21′), Witi (50′), Léo Santos (56′), Matheus Dias (58′), Joel Silva (89′), Lenny Vallier (90+4′) .

texto: Inês Aires
fotos: Luís Moreira Duarte

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